Banca nacional "está bem preparada" para as tensões geopolíticas
A banca portuguesa "fez o trabalho de casa" e "está bem preparada" para as tensões geopolíticas e para um eventual abalo na Europa, disse esta quinta-feira, 8 de outubro, Nuno Amado, presidente do BCP, na Money Conference 2026, uma iniciativa do Diário de Notícias e do Dinheiro Vivo, que decorre em Cascais. "Não me lembro do país estar numa situação de tensão como a atual tão bem preparado", sublinhou.
Nuno Amado afirmou estar é particularmente preocupado com a Europa. Como disse na sua intervenção no painel Sector Financeiro, IA e Risco Geopolítico na Era da Incerteza, "a visão global é fundamental pelos efeitos colaterais que tem em termos da atividade global", com repercussões na economia e no sistema financeiro, mas o que "me preocupa muito mais é a situação europeia. Essa é a minha primeira e principal área de preocupação".
Hoje, a banca "está a gerir com cuidado este processo e está preparada para este ciclo mais intenso", frisou Nuno Amado. E está confortável porque houve um trabalho dos bancos, dos bancos centrais e de legislação. "A legislação, a regulação e a supervisão melhoraram muito", frisou. Em suma, "aprendemos com os erros e tivemos a capacidade de implementar as medidas para minimizar os riscos sem onerar demasiado a economia e a poupança".
Há, contudo, desafios para os bancos centrais e, no contexto da União Europeia, para o Banco Central Europeu. Na opinião de Nuno Amado, o cenário é complexo. Há a ter em conta "os riscos geoestratégicos, com os efeitos que têm, por exemplo, ao nível da inflação, que implicam resposta, o nível de endividamento dos Estados, e de alguns Estados muitíssimo grande, e o nível de endividamento das empresas que estão a investir fortemente em IA". Mas também dos Estados com investimentos ligados à digitalização e à IA, ao clima e à defesa. No meio disto, "há uma elevada valorização de alguns ativos".
Já António Martins da Cruz, embaixador e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, elencou quatro fatores que, na sua perspectiva, "contribuem para a incerteza e para a volatilidade em que vivemos" no plano geopolítico: a escalada da Rússia na Ucrânia, a crise no Médio Oriente, que deixou de ser local para passar a ser regional, as tensões estratégicas entre a China e os Estados Unidos e entre a China e a Europa, e as incertezas da administração Trump.
Martins da Cruz defendeu que o fim da guerra na Ucrânia só será possível na mesa de negociações, com os Estados Unidos a assumir o papel de moderador. "Não vai terminar de um ponto de vista militar, senão já tinha terminado", afirmou.
No Irão, o Paquistão já demonstrou que não tem capacidade para mediar o conflito que grassa no Médio Oriente. Martins da Cruz apontou a China como potencial moderador ou então a retirada dos americanos. Esta última solução, deixaria "o campo livre para Israel", que "jamais vai permitir, muito mais que os Estados Unidos, que o Irão disponha de armas nucleares".
O mundo enfrenta também a guerra comercial e tecnológica entre os EUA e a China, e entre a Europa e a China. "A Europa não sabe, neste momento, o que quer da China. A Europa está dividida e considera a China um parceiro económico, um concorrente e um rival sistémico", disse Martins da Cruz.
Para Martins da Cruz, "nós estamos a transformar a economia numa arma de guerra, com sanções, com taxas alfandegárias, com restrições de mercado, que provocam a inflação, a instabilidade nos mercados financeiros, afetam o preço da energia".
E soma-se o quarto problema: a volatilidade da administração Trump. Segundo o embaixador, a administração Trump, como por exemplo no caso do Irão, dá a noção de estar "dividida. Uns pensam uma coisa, outros outra".
Neste quadro complexo e incerto, Martins da Cruz apontou três principais prioridades na política externa portuguesa: a Europa, o Atlântico, ou seja, a relação com os Estados Unidos, e os países onde se fala português e a diáspora portuguesa. "É nestas prioridades que nós temos que encontrar soluções para as crises", sublinhou.
O painel contou ainda com a intervenção de João Cortez de Lobão, fundador da gestora de fundos de investimento Mare Nostrum, que lembrou que "ao longo da história, sempre houve guerras, houve crises, houve mudanças, houve problemas profundos". Por isso, "não nos façam os pés pesados para tomarmos as decisões", pediu.
