Macau: ninguém sai à rua, todos usam máscara. Portugal está longe deste cenário

Macau ainda não registou nenhum óbito relacionado com covid-19. Depois de vários dias sem novos casos, está agora no 24º - um doente importado. Médico português no território está preocupado com Portugal e o aumento de casos no país.

O médico português representante dos Serviços de Saúde de Macau Jorge Sales Marques disse à Lusa que a 'receita' para vencer a guerra contra o covid-19 passa pelas máscaras, desinfetantes, isolamento e rastreios.

O pediatra, que integra a equipa médica de Macau envolvida na linha da frente do combate ao surto do novo coronavírus, mostrou-se "preocupado", enquanto médico e português, com o aumento de casos em Portugal e com "algumas imagens" que ilustram situações de incumprimento de regras básicas, afirmou em entrevista à Lusa.

Portugal já tem 1600 casos de infeção pelo novo coronavírus e já morreram 14 pessoas - recuperaram cinco. Em Macau, há 24 casos confirmados, mas nenhum óbito.

"Vejo às vezes, com preocupação, como português, (...) imagens na rua e em locais" que mostram pessoas "que não estão a seguir regras", que é preciso "cumprir numa situação de pandemia", afirmou o especialista, salientando que, "a curto prazo (...) será diferente: quando surgirem mais casos e mais mortes o impacto será maior".

Em Portugal, e mesmo depois do anúncio do Estado de Emergência pelo governo, e com instruções de recolher obrigatório, ainda houve famílias a aproveitarem o fim de semana para passeios em grupo e quem não esteja a cumprir as medidas de distanciamento social.

Quem mede a temperatura

O médico português representante dos Serviços de Saúde de Macau Jorge Sales Marques sublinhou que 40% dos casos importados foram detetados no território através da medição da temperatura.

"Fizemos uma coisa muito simples: fazer testes às pessoas todas que entraram em Macau e (...) controlo de temperatura. E posso dizer que em 40% dos casos detetámos [as situações] através do controlo de temperatura", defendeu o pediatra.

O especialista frisou que as "estatísticas apontam para 40%, o que vai ao encontro do que está a ser feito em muitos países".

A medição da temperatura foi uma prática generalizada muito cedo em Macau, logo que teve início o surto da covid-19, quando foram identificados dez casos, que já receberam alta hospitalar.

"É um método importante para deteção (...) porque nós sabemos que, na covid-19, em 80% dos casos as pessoas aparecem com febre, pode ser numa fase inicial ou num período em que está doente", explicou.

Jorge Sales Marques adiantou que esta "deteção precoce da temperatura vai evitar o contágio e a propagação do vírus", num território que está a registar uma outra vaga de casos, importados: 14 numa semana, depois de ter identificado dez numa fase inicial e após ter ficado 40 dias sem novos contágios.

"Tivemos de 'alugar' sete hotéis para meter tantas pessoas", salientou, num momento em que os últimos dados oficiais apontam para quase 1400 pessoas nestes centros de quarentena improvisados que procuram responder à entrada de milhares de pessoas que regressam ao território.

Macau estava pronto e à espera de nova vaga de casos

Há uma equipa que se desloca a Hong Kong para efetuar o rastreio da temperatura no aeroporto internacional do território vizinho das pessoas que depois são encaminhadas para os autocarros especiais que as transportam para Macau, com o controlo para detetar eventual febre a repetir-se nos hotéis. Caso seja detetada, as pessoas são internadas no hospital público, explicou.

O especialista concluiu: "O objetivo número um dos Serviços de Saúde é evitar que o vírus volte novamente a Macau sem ser por via importada, porque os [casos] importados já estavam previstos" e estão a ser detetados "logo no início".

Algo que se irá manter, estimou, depois do final deste mês, "porque a situação não está controlada fora da Ásia, na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo", prevendo que esta "batalha" comece a ser ganha com a melhoria da resposta nos países que estão a viver focos de contágio local.

Vários países adotaram medidas excecionais, incluindo o regime de quarentena e o encerramento de fronteiras, no entanto nem tidos estão a fazer controlo de temperatura - e em Portugal, no aeroporto de Lisboa, há registos de que tem existido aglomeração de pessoas, o que vai contra as recomendações da Direção-Geral da Saúde.

Jorge Sales Marques assegurou que boa parte da 'receita' para se vencer "a 'guerra' que está a ser travada" passa pela utilização de máscaras e uso de desinfetantes, pelos exaustivas medições de temperatura e pelos inevitáveis controlos fronteiriços, salientando a necessidade de se evitar a aglomeração de pessoas, pela disciplina de se ficar em casa, ao encontro de orientações associadas ao distanciamento social.

