Como se as negociações de paz com o Irão já não fossem complicadas, o presidente norte-americano criou esta segunda-feira (25 de maio) mais um obstáculo ao exigir que Arábia Saudita e Qatar assinem, em troca, os acordos de Abraão, de normalização das relações com Israel. O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, não reagiu de imediato à proposta que, em momento algum, menciona Israel.Numa mensagem na Truth Social, Donald Trump disse que “depois de todo o trabalho desenvolvido pelos EUA para tentar resolver este puzzle tão complexo”, devia ser “obrigatório” esses países, além do Paquistão, Turquia, Egito e Jordânia (estes dois últimos já têm relações com Israel desde 1978 e 1994, respetivamente) aderirem aos acordos. Desde que foram criados, em 2020, que cinco países aderiram: Emirados Árabes Unidos, Bahrain, Marrocos, Sudão (não ratificado) e Cazaquistão. O presidente falou desta proposta num telefonema sobre as negociações de paz com o Irão, no sábado (23 de maio), com os líderes e representantes das nações que quer que sejam as próximas a aderir - junto com Emirados e Bahrain. Uma fonte disse ao site norte-americano Axios (que noticiou esta proposta no domingo, 24 de maio) que a ideia foi recebida com surpresa e “silêncio”, levando Trump a perguntar, a brincar, se ainda estavam em linha. Mas o próprio Trump não estava a brincar quando fez a proposta.“É possível que um ou dois países tenham uma razão para não o fazer [assinar os Acordos de Abraão], e isso será aceite, mas a maioria deve estar pronta, disposta e apta a fazer deste acordo com o Irão um acontecimento muito mais histórico do que seria de outra forma”, escreveu Trump numa longa mensagem na Truth Social. “Caso contrário, não devem fazer parte deste acordo [com o Irão], pois isso demonstra má intenção”, acrescentou, deixando claro que a prioridade seriam os sauditas e os qataris.A Arábia Saudita estava inclinada a aderir aos Acordos de Abraão antes do desencadear da guerra na Faixa de Gaza, em resposta ao ataque de 7 de outubro de 2023 a Israel, mas o conflito deixou tudo em suspenso. Os sauditas insistem que os israelitas se devem comprometer com um caminho para a criação de um Estado palestiniano antes de normalizarem as relações, algo que o atual governo de Israel recusa fazer. Segundo Trump, até o Irão poderá aderir aos acordos de Abraão depois do fim da guerra. “Isso sim seria algo extraordinário!”, indicou. “Este será o acordo mais importante que qualquer um destes grandes países, sempre em conflito, alguma vez assinará. Nada no passado, nem no futuro, o superará. Por conseguinte, solicito veementemente que todos os países assinem imediatamente os Acordos de Abraão e que, caso o Irão assine o seu acordo comigo, enquanto presidente dos Estados Unidos da América, seria uma honra tê-lo também como parte desta coligação mundial sem precedentes”, referiu Trump.Os Acordos de Abraão são vistos como um dos grandes sucessos em matéria de política internacional do primeiro mandato do presidente norte-americano, tendo sido lançados em 2020. Em troca do reconhecimento de Israel (no caso de Marrocos após os EUA reconhecerem a sua própria soberania sobre o território do Saara Ocidental), o acordo formaliza laços diplomáticos, económicos e de cooperação de segurança entre os países. Ainda antes da mensagem do presidente, depois da primeira notícia do Axios, os aliados do presidente tinham aplaudido a ideia. “Se, de facto, como resultado destas negociações para pôr fim ao conflito iraniano, os nossos aliados árabes e muçulmanos da região concordarem em aderir aos Acordos de Abraão, isso faria deste acordo um dos mais importantes da história do Médio Oriente”, escreveu, no X, o senador Lindsey Graham. “Espero que os nossos aliados árabes abracem esta iniciativa, tal como os nossos amigos em Israel, concentrando-se nesta tarefa, pois o fracasso não é uma opção - o que seria uma análise correta”, acrescentou, já depois da mensagem de Trump.Elogios depois de, na véspera, ter levantado dúvidas sobre o eventual acordo com o Irão. “Se a região perceber que um acordo com o Irão permite ao regime sobreviver e fortalecer-se com o tempo, teremos atirado gasolina para os conflitos no Líbano e no Iraque”, escreveu Graham no sábado. Não foi o único a contestar o acordo dentro do Partido Republicano e a questionar para que serviu a guerra. “Se o resultado de tudo isto for um regime iraniano - ainda liderado por islamitas que gritam ‘morte à América’ - receber milhares de milhões de dólares, ser capaz de enriquecer urânio e desenvolver armas nucleares, e ter controlo efetivo sobre o Estreito de Ormuz, então esse resultado seria um erro desastroso”, indicou o senador Ted Cruz no X. Em Israel, a primeira reação foi de silêncio, com Netanyahu já em segundo plano nas negociações com o próprio Irão - apesar de os israelitas terem lançado, junto com os norte-americanos, a guerra a 28 de fevereiro. O primeiro-ministro israelita falou também com Trump no sábado (23 de maio), escrevendo no X que ambos concordam que “qualquer acordo final com o Irão deve eliminar o risco nuclear” e que Israel tem o direito a defender-se em qualquer frente, incluindo o Líbano. Fontes disseram à agência Reuters que Netanyahu admite que Israel “não tem margem de manobra para influenciar” Trump neste momento. O líder da oposição, Yair Lapid, criticou o primeiro-ministro, dizendo que Israel não cumpre os seus objetivos de guerra. “O acordo é mau para Israel, mau para a região e mau para os cidadãos do Irão”, resumiu, a poucos meses das próximas eleições israelitas. .Trump trava entusiasmo de Rubio e mostra não ter pressa para um acordo com o Irão