A cada dia que passa torna-se mais complicado discernir o que se esconde por trás do jogo de espelhos diplomático por trás da guerra em curso dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão. As declarações, quer do presidente norte-americano, quer de vários atores iranianos, aponta ora numa direção, ora na oposta. No espaço de minutos, o presidente norte-americano disse que o seu país “venceu esta guerra” e ao mesmo tempo reafirmou que o seu país está a manter conversações com responsáveis iranianos. “Estamos em negociações neste momento. Eles estão a fazê-lo, juntamente com Marco [Rubio], J.D. [Vance], com várias pessoas a participarem,” disse Donald Trump aos jornalistas na Sala Oval. Quem segue a mesma linha são os israelitas, não só na operação contra Teerão, mas também no ataque ao Hezbollah, ao declarar a ocupação de território do sul do Líbano.“Estamos a falar com as pessoas certas e elas querem fechar um acordo tão desesperadamente, vocês não fazem ideia de quão desesperadamente elas querem fechar um acordo”, disse o presidente norte-americano no dia em que a sondagem Reuters/Ipsos revelou que a popularidade de Donald Trump está no ponto mais baixo desde que iniciou o mandato. Há agora apenas 36% de pessoas satisfeitas com a sua presidência, menos quatro pontos do que na semana anterior. Na véspera, Trump fez menção de “conversações produtivas” com o lado iraniano depois de ter interrompido um ultimato emitido pelo próprio. Nas declarações de terça-feira, o nova-iorquino aludiu a um “presente” muito valioso oferecido pelo lado iraniano e que estava relacionado “com o fluxo, com o estreito [de Ormuz]. “Eles estão a falar connosco e estão a falar com sentido. E lembrem-se, tudo começa com o facto de não poderem ter uma arma nuclear... Não quero dizer de antemão, mas eles concordaram que nunca terão uma arma nuclear”, disse. O anterior guia supremo Ali Khamenei, morto no primeiro dia de guerra, disse que construir e manter armas nucleares é proibido sob a lei islâmica. A república islâmica sempre disse querer desenvolver um programa nuclear com fins civis — uma alegação que é disputada por vários países, a começar por Israel.Registe-se ainda que, para Trump, há “de facto uma mudança de regime”, para de seguida dizer, sem fazer distinção, que o Irão vive uma “mudança no regime, porque os líderes são todos muito diferentes daqueles que criaram todos aqueles problemas”.Do lado do Irão, a mensagem oficial mantém-se. Ali Abdollahi, o militar no comando do quartel-general central de Khatam al-Anbiya disse que “as falsas potências” foram “agora postas de joelhos perante os olhos do mundo com assistência divina”. Abdollahi, que dois dias antes, disse que o seu país havia mudado a postura de defensiva para ofensiva, afirmou que o inimigo está agora desesperadamente à procura de saídas do conflito que iniciou. No X, a conta da embaixada iraniana em África do Sul ridicularizou as mensagens de Trump nas redes sociais, ao simular uma negociação no WhatsApp em que só o presidente dos EUA participava. Mas à CNN uma fonte iraniana confirmou a existência de “contactos” entre Washington e Teerão, iniciados há dias pelos EUA, e que o Irão está disposto a ouvir propostas “sustentáveis” para acabar com a guerra. “Foram recebidas mensagens através de vários intermediários para avaliar se é possível alcançar um acordo para terminar a guerra. “As propostas que estão a ser avaliadas têm como objetivo não apenas alcançar um cessar-fogo, mas um acordo concreto para acabar com o conflito entre os EUA e o Irão”, acrescentou a fonte iraniana. Esta disse que Teerão vai continuar a exigir o direito ao uso da tecnologia nuclear e que também quer o fim das sanções económicas.Segundo o Jerusalem Post, o homem com que os norte-americanos têm trocado mensagens é o presidente do Parlamento, Mohammad-Bagher Ghalibaf. A Reuters relatou que países como o Egito, a Turquia e o Paquistão estão em diplomacia ativa, agindo como intermediários. Um possível local para negociações é Islamabad. O primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif sinalizou a iniciativa de o seu país ser anfitrião de negociações “significativas e conclusivas para um acordo abrangente”. Para Adam Weinstein, subdiretor do programa do Médio Oriente no Quincy Institute, “o Paquistão tem uma credibilidade invulgar como mediador, mantendo relações funcionais tanto com Washington como com Teerão, enquanto um histórico de relações tensas com cada um lhe proporciona a distância suficiente para ser visto como um intermediário credível”, disse à Reuters. “Há sinais totalmente contraditórios provenientes de cada lado. Continuo cético quanto à existência de um caminho diplomático sério, simplesmente porque os factos no terreno e os desenvolvimentos no terreno apontam para uma direção diferente”, considerou à Newsweek Hamidreza Azizi, investigador no think tank alemão SWP.Em declarações a jornalistas, o ministro da Diáspora de Israel Amichai Chikli disse que um acordo com o Irão seria um “erro” por não acreditar no regime e porque não se deve permitir que Teerão “obtenha conquista alguma”. O governo de Benjamin Netanyahu confirmou o plano para ocupar áreas do sul do Líbano para criar um “cinturão defensivo” na sua batalha contra o Hezbollah. Paris exprimiu as suas reservas ao plano israelita. Por sua vez, Beirute declarou o embaixador iraniano persona non grata, tendo até domingo para abandonar o país, isto no mesmo dia em que, pela primeira vez, um míssil balístico atribuído ao Irão foi derrubado no espaço aéreo libanês. Segundo responsáveis da segurança libanesa, foi um navio de guerra de um país terceiro que derrubou o míssil.