Quando soube que a Associated Press ia acrescentar Portugal ao território que cobria enquanto business executive da agência noticiosa, Zeynep Tinaz Redmont mal queria acreditar. Afinal já tinha estado em Portugal muitas vezes, onde o marido americano tem família, mas nunca tivera oportunidade de visitar Lisboa. A capital foi amor à primeira vista- “foi a luz, o céu azul, a simpatia das pessoas, a tranquilidade”. A jornalista turca decidiu então seguir os conselhos de uma amiga e ficar num hotel perto da rua das Janelas Verdes. Um dia, ao passear pela zona, reparou num cartaz a dizer “Vende-se”. Foi visitar o apartamento, viu o rio pela janela e deu o primeiro passo para fazer de Lisboa a sua casa. Mais tarde decidiria partilhar online através dos Lisbon Diaries histórias sobre Lisboa (e não só) que publica na plataforma Substack. Dos pastéis de nata ao calendário dos bombeiros ou às eleições presidenciais..“Consegui que me mostrassem a casa. Estava um pouco descuidada, mas adorei tudo. As escadas, a cozinha, a vista sobre o Tejo”, recorda Zeynep, enquanto come umas garfadas do seu bacalhau à Brás, no restaurante de um hotel no centro de Lisboa. De volta a Roma, onde vivia na altura, Zeynep não desistiu de comprar o apartamento. Contratou um advogado e apresentou a sua oferta. Aos amigos que lhe perguntavam como ia arranjar o dinheiro, respondia para não se preocuparem. Entretanto já tinha colocado os apartamentos que tinha em Ancara à venda - com o dinheiro do primeiro deu a entrada, com o do segundo, pagou o resto e as obras. “Mas como vais fazer as obras?”, perguntava o marido? “Eu respondia: algo vai acontecer. Acredito nos acasos felizes”, vai contando Zeynep, antes de perguntar: “Sabe a palavra turca kismet”, que significa ‘destino’? Foi isso que acredita ter acontecido. Tudo porque um dia o marido lhe liga a dizer que está no comboio de Nápoles e a pedir para ela lhe enviar a planta do apartamento. Perante a surpresa da mulher, Dennis Redmont, ele próprio durante longos anos jornalista da AP, incluindo em Portugal e no Brasil, explica ter conhecido uma arquiteta no comboio, portuguesa, cujo irmão vivia ao lado do apartamento e que se ofereceu para ajudar com a renovação do mesmo. “Passámos a vir cá cada vez mais vezes. E a ficar cada vez mais tempo”, recorda Zeynep. E assim se passaram uns cinco anos até que a covid veio mudar tudo. “Durante a covid decidimos mudar-nos para cá a 100%”. explica a jornalista. Foi aliás no dia em que entregaram as chaves do seu aparta- mento em Roma ao senhorio que os Redmont ouviram as notícias do primeiro caso de covid em Itália. Zeynep garante ter pressentido que algo ia correr muito mal, por isso foi logo comprar os bilhetes de avião. Desde então, voltaram a Roma em trabalho, para casamentos ou outros motivos, mas Lisboa passou a ser a sua casa. Formada na Middle East Technical University em Ancara e com um mestrado em Ciência Política, Zeynep entrou na AP “há cem anos”, brinca, garantindo que “é o que digo sempre para não ter de dizer há quanto tempo foi”. Trabalhou para o The Washington Post onde conseguiu uma bolsa de jornalismo em 1986, nos tempos lendários do jornal, quando era diretor Ben Bradley, que liderara a investigação ao escândalo Watergate. A sua carreira levou-a da sua Turquia natal a países tão diversos como o Azerbaijão, Bulgária, Roménia ou Israel, também Grécia, Itália ou Espanha. Zeynep acabou por sair da AP no final de 2024. Foi então que começou a pensar no que fazer a seguir. Organizadora de casamentos? Conselheira de moda? As ideias fervilhavam na cabeça de Zeynep, enquanto se lançava em maratonas de culinária para aliviar o stress. Mas a melhor amiga disse-lhe para “get serious”, fazer o que sabia melhor e começar a escrever. Assim nasceram os Lisbon Diaries. “Vejo tantas coisas que me interessam”, conta, que decidiu partilhar essas experiências com os leitores. A plataforma escolhida foi o Substack e é aí que coloca artigos, em texto ou som e sempre em inglês, sobre assuntos que vão do bolo rei, às exposições de arte, concertos e peças de teatro, mas também questões mais sérias como as tempestades que assolaram Portugal este inverno ou as eleições presidenciais. Neste âmbito, Zeynep publicou recentemente uma entrevista exclusiva com Henrique Gouveia e Melo, o almirante que ganhou fama a coordenar a vacinação na covid e que foi candidato a Belém. Uma conversa em que o entrevistado até falou da guerra no Irão..Gouveia e Melo: "É imperativo adaptarmo-nos à natureza em constante evolução da guerra".Entre os artigos mais populares da jornalista turca estão um em que foi conhecer os musculados bombeiros do calendário, chamando a atenção para o drama dos incêndios em Portugal, ou o que escreveu sobre a “arte” de fingir que se fala português, gerando muitos comentários por parte da cada vez maior comunidade de estrangeiros em Portugal. .Um país que Zeynep garante agora ser o dela também, mesmo se afirma que as raízes turcas farão sempre parte do seu ADN. “Eu sei que Lisboa é a minha casa. Gosto da minha rua, gosto de olhar para o Tejo. Acordo feliz”. Com os Lisbon Diaries, diz, “pretendo contribuir para a comunidade, aprender mais e dar a conhecer a vida e as atividades daqui, numa perspetiva jornalística. É também a minha forma de retribuir à cidade que me acolheu e me fez sentir em casa.”."Um dia chegaram a vir oito pides à minha procura. Só 50 anos depois soube porquê"