Mas, usando o exemplo de Portugal, não há equipamentos de proteção suficientes para os profissionais de saúde e para o público as máscaras que aparecem são vendidas a preços exorbitantes, assim como o álcool e os desinfetantes, o que já levou a ASAE a proceder a uma fiscalização na passada sexta-feira: a operação incidiu nomeadamente em equipamentos de proteção individual e dispositivos médicos, como máscaras, luvas e fatos, assim como produtos biocidas designadamente álcool, gel e desinfetantes.

A DGS tem ainda repetido que o uso de máscara é aconselhado apenas para aqueles que têm sintomas - o que não é usado como critério em Macau.

"Temos de combater o ponto mais fraco do vírus", através do "auto isolamento", já que este "só se propaga se tiver pessoas, caso contrário vai morrendo, vai perdendo forças, vai diminuindo o número de mutações, e vai acabar por desaparecer", sustentou, "como médico e como português, preocupado pelo número de casos que estão a surgir" em território nacional.

Jorge Sales Marques integra uma equipa composta por 23 médicos e 60 enfermeiros que combatem a covid-19, "na linha da frente".

Médicos e enfermeiros: turnos de 14 dias e não falta equipamento de proteção

Os profissionais de saúde trabalham por turnos de 14 dias, "completamente equipados com material de proteção individual, que inclui óculos, luvas e máscaras", seguindo, depois de revezados, para uma quarentena de outros tantos dias, que é cumprida numa residência anexa ao local onde prestam serviço equipada com uma centena de camas, em quartos individuais.

"Ficam em isolamento voluntário (...) para impedirem o contágio a familiares ou [a pessoas com] o sistema imunológico comprometido", frisou.

O especialista sublinhou que "os profissionais de saúde que estão na linha da frente, quer em Portugal, quer em Macau, em todos os lados, não querem ganhar essa guerra sozinhos".

"Não queremos ser os heróis desta guerra, temos de partilhar isto", disse, defendendo duas convicções profundas.

A primeira é que "tem de haver sobretudo uma comunhão entre quem manda e quem orienta e quem deve cumprir, que é a população".

A segunda diz respeito ao momento e às ações definidas. "Só com medidas corajosas é que podemos ganhar terreno. Se tivermos medo de atuar vamos perder o 'timing' ideal", sustentou.

Meses de combate à epidemia em Macau e o olhar sobre o que está a ser feito em outros territórios e países em todo o mundo, permitem-lhe fazer uma outra previsão: "Certamente virão novas pandemias e vamos estar mais preparados para as combater logo de início com medidas corajosas".

Primeiros 10 casos, todos curados. Novos 14 são todos importados

Macau já encaminhou milhares de pessoas para quarentena, depois de ter endurecido as restrições de fronteiriças num território que registou numa fase inicial dez casos. Agora, tem 24, mas os primeiros dez já receberam alta hospitalar.

Atualmente enfrenta uma nova vaga, de casos importados: 14 numa semana, depois de ter ficado 40 dias sem anunciar novos contágios.

Um estudante de 21 anos no Reino Unido, que viajou de Londres para Hong Kong, entrou no território no domingo, "tendo declarado, junto do pessoal de quarentena no posto fronteiriço dos Serviços de Saúde, que tinha manifestado febre nos 14 dias anteriores à entrada em Macau", indicou, em comunicado, o Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus.

O estudante, residente de Macau, foi levado para o Centro Hospitalar Conde São Januário (CHCSJ) para realizar análises, "cujo resultado de ácido nucleico relevou positivo para o novo tipo de coronavírus", acrescentou.

Este é o sétimo caso detetado pelas autoridades em pouco mais de 24 horas e o 14.º em cerca de un semana, depois de Macau ter estado 40 dias sem identificar qualquer infeção.

Desde quinta-feira só é possível a entrada de residentes de Macau, Hong Kong, Taiwan e China continental. Mesmo estes passaram a estar sujeitos a uma quarentena obrigatória de duas semanas, caso tenham estado nos 14 dias anteriores em qualquer território ou país.

Segundo os últimos dados do Governo de Macau, estão 1.394 pessoas isoladas em sete hotéis que o Governo de Macau decidiu converter em centros de quarentena.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou mais de 324 mil pessoas em todo o mundo, das quais mais de 14.300 morreram.

Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

O continente europeu é aquele onde está a surgir atualmente o maior número de casos, com a Itália a ser o país do mundo com maior número de vítimas mortais, com 5.476 mortos em 59.138 casos. Segundo as autoridades italianas, 7.024 dos infetados já estão curados.

Vários países adotaram medidas excecionais, incluindo o regime de quarentena e o encerramento de fronteiras.

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