Na teoria, o Partido Republicano tem uma maioria de 53 no Senado dos EUA, com os democratas e os independentes que se alinham com eles a não irem além dos 47. Mas, na prática, a maioria que já era curta pode, de facto, já ter desaparecido. E a culpa é do próprio presidente Donald Trump, que ao apoiar candidatos às eleições de novembro que acredita serem mais leais, desprezou alguns dos veteranos que ainda vão ocupar os cargos até janeiro. E isso pode trazer-lhe problemas.“A lista de frenemies do presidente no Senado continua a crescer, mesmo quando as suas exigências aos legisladores se tornam cada vez mais absurdas”, resumiu o editor da MS Now (antiga MSNBC), Hayes Brown. A expressão inglesa frenemies resulta da amálgama das palavras “friends“ (amigos) e “enemies” (inimigos), sendo que o contingente de republicanos que já não tem razão para ceder à pressão de Trump está a crescer. E isso já está a ter efeitos.Na semana passada, o senador John Cornyn perdeu as primárias republicanas no Texas para o procurador-geral desse estado, Ken Paxton, depois de Trump o ter apoiado à última hora (apesar dos inúmeros escândalos), considerando que Cornyn não era “suficientemente leal”. No cargo desde 2002, Cornyn era um senador popular e respeitado, tendo ficado após as eleições de 2024 a poucos votos de ser eleito líder da maioria republicana no Senado. Não era visto como um rebelde, mas será que isso vai mudar agora?Na semana anterior, tinha sido Bill Cassidy a ficar pelo caminho na corrida à reeleição no Louisiana, nem se qualificando para a segunda volta no final de junho. Trump apelidou Cassidy de “canalha”, dizendo que era “um sujeito terrível” e “mau para o Louisiana”, declarando o seu apoio à congressista Julia Letlow - “é uma pessoa espectacular e nunca vos vai desiludir”. Ela foi a mais votada, mas terá que disputar a segunda volta com o tesoureiro do estado, John Fleming, que chegou a ser vice-chefe de gabinete no final do primeiro mandato de Trump. A derrota de Cassidy, a primeira de um senador que procurava a reeleição desde 2012, já era esperada, uma vez que ele é um dos poucos ainda no cargo que votou a favor do segundo impeachment de Trump, em 2021, na sequência da invasão ao Capitólio. “Quando participamos na democracia, às vezes as coisas não correm como queríamos, mas não ficamos amuados, não nos queixamos, não alegamos que a eleição foi roubada, não procuramos uma razão para termos perdido”, disse Cassidy aos apoiantes após a derrota, numa referência a Trump e às eleições de 2020.Dos sete senadores republicanos que votaram a favor desse impeachment, três optaram por não procurar a reeleição (em 2022 ou 2024) e um quarto saiu em 2023 para ocupar outro cargo fora da política. A senadora Susan Collins (Maine) conseguiu não ter adversários na corrida deste ano, apesar das críticas de Trump no passado, mas é uma das republicanas em risco face aos democratas nas intercalares de novembro. Já Lisa Murkowsky (Alasca) foi reeleita em 2022 (derrotando um rival apoiado por Trump) e só vai novamente a votos em 2028.Após a derrota e sem a pressão da reeleição, Cassidy juntou-se na semana passada precisamente a Collins e a Murkowsky - e ao libertário Rand Paul, do Kentucky, que não apoiou a candidatura de Trump em 2024 e também só vai a votos em 2028 -, assim como aos democratas (exceto John Fetterman, da Pensilvânia), para aprovar uma resolução sobre os poderes de guerra destinada a forçar o presidente a acabar com o conflito no Irão, a menos que receba autorização do Congresso para a continuar. Foi a oitava vez que essa resolução foi a votos e a primeira em que passou, com 50 contra 47. Três republicanos - entre eles Cornyn, que estava nas primárias - não votaram. Se o tivessem feito, o vice-presidente JD Vance teria o voto de desempate. Além dos senadores que Trump optou por não apoiar, há outros seis que decidiram não avançar para a reeleição (e um que optou por candidatar-se a governador: Tommy Tuberville, do Alabama, contando com o apoio do presidente). Entre os seis está o antigo líder dos republicanos no Senado, Mitch McConnell (Kentucky), que tem chocado com Trump, e Thom Tillis (Carolina do Norte), que anunciou que não se candidatava há já um ano, após ser alvo dos ataques do presidente ao recusar apoiar a sua “Lei Grande e Bonita”. E que desde então não tem hesitado em ser uma pedra no sapato de Trump, sendo que o seu alvo não é diretamente o presidente mas aqueles que estão à sua volta, tendo bloqueado muitas nomeações. Todos estes são potenciais votos que põem em causa a maioria de Trump - ainda antes das eleições de novembro, onde os democratas têm expectativas de recuperar o controlo do Senado. O grupo não é homogéneo e nada garante que votem em conjunto, mas o risco é maior em políticas que os republicanos considerem apenas do interesse do presidente. Em vez de estar preocupado com a affordability (a capacidade aquisitiva dos norte-americanos), tema chave na campanha, ou com o aumento do preço dos combustíveis por causa da guerra no Irão, Trump está preocupado com os seus projetos de construção em Washington (desde o seu salão de baile, para o qual o Senado pode ter que dar dinheiro, ao arco triunfal) ou em criar um fundo de quase 1,8 mil milhões de dólares para compensar os seus aliados que foram investigados pela Justiça..EUA. “Presidenciáveis” democratas têm em 2026 rampa de lançamento para 2028.Trump quer uma América “patriótica” a celebrar 250 anos de independência antes de intercalares decisivas