Roberto Martínez quer mais dos jogadores. Mas não dramatiza depois do empate com a República Democrática do Congo, nem atribui responsabilidades individuais no empate de estreia no Mundial 2026. Essas são as principais notas do discurso interno do selecionador português de acordo com o que o DN pôde saber junto de fontes da comitiva nacional. O resultado, assumiu, não foi o esperado, evidenciou necessidades de melhorias coletivas, mas o selecionador precisou que o trabalho tem de ser vocacionado para acrescentar velocidade e imprevisibilidade a toda a equipa. E que, em nenhum momento, pode haver desproteção à baliza de Diogo Costa. Martínez não responsabilizou o ataque por alguma falta de criação de oportunidades, antes, sim, focou o discurso na importância de defesas, laterais, médios e atacantes procurarem desmarcações e passes que criem desequilíbrios, mais apostados na profundidade. Para equipas organizadas atrás da bola, a velocidade na circulação tem de ser maior, de modo a conseguir desposicionar o adversário. Não basta, portanto, olhar para o domínio da posse de bola, nos 75%, e ficar satisfeito com o controlo do ritmo, porque a ideia é explorar melhor o espaço. Ainda assim, pelo que o DN pôde saber, dificilmente existirão mudanças profundas na equipa inicial e estas, caso aconteçam, dever-se-ão sobretudo à análise do adversário e também à gestão física. Como tal, ninguém sai irremediavelmente beliscado do empate com os africanos. As responsabilidades, disse Martínez ao grupo, são coletivas. Qualquer alteração a acontecer será decidida nos próximos dias, com o treino a afinar a estratégia para o segundo adversário (o Uzbequistão, no dia 23 de junho, às 18h00). A gestão física de Nuno Mendes pode obrigar a mudança na esquerda e, em caso de deslocação de João Cancelo para essa posição na defesa, abrir a porta a Nélson Semedo no flanco direito, tal como aconteceu durante o jogo. Os extremos podem ver novidades também.O lance do golo de João Neves será dado como exemplo no sentido de tentar promover uma aproximação dos médios, no corredor central, à baliza adversária. A definição do momento para o cruzamento é outro aspecto a melhorar, de modo aos centrocampistas poderem aparecer a rematar. O selecionador é apologista de um futebol que procure o remate nas melhores condições possíveis, tendencialmente dentro da área, mas foi identificado que somente sete tiros, sendo o do golo o único enquadrado com a baliza, é um número a melhorar e que isso só acontecerá se o ritmo com bola for superior e todos os setores estiverem envolvidos no processo.“Tivemos posse nas zonas onde a RD Congo podia estruturar-se defensivamente e armar o contra-ataque”, identificou na análise o selecionador português, que vai insistir com o plantel na reação à perda de bola, mas, acima de tudo, pedir aos defesas e médios que subam coletivamente e mantenham os setores próximos, de modo a que em caso de bola perdida a equipa esteja pronta a recuperá-la rapidamente. O golo sofrido está também nos planos de trabalho. Wissa aproveitou uma superioridade de 3x2 entre o segundo poste e o centro da área e o desposicionamento após o canto curto será analisado, procurando a correção devida.Augusto Inácio não vê Bernardo à direita e critica discurso do técnicoO DN conversou com Augusto Inácio para o treinador campeão pelo Sporting em 2000 fazer a análise do empate de Portugal contra a RD Congo. “Houve uma entrada positiva. Portugal conseguiu domar a impetuosidade da RD Congo, mas depois sentiu que era fácil, abdicou de procurar profundidade. Não sei se ficámos relaxados, se os jogadores estavam em boas condições físicas. Vou dar o benefício da dúvida até ao jogo com o Uzbequistão para perceber se a adaptação aos EUA correu bem. Acho que há cargas a terem de ser geridas e receio que ao ir para os EUA a cinco dias de começar o Mundial tenha sido pouco tempo de ambientação”, começa por dizer Augusto Inácio, que diz não esperar muitas mudanças. Ainda assim, identifica que Bernardo Silva esteve abaixo do exigido. “O corredor direito não existiu. O Bernardo ou joga no meio ou não joga, já nem no City alinhou naquela posição para tentar diagonais”, aponta, alargando a crítica a Cancelo, lateral, que, porém, mantinha no onze. “O Trincão poderia aportar coisas como titular, assumindo que o Francisco Conceição agita mais vindo do banco e deu algumas sapatadas”, explana Inácio. O ex-internacional, presente no Mundial de 1986, diz preferir “um triângulo invertido no meio-campo”, considerando que “Bruno Fernandes