Um mês depois do início de uns protestos que começaram com comerciantes e estudantes a manifestarem-se contra o aumento do custo de vida em Teerão, e rapidamente alastraram a outras cidades iranianas, passando a ter o governo dos ayatollahs como alvo principal, parece começar a levantar-se a ponta do véu sobre a verdadeira dimensão da repressão contra os manifestantes. Enquanto os números oficiais falam em pouco mais de 3000 mortos, a larga maioria membros das forças de segurança, Mai Sato, a relatora da ONU para o Irão, garantiu em entrevista ao jornal Le Monde que o número de vítimas pode chegar às “dezenas de milhares”. Uma situação tão grave que mereceu duras críticas da Nobel da Paz iraniana Shirin Ebadi, que apelou mesmo à “eliminação” do guia supremo, o ayatollah Ali Khamenei, como única solução. Sato, que dias antes avançara um número mais concreto, 20 mil mortos, em declarações dessa vez à Bloomberg, baseia-se nos relatos de testemunhas, sobretudo junto dos médicos e dos responsáveis pelas morgues. Já o grupo de Direitos Humanos HRANA, com sede nos EUA, estimou o número de mortos relacionados com os distúrbios em 5937, incluindo 214 agentes de segurança, mas está a investigar outras 17 mil mortes.Perante uma verdadeira guerra de números, Sato garante que a verdadeira dimensão da “matança” realizada pelo regime iraniano foi ocultada pela falta de comunicações, uma vez que o país está sem acesso à internet desde 8 de janeiro. A decisão de manter o blackout em relação ao que se passa no Irão parece não ser totalmente consensual dentro das mais altas esferas do poder iraniano, onde, segundo o diário The Guardian, decorre uma batalha sobre os riscos políticos de continuar a bloquear a internet. Já esta semana, o próprio filho do presidente iraniano pediu que as restrições à internet no país fossem suspensas, afirmando que nada será resolvido ao tentar adiar o momento em que fotos e vídeos dos protestos violentamente reprimidos pelo regime circularão. Yousef Pezeshkian, cujo pai, Masoud, foi eleito no verão de 2024, afirmou na sua conta do Telegram que manter o bloqueio digital só criaria mais insatisfação e aumentaria o fosso entre o povo e o governo.“Isto significa que aqueles que não estavam e não estão insatisfeitos serão adicionados à lista dos insatisfeitos”, escreveu o também conselheiro do governo naquela rede social. E acrescentou que a divulgação de vídeos a mostrar a violência dos protestos é “algo que teremos de enfrentar mais cedo ou mais tarde”. Por isso, “desligar a internet não resolverá nada, apenas adiaremos a questão.”O lento e esporádico levantamento do bloqueio à internet permitiu, nos últimos dias, ao resto do mundo ter uma melhor ideia do que se passou no Irão no último mês. Mas ainda é difícil ter uma ideia concreta sobre quantos manifestantes, incluindo crianças, morreram nos protestos. A ONG Iran Human Rights, sediada na Noruega, afirma que o número final pode chegar a 25 mil mortos. Milhares de outras pessoas continuarão detidas.A Mai Sato chegaram relatos de que alguns manifestantes terão sido retirados dos hospitais e detidos pelas forças de segurança iranianas, numa grave violação do direito à assistência médica previsto no Direito Internacional.A relatora especial das Nações Unidas para o Irão disse, numa outra entrevista, desta vez à Reuters, que as famílias estavam a receber pedidos de resgate de cinco mil a sete mil dólares para recuperarem os corpos dos seus entes queridos, um valor exorbitante tendo em conta as dificuldades económicas do Irão.Sobre as exigências de resgate financeiro feitas pelas autoridades iranianas, Sato garantiu: “Esta prática agrava ainda mais o sofrimento com extorsão.” A relatora da ONU explicou ainda que as tentativas do regime do ayatollah Khamenei, o guia supremo e líder de facto do Irão, de rotular os manifestantes como “terroristas” ou “desordeiros” têm como objetivo justificar uma repressão brutal ao que a académica japonesa descreveu como um movimento local e orgânico. .Guardas da Revolução, a arma da repressão do regime iraniano.Em meados de janeiro, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano afirmou que os protestos antigovernamentais não podem ser descritos como manifestações, considerando-os, antes, como uma “guerra terrorista contra o país”. Abbas Araghchi afirmou que “as autoridades iranianas têm gravações de mensagens de voz enviadas a elementos terroristas ordenando-lhes que abram fogo contra civis e forças de segurança”.O ministro admitiu que os protestos começaram a 28 de dezembro como “manifestações pacíficas e legítimas” de comerciantes, mas que depois se tornaram violentas. E acusou os grupos de atacarem edifícios governamentais, esquadras de polícia e lojas, garantindo que as autoridades têm imagens que mostram armas a ser distribuídas aos manifestantes.Apesar das suas grandes