Turbilhão diplomático dos EUA na ONU abre vias para o diálogo com Irão e na Ucrânia
No mesmo dia, o presidente dos Estados Unidos reuniu-se com o homólogo francês Emmanuel Macron, discursou no debate geral da Assembleia Geral das Nações Unidas, assinou um acordo com a Dinamarca e a Gronelândia, encontrou-se com o primeiro-ministro britânico Andy Burnham, com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, com a chefe do governo japonês Sanae Takaichi e com a sucessora do venezuelano Nicolás Maduro, Delcy Rodríguez. Uma agenda cheia, e com declarações igualmente infladas, fosse ao afirmar que a guerra na Ucrânia vai acabar “mais rapidamente do que as pessoas esperam”, ao dizer que está num dilema entre chegar a acordo com o Irão ou aniquilar a República Islâmica, e ainda ao prever que o regime cubano vai cair.
Uma sondagem publicada ontem pela CNN - um dos meios que viram a sua entrada proibida na Casa Branca - demonstra um recorde negativo de cidadãos norte-americanos de acordo com a sua política em relação ao Irão, 26%. Em março, no início da guerra, 33% concordava com o presidente republicano. Enquanto isso, em Nova Iorque, Trump repetiu que um acordo com Teerão é possível, e que este deverá acontecer depois das eleições intercalares de novembro, explicando que os iranianos estão a adiá-lo. “Eles estão à espera para ver como me saio nas eleições intercalares. O que eles não percebem é que eu não vou concorrer”, disse. Ao que acrescentou uma outra hipótese, dramática: “Será que aniquilo a República Islâmica e faço-o rapidamente, sem lhes dar qualquer hipótese de matar e destruir pessoas e países outra vez? Devo enviá-los para o inferno sem qualquer hipótese de sobreviver e sem esperança de grandeza futura?”.
Horas depois, ao falar com os jornalistas, Trump revelou que uma delegação norte-americana manteve um encontro de três horas com uma delegação iraniana e que outra está marcada para breve. “Foi uma reunião muito positiva”, disse. “Há duas escolhas”, continuou. “Num caso, é a destruição, e a outra alternativa é a grandeza potencial. Pode ser um grande país.” Num primeiro momento não confirmou se os seus emissários, o amigo Steve Witkoff e o genro Jared Kushner, participaram na reunião, mas acabou por fazê-lo mais tarde.
Perante os diplomatas e outros líderes, Trump poupou a ONU de críticas, ao contrário de ocasiões anteriores, mas voltou a atacar organizações internacionais, entre as quais o Conselho de Direitos Humanos ou a UNESCO, ambas das Nações Unidas, ou o Tribunal Penal Internacional. Em paralelo, calibrou o discurso para o seu público, ao elogiar o vigor da economia e o poder militar do seu país, e ameaçando usar esse poderio para defender os interesses de Washington na América do Sul, ou a construção de duas bases na Gronelândia.
Mais tarde, na cerimónia da assinatura do documento que expande o acordo de 1951, o chefe do governo da Gronelândia Jens-Frederik Nielsen disse estar perante um “acordo em que todos ganham”, porque “tem em conta o povo da Gronelândia”.
Sobre a guerra na Ucrânia, ao lado de Zelensky, Trump disse esperar voltar a reunir-se com o russo Vladimir Putin e mostrou-se otimista quanto ao fim da guerra. Já o líder ucraniano mostrou-se esperançoso de se alcançar o fim da guerra antes do inverno. Zelensky também se afirmou pronto a uma trégua energética, se Moscovo também a cumprir. "Se não atacarmos a energia, isso significa toda a energia, tudo. Esta é a nossa proposta. Mas eu não sei qual é a posição russa."
Brasil não cabe no quintal dos EUA
No seu décimo primeiro discurso na Assembleia Geral, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, comprometeu-se a impedir que os “inimigos da democracia”, tanto estrangeiros como brasileiros, influenciem as eleições presidenciais, cuja primeira volta decorre no dia 4 de outubro, enquanto a tensão sobe com Washington sobre uma alegada interferência. “Na América Latina e Caraíbas, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemónicas”, disse o presidente brasileiro. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomentem o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para maior integração entre vizinhos”, afirmou.
À margem
Israel sob ataque
Primeiro, Guterres alertou para o risco de “limpeza étnica” na Cisjordânia; depois o rei da Jordânia advertiu para o “apetite expansionista” de Israel. Por fim o emir do Qatar censurou os líderes israelitas por advogarem “abertamente o deslocamento da população de Gaza”.
Erdogan evoca Abbas
O presidente turco Recep Tayyip Erdogan denunciou a “injustiça” feita ao presidente da Autoridade Palestiniana por parte das autoridades norte-americanas, que não concederam visto a Mahmoud Abbas para este discursar na Assembleia Geral da ONU. Erdogan apelou para a reconstrução imediata da Faixa de Gaza.
Mamdani vs. Netanyahu
Antes de chegar à Assembleia Geral, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu acusou o presidente da Câmara de Nova Iorque de apoiar os “monstros terroristas do Hamas” e de incitar aos “distúrbios contra os judeus nova-iorquinos”. Na véspera, Zohran Mamdani qualificou Netanyahu de “criminoso de guerra” e de “arquiteto de um genocídio horrível” contra os palestinianos.
Apelo para o governo português
Uma dúzia de professores universitários portugueses apelou para que o governo subscreva a recomendação do relatório do G20 sobre desigualdade e apoie a criação de um painel intergovernamental (IPI) sobre o tema, inspirado no modelo do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas. O apelo estende-se à presença do executivo na reunião de alto nível com o secretário-geral da ONU sobre o IPI.

