Com ou sem músculos adicionados por programas de edição de imagem, os dois instantâneos publicados pela fotógrafa oficial da presidência francesa, Soazig de La Moissonnière, tiveram o condão de recentrar as atenções em Emmanuel Macron numa altura em que tenta afirmar-se como o líder de uma estratégia europeia de segurança e defesa, em contraponto à ameaça que representa mais seis anos de Vladimir Putin no Kremlin. .Quatro dias depois de ter publicado fotografias da viagem do presidente francês a Berlim, onde se encontrou com o chanceler alemão, Olaf Scholz, e com o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, num encontro em que o tema foi o apoio à Ucrânia, Soazig de La Moissonnière apresentou um Emmanuel Macron em versão Jake La Motta (a personagem imortalizada por Robert De Niro em O Touro Enraivecido) ou de outro ator que tinha como paixão o boxe, Jean-Paul Belmondo. .Não foi a primeira vez que Macron se mostrou com luvas de boxe. Em abril de 2022, em plena campanha eleitoral, deslocou-se a Saint-Denis, nos subúrbios de Paris, e em pleno estádio, de camisa e gravata, atacou à esquerda e à direita um paciente treinador de pugilismo. Em janeiro deste ano, quando faltavam 200 dias para o arranque dos Jogos Olímpicos de Paris, o chefe de Estado francês publicou um vídeo filmado pelo próprio, desta vez com as luvas penduradas ao ombro e um saco de boxe em fundo, no qual convidava a população a praticar pelo menos 30 minutos de desporto por dia e no qual mostrava esperança de que o seu país obterá muitas medalhas nos Jogos..Os mais atentos já sabiam que Macron se convertera à modalidade. Em novembro, a primeira-dama, Brigitte Macron, em entrevista à Paris-Match, revelou que o marido pratica boxe duas vezes por semana, durante 45 minutos, no que parece ser uma tendência entre os políticos franceses, quer do campo centrista (o ex-primeiro-ministro Édouard Philippe, o ex-ministro Olivier Véran) quer do centro-direita (a presidente da região de Paris, Valérie Pécresse, e a ministra da Cultura, Rachida Dati)..Desta vez, porém, a mensagem não foi dirigida diretamente aos cidadãos franceses e não tem relação com Paris2024. Vem no seguimento das reiteradas declarações de Macron sobre a possibilidade de militares europeus virem a ser destacados para a Ucrânia e do processo eleitoral - criticado pela União Europeia, não só por ter decorrido “num espaço político cada vez mais reduzido” mas também pela realização de “pretensas ‘eleições’” nos territórios ucranianos ocupados - que culminou com a vitória de Putin com 88% dos votos..Para o especialista em comunicação política Philippe Moreau-Chevrolet, Macron “está a experimentar o estilo populista, a tentar responder a Vladimir Putin no seu território”. Além da famosa foto a cavalo de tronco nu, o líder russo já foi fotografado a praticar judo, hóquei em gelo, a disparar um tranquilizante a um tigre siberiano, a descobrir artefactos no fundo do Mar Negro, etc. “Como tal [Macron] escolheu uma modalidade desportiva “violenta, mas com regras, como a política”, disse à AFP. “É também uma imagem muito dramatizada, como é frequentemente o caso de Emmanuel Macron, do herói que vence o sofrimento”, conclui Chevrolet..Não faltou quem apontasse para os bíceps de Macron e concluísse serem produto de contrabando digital. “Não sei se [as fotos] foram retocadas ou não, e isso não interessa. O que sei, no entanto, é que se inscrevem na virilidade neopopulista que certos dirigentes tanto apreciam hoje em dia, a começar pelo mestre do género (até agora) Vladimir Putin”, comentou no X Eric Anceau, professor de História Contemporânea na Universidade de Lorena..Prova de que Paris insiste na ambiguidade estratégica, o chefe das forças armadas, Thierry Burkhard, disse aos jornalistas que a Rússia não deve esperar que o Ocidente limite o apoio à Ucrânia ao fornecimento de armas. Enquanto isso, em Moscovo, o vice-presidente da Duma, Pyotr Tolstoi, ameaçou “matar todos os soldados franceses que cheguem a solo ucraniano”. Em entrevista à BFMTV, insistiu na ameaça nuclear, ao dizer que Moscovo “está a fazer cálculos” sobre um hipotético ataque nuclear à capital francesa. .Da política para o ringue e vice-versa.A arena política é useira e vezeira em metáforas de combate. Por vezes, este é real. Além das cenas de pugilato que já ocorreram em vários parlamentos mundo fora, em 2012 o então deputado liberal Justin Trudeau combateu e venceu o senador conservador Patrick Brazeau, embora tenha sido por uma boa causa (angariação de fundos). Anos depois o primeiro-ministro canadiano arrependeu-se da linguagem que usou para descrever o adversário indígena. Desconhece-se que algum político tenha desistido da carreira para enveredar pelo boxe, mas o contrário tem exemplos ilustres: o campeão mundial de pesos-pesados Vitali Klitschko (presidente da Câmara de Kiev ), o campeão mundial em oito categorias Manny Pacquiao (ex-senador filipino) e a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos Mary Kom (ex-deputada indiana). .cesar.avo@dn.pt