Assinala-se em 2 de maio o centenário de nascimento de Mário de Miranda, caricaturista de renome internacional, nascido no antigo Estado Português da Índia.Não admira que muitos ignorem se a etnia do artista é goesa ou portuguesa. Na verdade, Mário era indo-português, nascido em Damão, de pai goês e mãe damanense. Constâncio do Rosário Miranda era administrador do enclave, onde conheceu Maria Zulema de Brito, neta de um capitão português do Exército do Nizão de Hyderabad. O casal fixou residência no seu solar brasonado na aldeia de Loutulim, em Goa. A história do brasão conferido ao bisavô de Mário pela captura da Praça de Custobá está consagrada no folclore goês. Inspirou Trikaal, filme de Shyam Benegal que rodou no solar dos Miranda, imortalizando o "carácter latino" de Goa.Em criança, Mário vincara a sua vocação com rabiscos pelas paredes da casa. Zulema oferecia-lhe depois, em cada Natal, agendas, em que o miúdo fazia esboços, com anotações – as suas confissões – em português. Mário exibe influências de Bordalo Pinheiro e de Lopes Mendes. Autodidacta, nos seus diários – santuário de imagens mágicas de Goa, Damão e Bombaim – cristaliza-se um microcosmo de meados do século XX.Em 1952, o Bordalo goês fez sensação na imprensa indiana. Para o ganha-pão, porém, pensava em emigrar para o Brasil. Foi quando o destino no Oriente se revelou-se promissor. Integrou a prestigiada Illustrated Weekly of India e logo outras publicações se renderam ao seu traço que transpunha para o papel o movimento e o som da urbe.Estava-lhe garantida uma carreira ascensional, mas nem sempre lhe era fácil converter o dia-a-dia em gargalhada. "Há momentos em que não tenho vontade de rir e, no entanto, tenho de produzir algo engraçado", dizia. Não era fazedor de anedotas; preferia o humor que surge da narrativa.Desta sobriedade nascia a sua filosofia artística: a de que o caricaturista deve saber rir com as pessoas e abster-se da crueldade. Desdenhando os figurões da política, assumiu-se como caricaturista social e criou um elenco arquetípico que habita a memória colectiva do país. O seu amor intrínseco pelo desenho encontrou o fôlego necessário quando bolseiro da Fundação Gulbenkian em 1959. Percorreu Portugal de lés-a-lés, destilando a essência da alma lusa. Logo depois, em Londres, cruzou-se com os grandes da caricatura, ganhando um sentido de autonomia necessário para encontrar a sua própria voz.Com a tomada de Goa em 1961, Mário viu-se obrigado a regressar com passaporte indiano. Navegou temas sociais e políticos complexos, pois a linha editorial do Weekly tendia a integrar Goa na corrente dominante nacional. Mário assumia uma postura distinta, publicando ilustrações a reafirmar a singularidade de Goa – uma subtil campanha de resistência que manteria até ao fim.Mário transformou a arte da caricatura, aliada ao seu conhecimento da história e literatura, em ferramenta de exploração nas suas viagens a convite de vários países. Esboçava linhas rápidas que a sua memória fotográfica depois convertia em desenhos matizados. Essa técnica evoluiu em ilustrações elegantes a tinta-da-china, com profundidade e variação tonal do grafite e das hachuras.A sua mestria e olhar singular cruzaram fronteiras, consolidando-o como figura central ao intercâmbio cultural. A Fundação Gulbenkian organizou uma exposição de Mário, intitulada Desenhos e Aguarelas, e a Fundação Oriente apresentou na Sociedade Nacional de Belas Artes a retrospectiva Goa e Outros Trabalhos, em homenagem ao mestre que servira como um elo entre Portugal e a Índia.Na meia-idade, Mário perenizou o seu gosto pela ilustração. A sua maturidade artística culminaria num reencontro linguístico. Ao ilustrar Momentos do Meu Passado, de Fernando de Noronha, Mário admitiu que o português dessa obra lhe despertou "memórias nostálgicas da juventude em Goa", fechando um ciclo emocional através da palavra e do traço.Quando regressou a Loutulim, encontrou entre cães, tartarugas e memórias, um cenário congelado no tempo, tal como o deixara meio século antes. O artista inspirou a geração moderna, achando vital documentar o que os olhos novos não viam.Além da sua ubiquidade em postais, T-shirts e azulejos, os murais de Mário definem a paisagem goesa."Goa goza de uma atmosfera distinta do restante da Índia..." afirmava. Embora sentisse ameaçada a herança indo-portuguesa, esperava que o património resistisse e que Goa não abdicasse da sua identidade única, sendo um intransigente defensor da língua e da cultura portuguesas.Mário foi condecorado pela Índia, Espanha e Portugal, uns anos antes de morrer, em 2011. Teve uma despedida sentida, que se repercutiu pela imprensa internacional. Se "A morte é uma curva na estrada, / Morrer é desaparecer de vista", dir-se-ia que Mário dobrou a esquina, mas continua presente. Desde as ruas de Bombaim até ao Fado de Lisboa, passando pelas alegrias de Goa, Mário é uma janela intemporal para um mundo onde cada rabisco da sua mão guarda um toque da sua etnia e magia.Mário de Miranda completava agora cem anos e é, seguramente, um dos maiores símbolos da forte ligação cultural entre Goa e Portugal.