O chinês Xi Jinping, o indiano Narendra Modi e o russo Vladimir Putin serão os líderes em que os focos irão incidir este domingo, 30 de agosto, e na segunda-feira (1 de setembro) em Tianjin, no norte da China. Juntos, os seus países ocupam mais de 19% da superfície terrestre e os seus habitantes são 38% do total global e é numa demonstração da sua relevância enquanto alternativa aos Estados Unidos que Pequim se esforçou para organizar a maior cimeira de sempre da Organização de Cooperação de Xangai.A presidência rotativa da Organização, nas mãos da China, espera a presença dos chefes de Estado e de governo dos 10 países membros, assim como de 13 outros estados, entre observadores, parceiros e convidados, além de uma dezena de outros representantes de organizações internacionais, com o secretário-geral da ONU, António Guterres, à cabeça. Da cimeira em si os observadores não esperam qualquer novidade para lá da sua utilização como uma frente, eminentemente asiática e com liderança chinesa, para contrariar o líder do país mais poderoso. Ou, como disse Xi Jinping em julho, quando recebeu os chefes da diplomacia destes países, "face a um panorama internacional turbulento e em constante mudança", a Organização de Cooperação de Xangai deve "desempenhar um papel mais proativo, inspirando maior estabilidade e energia positiva ao mundo". .PM indiano disse a Zelensky que apoia as iniciativas para restabelecer a paz antes de encontro com Putin.Os objetivos de Xi, Modi e Putin são diferentes, mas aproxima-os um denominador comum na cimeira da organização que nasceu como um bloco regional de segurança e que hoje pugna pelo chamado "espírito de Xangai", ou seja, confiança mútua, igualdade, respeito pelas diversas civilizações e busca de desenvolvimento comum. Um conjunto de princípios a que quase qualquer estado pode aderir, ainda que a sua liderança não o respeite. Para Xi, a semana reveste-se de especial significado e que terá o seu auge com o desfile militar em Pequim, onde as forças chinesas irão revelar armamento novo e fazer uma demonstração de força. Em Tianjin, metrópole de 14 milhões de habitantes, o presidente chinês alcandora-se como o líder incontestado do mundo nos antípodas — não só geográficos — do Ocidente, ao defender a estabilidade, um mundo multipolar e alternativas práticas às taxas aduaneiras e sanções dos Estados Unidos. “O único assunto que eles vão discutir é os Estados Unidos, as suas políticas e as suas tarifas”, disse à CNN Sushant Singh, professor de estudos asiáticos na Universidade de Yale."A capacidade da Organização de Cooperação de Xangai de alcançar qualquer objetivo será limitada enquanto os seus membros concordarem mais sobre aquilo a que se opõem do que aquilo que defendem", escrevem em texto conjunto os investigadores do Australian Strategic Policy Institute Raji Rajagopalan e Alex Bristow e do subeditor do The Strategist. "Mas isso poderá mudar se os EUA se afastarem ainda mais da ordem liberal do pós-guerra que estabeleceram em função dos seus próprios interesses esclarecidos. Nesse sentido, o espectro de Trump far-se-á sentir em Tianjin, mesmo que ele não tenha sido convidado para a festa", concluem.Desfile militarApós a cimeira, Xi preside na quarta-feira ao desfile militar que marca a capitulação formal do Japão na II Guerra Mundial. Na praça Tiananmen terá à sua direita Vladimir Putin e à sua esquerda o norte-coreano Kim Jong-un, e perto estarão mais 24 líderes, alguns dos quais repetentes da cimeira de Tianjin. Tóquio pediu aos governos dos países em que está representado para não aceitarem o convite, tendo alegado o tom antinipónico das comemorações. Pequim denomina a II Guerra de "guerra de resistência contra a agressão japonesa" e "Guerra Mundial Antifascista". Por outro lado, os países europeus também sinalizaram que não iriam estar num evento junto de Putin. A romper a unidade da UE, o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, confirmou a presença. Escoar petróleoPara o líder russo, procurado por crimes de guerra, qualquer oportunidade para sair do isolamento imposto a ocidente é importante. Mas mais do que a imagem, a Putin interessa discutir formas de aprofundar a relação comercial com a China, de cuja liderança a economia de guerra do seu país está dependente. As trocas comerciais entre os dois países caíram 8,1% no período de janeiro a julho, em relação ao mesmo período do ano anterior. A composição da delegação russa, que inclui a governadora do banco central e os administradores das principais empresas russas, prova a importância da viagem de quatro dias. Segundo o assessor da presidência Ushakov, serão assinados três documentos relacionados com a Gazprom, a maior petrolífera russa, entre os países que em 2022 se comprometeram em aprofundar uma parceria estratégica "sem limites".À Reuters, uma fonte próxima do governo russo comenta com rara franqueza a dependência de Moscovo em relação às exportações de petróleo e à importação de tecnologia chinesa. "Sem eles, não teríamos sido capazes de fabricar um único míssil, muito menos um drone, e toda a economia teria entrado em colapso há muito tempo. Se eles quisessem, a guerra já teria acabado há muito tempo."Reatar relaçõesJá o primeiro-ministro indiano navega noutras águas. Nova Deli não abdica do princípio de autonomia estratégica, o que permite fazer parte de uma organização liderada pela China e ao mesmo tempo participar na iniciativa que inclui os EUA, o Japão e a Austrália para cercear a influência chinesa no Indo-Pacífico. A guerra comercial instaurada por Donald Trump castigou a Índia em particular, com os seus bens a serem taxados em 50% nas alfândegas norte-americanas. A decisão de Narendra Modi aceitar o convite de Xi foi anterior à duplicação da taxa aduaneira, mas é um excelente pretexto para o nacionalista hindu procurar vias alternativas para a economia do país mais populoso. Além disso, a deslocação à China tem como objetivo normalizar as relações com o regime comunista depois da violência entre militares de ambos os países em 2020 e da tensão fronteiriça que subsistiu até agora..Kaja Kallas diz que Putin "está a gozar" com esforços de paz na Ucrânia