O presidente dos Estados Unidos guardou para o fim da Cimeira “Big Show Trump” da NATO em Ancara uma demonstração de apoio à Ucrânia, ao dizer que pretende permitir que Kiev produza mísseis intercetores Patriot, algo que Volodymyr Zelensky tem vindo a pedir nos últimos seis meses à Casa Branca, sem sucesso, para fazer face aos ataques russos. “Vamos dar-lhes o direito de fabricar Patriots. Vamos mostrar-lhes como fazer isso”, disse Trump ao presidente ucraniano antes da reunião entre ambos à margem da cimeira da NATO, descrevendo o sistema como “muito complexo”, mas garantindo que Kiev “entenderá a complexidade rapidamente”. Mais tarde, acrescentou que “conseguem produzi-los bastante rapidamente”, uma vez que a Ucrânia tem “uma grande capacidade de produzir armas, armas bastante complexas”.Por esclarecer ficou se o presidente norte-americano irá permitir que Kiev produza os mísseis no seu próprio território ou noutra parte da Europa. De qualquer forma, para Donald Trump, esta decisão é uma forma de transferir para a Ucrânia a responsabilidade de fabricar os Patriot. “Assim, não se podem queixar de que não estamos a fornecer o suficiente”, disse Trump. O líder dos EUA reconheceu, porém, que esta ideia ainda não tinha sido acordada com a Raytheon e a Lockheed Martin, as empresas que fabricam os Patriot, mas garantiu que “vai correr tudo bem”. “Com certeza, vão ficar muito entusiasmados”.Paralelamente, Donald Trump elogiou o uso de drones pela Ucrânia, sugerindo que os EUA - embora sublinhando que os drones norte-americanos são ótimos - poderiam comprar esta tecnologia a Kiev, pois “têm capacidade para produzir muitos”. Outra mudança de postura do presidente norte-americano, que anteriormente já tinha menosprezado as aeronaves não tripuladas de Kiev. “É uma capacidade impressionante, muito barata. Vocês são pessoas muito talentosas”, disse a Zelensky. “Acho que vamos fechar este negócio. Se fechássemos este negócio, teríamos uma grande proteção.”Os drones têm sido um meio essencial para a estratégia militar da Ucrânia, com especial destaque nos tempos mais recentes com os ataques de longo alcance contra infraestruturas energéticas e petrolíferas russas. Algo que, para o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, alterou a dinâmica da guerra. “É uma escalada, mas é também uma escalada que pode ajudar a conduzir a um desfecho”, acrescentou Trump, referindo acreditar que Kiev e Moscovo querem chegar a um acordo.“Eles vão fechar um acordo”, prosseguiu o norte-americano, admitindo que gostaria de ver os dois líderes sentados à mesma mesa. “Este acordo está a ser preparado há muito tempo. Tem os seus prós e contras. Eles sabem do que se trata. Ele sabe do que se trata melhor do que ninguém”, aproveitando para elogiar Zelensky por “fazer um trabalho incrível” e ser “muito eficaz”. “E a Rússia, sabe, é um país grande, é uma grande força”, acrescentou.Trump é questionado sobre se os EUA estão preparados para oferecer garantias de segurança à Ucrânia. “Queremos fazer isto, queremos fazer isto para salvar vidas. Estou a tentar salvar vidas”, começou por dizer, acrescentando que pretende trabalhar com Moscovo para garantir que a Ucrânia nunca mais será atacada. “A Rússia respeita-nos muito, e vamos trabalhar em algum tipo de acordo de segurança. Se conseguirmos fechar o acordo certo, ajudaremos a Europa e trabalharemos em algum tipo de pacote de segurança”.Grande sentido de unidadeFazendo um balanço final destes dois dias em Ancara, o secretário-geral da NATO afirmou que a cimeira “demonstrou que esta aliança está mais forte do que nunca”, classificando-a como um encontro “extremamente bem-sucedido” e que mostrou “um grande sentido de unidade”.“Os aliados acolheram calorosamente a liderança do presidente Trump, que está a transformar esta aliança e a fortalecê-la”, prosseguiu Mark Rutte, sublinhando que a NATO está a “reequilibrar” a aliança “para melhor”, com os europeus e o Canadá a assumir a responsabilidade de aumentarem os seus gastos em defesa, como tinha ficado estabelecido na cimeira do ano passado em Haia. Citando o que foi dito no comunicado final, Rutte declarou ainda que os aliados “reafirmaram o apoio inabalável da NATO à Ucrânia na defesa da sua liberdade, soberania e integridade territorial” e a sua determinação em “continuar a garantir que a Ucrânia recebe o que precisa” - para 2026, os Aliados comprometeram-se a fornecer 70 mil milhões de euros em equipamento militar, assistência e formação a Kiev e reafirmam os seus compromissos soberanos de manter níveis pelo menos equivalentes em 2027. Os 32 reafirmaram ainda o seu compromisso com o artigo 5.