nunca entrou no jogo a partir da posição 10”. Manteria Pedro Neto, até pelo sentido “operário”, e criticou a “irregularidade de Rafael Leão.” “Parecia que não queria nada com o jogo”, comenta. Na frente, defende Ronaldo. “Ramos dá outra mobilidade, mas manteria Ronaldo. Todos lhe apontam o dedo, mas não teve bolas em condições”, atira.Para Augusto Inácio fica claro que a opção por dois avançados não é equacionada como solução primordial pelo selecionador. “Com alguma surpresa, Martínez apostava no João Félix quando não tinha clube para iniciar a temporada e agora que está a jogar, e que se entende com o Ronaldo [são colegas equipa no Al-Nassr], admiro-me por não dar chance a essa dupla. Não percebi a ideia de Ramos com Ronaldo. Foi tarde [83 minutos] e não se pode colocar um jogador a esperar que a dinâmica seja forte quando pouco o treinaste. Foi uma substituição para a bancada”, categoriza, apontando para “um resultado que coloca a calculadora nas mãos”. Por outro lado, diz que Martínez falhou no discurso. “Se Portugal quer algo mais do Mundial tem de ter mais vontade. É preciso esse sinal do líder. Não podes dizer que fazes um grande jogo, mas que queres muito mais. O grito de revolta não tem de ser público, mas quis desculpar-se ao dizer que Portugal teve mais pressão quando se viu a ganhar. Há melhor motivação do que o golo?”, questiona.Inácio considera, no entanto, que as notícias em Inglaterra que apontam à saída de Martínez não prejudicam porque, diz, que o cenário já é antecipado há muito: “Não vem de agora, quando tomou posse Pedro Proença deixou a entender que podia haver mudança depois da Liga das Nações, mas Portugal ganhou essa prova.”Uzbequistão: atenção à parceria do BasaksehirA seleção nacional regressou na madrugada de quinta-feira (2h30, horário de Portugal Continental) à Flórida, após um voo de duas horas desde Houston. Depois do empate com a República Democrática do Congo, os atletas utilizados fizeram trabalho de recuperação. Rúben Dias continua em trabalho condicionado e em gestão física para os próximos jogos. Ontem, como tem sido hábito, não existiram atividades dedicadas à comunicação social. Roberto Martínez queixou-se até, na véspera, de “sete ou oito flash interviews” como rotina, desculpando a saída de Ronaldo em direção ao balneário. Houve concentração do grupo, algumas palavras de ordem e observação de nuances táticas que se pretende corrigir, mas entendeu o selecionador nacional que é necessária uma certa descompressão da competição e, como tal, os jogadores tiveram tempo livre para dedicarem também às famílias. O regresso aos treinos está marcado para esta sexta-feira, quando a Seleção começará a preparar ativamente o jogo de terça-feira, contra o Uzbequistão.Identificado o adversário, que jogou contra a Colômbia, está claro que Fabio Cannavaro vai priorizar a defesa e que encaixa o esquema de 5x4x1 quando em processo defensivo. A derrota por 3-1 contra os cafeteros não deixou de mostrar uma equipa sólida nos cruzamentos para a sua área - com Khusanov, do City, líder na defesa - e solícita nas transições. Fayzullaev, extremo rápido, marcou o golo da equipa, que tem na parceria com Shomurodov, colega no Basaksehir, o ponto forte do ataque. O ponta de lança marcou 22 golos na liga turca em 2025/26. Há, portanto, atenção necessária na bola parada. Fica o aviso para a forma afoita como a equipa tentou sair a jogar, atirando oito vezes à baliza da Colômbia... mais uma do que Portugal no encontro com a RD Congo.Imprensa. Ronaldo foi o mais criticadoNa revista de Imprensa internacional ao empate de Portugal com a República Democrática do Congo, Cristiano Ronaldo, pelo mediatismo natural de longa data, é o mais visado em manchetes. “Cristiano dececiona”, anota o Mundo Deportivo. “Ronaldo erra duas vezes”, enumera o Bild, da Alemanha. “CR7 erra muito e Portugal tropeça: RD Congo rouba o protagonismo”, analisa o jornal italiano Gazzetta dello Sport. “Ronaldo desaparecido, Conceição agita o jogo, mas não é suficiente”, escrevem os transalpinos do TuttoSport. “Ronaldo não consegue acompanhar Messi”, precisa o Voetbal International. “Portugal completa o furo ibérico”, lembra o jornal Marca, aludindo ao empate de Espanha com Cabo Verde. “Portugal neutralizado”, aponta, em França, o L’Équipe. .Portugal tem estreia frustrante e não vai além do empate com o Congo no Mundial.Rúben Dias avalia condição antes da estreia de Portugal contra a RD Congo.Mundial 2026. Da rotação defensiva à referência única no ataque: as ideias que Martinez já fechou