A morte de dois cidadãos norte-americanos às mãos de agentes do ICE (sigla em inglês dos Serviços de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos EUA) e a contestação que isso está a gerar no Minnesota e no resto do país está a custar apoios a Donald Trump, que em ano de eleições intercalares não tem espaço de manobra. Esta segunda-feira (26 de janeiro), o presidente norte-americano anunciou na Truth Social que ia enviar o seu “czar das fronteiras” para a região, parecendo estar à procura de uma saída para o problema. “Vou enviar o Tom Homan para o Minnesota esta noite. Não tem experiência naquela região, mas conhece e gosta de muitas pessoas de lá. O Tom é rigoroso, mas justo, e reportará diretamente a mim”, escreveu Trump. .Mais tarde, noutra mensagem, disse ter tido uma conversa “muito boa” com o governador Tim Walz (ex-candidato a vice de Kamala Harris) e que ambos estão “num comprimento de onda semelhante”. Explicou ainda que Walz ficou “muito feliz” por Homan ir..No domingo (25 de janeiro), Trump tinha culpado os democratas pelo “caos”, apesar de numa entrevista ao The Wall Street Journal admitir que a sua administração estava a “rever tudo”. O anúncio do envio de Homan surge numa altura em que vozes republicanas se uniam ao coro dos que pedem uma investigação à morte, no sábado, do enfermeiro Alex Pretti. Foi o segundo cidadão norte-americano a morrer após ser baleado pelo ICE em menos de um mês, depois do caso de Renée Good, a 7 de janeiro. .Como o estado do Minnesota se tornou o epicentro da ação do ICE?.“Os acontecimentos em Minneapolis são extremamente perturbadores. A credibilidade do ICE e do Departamente de Segurança Interna está em jogo. Deve haver uma investigação conjunta completa entre os governos federal e estadual. Podemos confiar a verdade ao povo americano”, escreveu no X o senador republicano Bill Cassidy (que enfrenta um adversário apoiado por Trump na luta pela reeleição). . Depois de as autoridades federais terem culpado Pretti por estar armado, os lóbis das armas (normalmente associados ao Partido Republicano) já vieram também atacar esse argumento. “Cada cidadão pacífico do Minnesota tem o direito de possuir e portar armas, incluindo quando participa em protestos”, indicou, em comunicado, o Grupo de Proprietários de Armas do Minnesota. A decisão de chamar Homan já foi entretanto elogiada. “Fico feliz por ver o Tom de volta ao ativo, pois precisamos de uma nova perspetiva e de alguém com a sua experiência para nos ajudar a resolver os problemas do momento e do futuro. O Tom é a pessoa certa para encontrar uma forma de desescalar a situação”, indicou o senador republicano Lindsey Graham. Alguns veem a chamada de Homan como uma desautorização à secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, já que aparentemente a relação entre os dois não é a melhor. Segundo a CNN, Trump tem expressado frustração em privado que a sua mensagem de imigração (o número de entradas ilegais no país está quase no zero) se está a perder. O próprio Homan tem alegado que é preciso “melhorar a forma como comunicamos o que estamos a fazer”, insistindo que a maioria das detenções é de criminosos, mas que o que passa nos media é que o ICE está a separar famílias. Trump, na conferência de imprensa para assinalar um ano na Casa Branca, mostrou fotos de vários dos alegados criminosos já detidos nesta operação, tendo precisamente tentado passar essa mensagem. Mas os republicanos estão preocupados com o impacto que este caso pode ter nas eleições intercalares de novembro - onde normalmente o presidente já é castigado nas urnas. Segundo uma sondagem do site Politico (feita ainda antes da morte de Pretti), 49% dos norte-americanos (incluindo um em cinco que votaram Trump) dizem que a política de deportação em massa da administração é demasiado agressiva. Outra sondagem, para o The New York Times, feita igualmente antes deste fim de semana), indica que 61% dos inquiridos considera que o ICE foi “demasiado longe” (94% entre democratas, 71% entre independentes e 19% entre os republicanos). Entretanto, o candidato republicano a governador do Minnesota, o advogado Chris Madel (que deu apoio legal ao agente do ICE que matou Good), desistiu da corrida, dizendo não poder apoiar a “retaliação declarada contra os cidadãos do nosso estado, nem posso considerar-me membro de um partido que o faria”. E acusou o Partido Republicano de “tornar quase impossível” um republicano ganhar qualquer eleição estadual no Minnesota.A confusão com a operação do ICE arrisca desencadear um novo shutdown parcial nos EUA. O líder dos democratas no Senado, Chuck Schumer, disse que o seu partido iria votar contra a legislação de financiamento de seis departamentos - incluindo o de Segurança Interna, responsável pela supervisão do ICE -, convidando os republicanos a juntarem-se nesta posição. Schumer disse contudo que estava disposto a passar o financiamento de cinco outros departamentos (Defesa, Trabalho, Saúde, Educação e Transportes), estando a bola agora na mão da liderança republicana de John Thune, que pode decidir separar os fundos da Segurança Interna e do ICE do resto. Mas, para isso, precisará de convencer os outros republicanos (e provavelmente do apoio de Trump), sendo que tudo tem que ficar pronto até 30 de janeiro (o que parece impossível).