º, garantindo que “um ataque a um é um ataque a todos”. Olhando para o mesmo comunicado ficou no ar a dúvida se a cimeira do próximo ano, agendada para Tirana, se irá realizar, já que é referido no texto “aguardamos com expectativa a nossa próxima reunião”, sem mais nenhuma referência. De recordar que, até ao início da invasão russa da Ucrânia, estas reuniões não tinham uma periodicidade anual e Donald Trump já deixou claro que não gosta delas - na terça-feira, disse mesmo que só tinha viajado para Ancara por causa do seu amigo Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia e anfitrião.Friedrich Merz partilhou do otimismo mostrado por Mark Rutte, declarando que as suas expectativas em relação à cimeira foram mais do que correspondidas, garantindo que iria “regressar à Alemanha com a sensação de que demos um grande contributo para que a NATO se mantenha unida, para o seu fortalecimento e para a sua maior integração europeia”. Para o chanceler alemão existe um “novo sentimento de responsabilidade europeia no ar”, mas também, “um sentimento de amor no ar”, esclarecendo que neste último ponto estava a citar Donald Trump. Falando após o final da cimeira, o presidente norte-americano - que tinha chegado a Ancara a criticar que a NATO fez muito pouco para ajudar os EUA - Trump foi só elogios para o calor humano que diz ter sentido durante o encontro, dizendo que havia “um amor imenso naquela sala”, além de “uma unidade imensa”. E descreveu os aliados como “pessoas muito inteligentes, têm muito de bom no coração, não maldade, mas bondade”..UE ao lado de EspanhaEste tom elogioso destoa muito do usado pelo presidente dos EUA na terça-feira na chegada à Ancara e até mesmo esta quarta-feira de manhã, antes do encontro de líderes, quando voltou a lançar farpas sobre pontos de tensão antigos como a sua pretensão de controlar a Gronelândia, um território da Dinamarca, e o desejo de castigar Espanha, num primeiro momento por se mostrar contra o aumento dos gastos em defesa da NATO e, mais recentemente, por se ter recusado a apoiar a guerra contra o Irão. Trump repetiu que “não está satisfeito com a NATO por causa do que fizeram em relação à Gronelândia” e da recusa em ajudar na questão do Irão, apontando o seu descontentamento para a Espanha, que acusa de ser “um péssimo parceiro na NATO”. “Não participam, não pagam; não quero nada com Espanha. Cortem todo o comércio com Espanha, incluindo as visitas. Não queremos nada. Vejam só voltar a correr, vão voltar a correr”, ameaçou o norte-americano. Mark Rutte, numa tentativa de amenizar a situação, recordou que Trump “até conseguiu que Espanha pagasse 2%”. Mais tarde o primeiro-ministro Pedro Sánchez garantiu que Espanha “mantém com os EUA relações muito positivas em termos sociais, culturais, económicos e também políticos”.Trump voltou ainda a repetir que “a Gronelândia é um grande problema para nós”, lamentando que os EUA gastem tanto dinheiro “para proteger estes países da Rússia” sem receber nada em troca, notando que apenas alguns países mais pequenos quiseram ajudar na questão do Irão, porque “são os mais vulneráveis” em relação à Rússia. “Estou muito insatisfeito com a NATO pelo facto de pagarmos muito, muito mais do que deveríamos”, disse.Neste caso, o secretário-geral da NATO recordou que os dois concordaram em Davos em aumentar a presença militar dos EUA na região, prometendo que “garantir que este acordo é implementado passo a passo”.A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, disse esperar “que todos, incluindo todos os aliados, respeitem o direito do povo da Gronelândia à autodeterminação. Somos Estados soberanos e precisamos que todos respeitem a nossa integridade territorial e a nossa soberania”.E afirmou que Copenhaga está “pronta para defender cada centímetro da NATO, incluindo o nosso próprio território”, em caso de ataque, e que conta com os aliados da NATO para honrar o compromisso de defesa mútua.A União Europeia não tardou em responder aos comentários de Donald Trump sobre Espanha, afirmando esperar que os Estados Unidos “honrem os seus compromissos” comerciais, assegurando ainda que Bruxelas “garantirá sempre” a proteção dos seus Estados-membros.“Como já dissemos anteriormente, o comércio entre a União Europeia e os Estados Unidos é profundamente integrado e mutuamente benéfico. Por isso, é do nosso interesse mútuo preservar essa relação. De facto, isto é mais importante do que nunca num momento de perturbação global. Recordo que assinámos uma declaração conjunta com os EUA no ano passado”, afirmou o porta-voz adjunto do executivo comunitário, Olof Gill. “Esperamos que os EUA honrem os seus compromissos decorrentes dessa declaração conjunta, tal como nós honrámos os nossos. Por último, reitero: a Comissão assegurará sempre que os interesses da União Europeia e de todos os nossos Estados-Membros sejam plenamente protegidos. Continuaremos a defender um comércio transatlântico estável, previsível e mutuamente benéfico, em prol de todos”.O executivo liderado por Ursula von der Leyen rejeitou também a exigência de Trump de que a Gronelândia se torne um território dos EUA. “As decisões sobre o futuro da Gronelândia cabem aos gronelandeses e aos dinamarqueses. A integridade territorial, a soberania nacional e a inviolabilidade das fronteiras são princípios fundamentais do direito internacional”, referiu Gill. “São essenciais não só para a União Europeia, mas para as nações de todo o mundo. Não deixaremos de os defender, e a UE manifesta total solidariedade para com a Dinamarca e o povo da Gronelândia.”.Líderes da NATO devem confirmar gastos recorde em defesa face a uns EUA a reduzir presença na Europa.Montenegro anuncia que Portugal atingirá 3,1% do PIB em Defesa até ao final do ano.Cimeira da NATO. Portugal e mais 11 países comprometem-se a reforçar segurança marítima da Aliança