O presidente dos EUA e outros membros da Administração norte-americana vão juntar-se neste domingo, 17 de maio, a líderes religiosos para um dia de orações no National Mall, em Washington DC. Intitulado "Rededicate 250: Um Jubileu Nacional de Oração, Louvor e Ação de Graças", o evento faz parte da comemorações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos e visa precisamente "rededicar a América a Deus" e reforçar a ideia de que os Pais Fundadores queriam que os EUA fossem explicitamente cristãos. Esta espécie de festival de orações contará com a presença de líderes cristãos, na sua maioria conservadores, como o evangelista Franklin Graham ou a pastora Paula White-Cain. Para os críticos, não passa de uma tentativa de "deturpar" a história dos EUA com uma narrativa "falsa e nacionalista-cristã". Organizado pela ONG Freedom 250, o evento vai contar não só com orações, mas também música e discursos, incluindo de vários membros da Administração. Segundo a NBC, o próprio Trump deverá ter uma intervenção em vídeo, mas outros altos responsáveis deverão falar pessoalmente. Entre os participantes previstos estão o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, e o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson. "Os nossos fundadores sabiam duas verdades simples: os nossos direitos não vêm do governo, vêm de Deus, e a nação é apenas tão forte quanto a sua fé", afirmou Hegseth num vídeo promocional do evento..Num webinar no mês passado, Paula White-Cain, a pastora que é também conselheira para assuntos religiosos da Casa Branca, afirmou que o evento "trata da história e dos alicerces da nossa nação, que foi construída com base nos valores cristãos, na Bíblia... Trata-se, na verdade, de uma verdadeira rededicação do país a Deus".Ora se no passado outros presidentes recorreram a orações genéricas de agradecimento a Deus nos momentos de celebração da independência do país, os especialistas em história religiosa americana afirmam que este jubileu nacional não tem precedentes na era moderna. Talvez devido à sua dimensão. Vão ser mais de nove horas seguidas e dezenas de discursos, todos focados na identidade americana como o conservadorismo protestante. Segundo os dados do Pew Research Center, 62% dos americanos identificam-se atualmente como cristãos (os protestantes evangélicos representam a maior fatia, 23%, seguidos dos católicos, 19%), com 29% a responderem não terem qualquer afiliação religiosa (entre ateus, agnósticos e outros). As outras religiões constituem 7%, com os judeus a serem a maior tranche (2%)."O que deveria ser uma celebração amplamente unificadora foi politicamente deturpada e envolvida nesta narrativa do MAGA que tenta reescrever a nossa história e promover a agenda do presidente", denunciou o congressista Jared Huffman. Citado pela NBC, o representante da Califórnia garantiu que o movimento Make American Great Again apaga a diversidade das populações religiosas e não religiosas dos EUA ao longo da sua história e ameaça as proteções constitucionais contra a imposição de uma religião pelo governo.Ouvido pelo The Washington Post, Robert Jones, presidente do Public Religion Research Institute, lembrou que "os EUA estão mais diversificados do que nunca em termos religiosos", com cerca de um terço dos americanos a declarar não ter qualquer filiação religiosa. Ao mesmo tempo, o sentimento antissemita e anti-muçulmano tem suscitado uma preocupação crescente.A forma como Trump tem abordado temas ligados à religião tem provocado ceticismo em muitos americanos. Uma sondagem realizada este mês pelo Washington Post, ABC e Ipsos mostrou que 87% dos americanos têm uma opinião negativa sobre a publicação de Trump nas redes sociais na qual ele parece retratar-se como Jesus. Uma sondagem do Pew Research revelou que apenas um terço dos americanos afirma que Trump defende as pessoas nas suas crenças religiosas.Mas, segundo o mesmo instituto, cerca de 20% dos adultos norte-americanos e de um quarto dos republicanos afirmaram que o governo federal deveria declarar o cristianismo como religião oficial da nação. Este estudo revela ainda que cerca de 43% afirmaram que o governo não deveria fazê-lo, mas sim promover os valores cristãos, enquanto 38% afirmaram que não deveria fazer nenhuma das duas coisas. Esta sondagem indica que 13% dos adultos norte-americanos e 18% dos republicanos acreditam que o governo deveria deixar de fazer valer a separação entre Igreja e Estado.Para este domingo, a Freedom From Religion Foundation, que defende precisamente uma separação estrita entre a Igreja e o Estado, espera organizar uma manifestação noutro local de Washington. "Trata-se do governo a organizar um evento nacionalista cristão", afirmou Annie Laurie Gaylor, copresidente da fundação, acrescentando "mesmo que esteja a aceitar fundos privados para o efeito, continua a ser o governo a organizá-lo. É escandaloso.".Trump quer uma América “patriótica” a celebrar 250 anos de independência antes de intercalares decisivas