Irá Donald Trump falar pela segunda vez com um presidente da República da China? Como vai resolver “o problema de Taiwan”? Advertido pelo líder da República Popular da China Xi Jinping de que esse tema é o mais importante das relações sino-americanas, o presidente dos Estados Unidos pisa terreno escorregadio.Disse-o dias antes e repetiu-o na quarta-feira: questionado se iria falar diretamente com Lai Ching-te, o presidente de Taiwan, o líder dos Estados Unidos assentiu: “Vou falar com ele. Eu falo com toda a gente.” Acontece que desde 1979 nenhum presidente dos EUA em exercício comunicou com o homólogo taiwanês. Trump esteve perto, em 2016, ao atender o telefone a Tsai Ing-wen, quando esta o felicitou pela vitória eleitoral. Sem surpresa, desencadeou então protestos por parte de Pequim. Sem surpresa, o lado chinês reagiu de pronto à hipótese. Questionado na quinta-feira sobre uma possível chamada entre Trump e Lai, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China disse que Pequim se opõe a quaisquer contactos oficiais entre os EUA e Taiwan e pediu a Washington para tratar a questão de Taiwan com “a máxima prudência”.Em jogo, no imediato, está o destino do pacote de armamento avaliado em 14 mil milhões de dólares (12 mil milhões de euros), mas também e sobretudo o papel a que os Estados Unidos se reservam. No mesmo ano em que os EUA trocaram o reconhecimento diplomático de Taipé para Pequim, o Congresso aprovou uma lei através da qual o país se compromete a fornecer a Taiwan os meios para se defender, e considera todas as ameaças à ilha uma preocupação de segurança. Tendo em conta o seu cada vez maior isolamento diplomático - mas não político nem económico -, na prática Taipé depende dos EUA no campo militar. Na semana passada, uma cimeira protagonizada por Xi e Trump mostrou ambas as lideranças a quererem que a mesma fosse um sucesso. Os objetivos e as prioridades, porém, eram diversos: para o norte-americano impunha-se a obtenção de negócios comerciais e a perspetiva de outros, enquanto para o chinês esse tema decorre das boas relações - e estas dependem de Taiwan. “Se [o assunto] for tratado corretamente, o relacionamento bilateral desfrutará de estabilidade geral. Caso contrário, os dois países terão atritos e até conflitos, colocando toda a relação em grande perigo”, advertiu Xi. A unificação com a democracia do outro lado do estreito da Formosa é o grande objetivo de Pequim e não faltam analistas a prever que tal pode vir a acontecer pela força tão cedo quanto em 2027. .Xi oferece a Trump “estabilidade estratégica” com Taiwan no centro do tabuleiro.Antes de partir para Pequim, o empresário disse à Fox News que a venda de armas “depende da China” e abriu o jogo: “Francamente, é uma carta de negociação muito boa para nós.” Já na quarta-feira, além de mostrar abertura para falar com Lai, Trump disse ainda ter “essa situação muito controlada”, a propósito da venda de armas. “Tivemos uma ótima reunião com o presidente Xi. Foi incrível, na verdade. Vamos trabalhar nisso, no problema de Taiwan.”O presidente de Taiwan — que sobreviveu a uma tentativa de destituição na terça-feira por ter recusado promulgar uma lei que iria aumentar a fatia das receitas fiscais para os governos locais — iniciou uma série de comunicações, no domingo, ao responsabilizar Pequim como “causa principal a minar a paz e a estabilidade regional e de tentar alterar o statu quo”. Disse ainda que “Taiwan não provocará nem agravará conflitos, mas também não abdicará da sua soberania e dignidade nacionais, nem do seu modo de vida democrático e livre, sob pressão.” .P&R. O que representa a visita da líder da oposição de Taiwan à China?.Na quarta-feira, afirmou que a aquisição de armas era necessária para salvaguardar a independência de facto. E, na quinta, o MNE de Taipé disse que Lai ficaria “feliz por poder discutir estas questões com o presidente Trump”.Décadas de tensõesPrimeira CriseO governo nacionalista chinês, refugiado na Formosa desde 1949, é posto à prova em 1954 pela China comunista, que ataca ilhas costeiras como Kinmen e Matsu. Mas as forças de Chiang Kai-shek conseguem repelir os planos de Pequim, com o apoio dos EUA, cujo presidente está mandatado pelo Congresso para defender Taipé. Segunda criseEm 1958, o regime de Mao volta a atacar as ilhas mais próximas, e mais uma vez os EUA são decisivos ao escoltarem navios e ao fornecerem munições. Décadas depois soube-se que os EUA estiveram perto de usar armas nucleares táticas.Terceira criseA República Popular da China (comunista) ganhou assento na ONU (1971) e a República da China (Taiwan) foi expulsa, os EUA trocaram o reconhecimento diplomático (1979), a lei marcial foi levantada em Taipé (1987) e chegou-se ao “Consenso de 1992”, após dirigentes de ambos os lados do estreito terem concordado que só há uma China, embora a interpretação varie. Nada disso impediu a terceira crise, com Pequim a testar mísseis junto das águas de Taipé após o primeiro presidente taiwanês eleito ter visitado os EUA.Visita de PelosiAs relações tiveram altos e baixos - inclusive o único encontro entre presidentes, Xi e Ma Ying-jeou, em 2015. A partir de 2022, com a visita da presidente da Câmara dos Representantes Nancy Pelosi a Taiwan e com a visita da presidente Tsai à Califórnia, Pequim responde com repetidas e intensas manobras militares, incluindo simulacros de bloqueios à ilha.