reservas de petróleo e gás natural, o Irão enfrenta uma grave crise económica provocada por um misto de sanções internacionais, inflação alta e a desvalorização do real. Entre meados de dezembro e meados de janeiro a inflação aumentou 2,4% em relação ao mês anterior, ultrapassando os 44,6% anuais em geral e 89,9% no caso dos alimentos, tendo-se agravado desde o início dos protestos.Apelo de uma NobelNuma recente entrevista ao jornal Le Figaro, Shirin Ebadi não poupou nas palavras para descrever o “banho de sangue” no seu país natal. A Nobel da Paz 2003 garantiu que “no Irão, não há outra solução senão a eliminação seletiva do líder supremo, Ali Khamenei”. Exilada em Londres desde 2009, Ebadi lamentou ainda ter participado na Revolução de 1979 que levou ao derrube do xá Mohammad Reza Pahlavi e à instauração da República Islâmica, liderada, na altura, pelo ayatollah Ruhollah Khomeini.Cansados da corrupção do regime, os iranianos acreditaram no regime dos ayatollahs, mas hoje, passado quase meio século, é pelo derrube de Khamenei, que em 1989 sucedeu a Khomeini por morte deste, que se grita nas ruas de Teerão e de outras cidades iranianas. E entre as palavras de ordem ouvem-se também muitos gritos de “Javid Shah”, que significa “vida longa ao xá”, e “Pahlavi vai voltar”. Este Pahlavi é Reza Pahlavi, de 65 anos, o filho mais velho do último xá do Irão, que morreu no Egito um ano depois de ter sido derrubado..Logo a 29 de dezembro, Pahlavi - que tinha 18 anos quando o pai foi derrubado e vive exilado nos EUA - escrevia no X: “Meus compatriotas, tomastes as ruas nas vossas próprias mãos. Estou convosco. A vitória é nossa, porque a nossa causa é justa e porque estamos unidos.” Desde então, tem-se multiplicado em entrevistas. Numa delas, também ao francês Le Figaro, disse-se “pronto para voltar ao Irão”.Crítico do regime e defensor de um Irão democrático e secular, Pahlavi já deixou bem claro que não pretende restaurar a monarquia. Fundador em 2013 do Conselho Nacional do Irão por Eleições Livres, para muitos, na diáspora iraniana e na oposição, o filho do xá tem um papel simbólico a desempenhar e pode ser um potencial líder durante a transição.Mas nem todos estão convencidos. A começar pelo presidente dos EUA. Apesar de afirmar que Pahlavi “parece um tipo muito simpático”, Donald Trump mostrou ter dúvidas sobre a sua capacidade de obter apoios no Irão. “Não sei se o seu país iria aceitar a sua liderança”, afirmou. Depois do início dos protestos, Trump prometeu aos manifestantes que a ajuda estava a caminho e ameaçou as autoridades iranianas com um ataque dos EUA se não parassem de matar manifestantes.Nesta terça-feira, 27 de janeiro, numa entrevista ao site Axios, Trump afirmou que o Irão está disposto a negociar com os EUA. Mas a Casa Branca garantiu que um ataque militar é uma opção que continua em cima da mesa. E o próprio Trump lembrou que, com a chegada do porta-aviões USS Abraham Lincoln ao Médio Oriente, na segunda-feira, os EUA estão prontos para qualquer cenário, tendo na região uma “grande Armada”. Esta não é a primeira vez que o Irão assiste a violentos protestos nas ruas contra o regime. Em 2009, depois das presidenciais que ditaram a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, milhares de pessoas saíram às ruas no que ficou conhecido como o Movimento Verde, da cor da campanha do candidato reformista Mir Hossein Mousavi. Mas a forte repressão acabou por levar a melhor sobre os manifestantes. Em 2022 foi a morte de Mahsa Amini, uma jovem curda de 22 anos morta quando estava sob custódia policial após ter sido detida pela polícia dos costumes por não obedecer às regras de uso do Hijab. Milhares de iranianos saíram às ruas primeiro em defesa dos direiros das mulheres, mas rapidamente também a favor da mudança de regime. O movimento recebeu apoio internacional, mas mais uma vez a forte repressão, com centenas de mortos e mais de 20 mil detidos, acabou por vencer. Perante estes novos protestos, iniciados há um mês, o desfecho pode ser diferente? Segundo os analistas, a mudança de regime pode mesmo vir a acontecer. “Esta é uma situação económica muito mais fraca, uma circunstância geopolítica muito pior para o Irão, e a dissidência dentro do próprio sistema está claramente num nível diferente”, diz à Al-Jazeera Trita Parsi, vice-presidente executivo do Quincy Institute. E Sharan Grewal, da Brookings Institution, recorda que “no Irão, em 1978, foi o Massacre da Sexta-feira Negra que galvanizou os protestos e os transformou em revolução. Se os iranianos de hoje levarem estas lições a sério e redobrarem a resistência pacífica, poderão começar a desmoralizar as forças de segurança e iniciar uma cascata de deserções que derrubará o regime. Todas as revoluções parecem impossíveis, até se tornarem inevitáveis.”.Quem é Reza Pahlavi, por quem os iranianos clamam nos protestos?