A garantia foi dada ontem pelo primeiro-ministro britânico: o Partido Conservador está “absolutamente unido” em querer travar a imigração ilegal através do Canal da Mancha. Em causa está a nova proposta de lei para deportar imigrantes ilegais do Reino Unido para o Ruanda, aprovada quarta-feira à noite na Câmara dos Comuns, apesar de um anunciado motim dentro do grupo conservador. .“O Partido Conservador está absolutamente unido em querer parar os barcos”, afirmou ontem Rishi Sunak, considerando também que “é compreensível que as pessoas tenham opiniões fortes, que queiram fazer tudo para resolver este problema”. “Devemos debater esta questão porque as pessoas estão frustradas e têm convicções fortes”, prosseguiu. .Esta nova proposta de lei para deportar imigrantes ilegais chegados por barco ao Reino Unido para o Ruanda foi aprovada na quarta-feira à noite na Câmara dos Comuns, conseguindo contornar as ameaças de dezenas de deputados da ala direita dos Tories de votar contra, pois queriam endurecer o texto para evitar recursos legais dos imigrantes e bloquear totalmente a interferência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos..Na altura da votação, apenas onze conservadores violaram a disciplina de voto imposta pelo primeiro-ministro, incluindo a antiga ministra do Interior Suela Braverman, e 18 abstiveram-se. A proposta de lei acabou por ser aprovada com 320 votos a favor e 276 contra, a maioria destes da oposição. Vários meios de comunicação social deram conta de que alguns deputados terão pedido uma moção de censura interna no Partido Conservador, que só pode ser convocada se for atingido o mínimo de 53. .O texto segue agora para a Câmara dos Lordes, onde poderá ser sujeito a novas propostas de alteração e a objeções antes de voltar à Câmara dos Comuns. O processo poderá demorar vários meses até à promulgação. Ontem, Rishi Sunak apelou à Câmara dos Lordes para que “faça a coisa certa”, “o mais depressa possível”, de forma a não “frustrar a vontade do povo”..O primeiro-ministro não se comprometeu com uma data para o início dos voos de deportação para o Ruanda, mas adiantou que os preparativos operacionais já estão em curso. .Mesmo tendo dito na conferência de imprensa de ontem que esta lei “é a vontade do povo”, as sondagens não sopram a favor de Rishi Sunak, nem sobre esta polémica solução para a imigração, nem sobre o seu futuro como primeiro-ministro após as eleições que irão realizar-se este ano. .Uma sondagem do YouGov publicada esta quarta-feira mostra que enquanto 37% dos britânicos querem que o plano do Ruanda avance de alguma forma, 40% querem descartá-lo completamente. Já quanto à eficácia do plano do Ruanda na dissuasão de pequenas embarcações, 28% dizem que será muito/razoavelmente eficaz, enquanto 53% dizem que não será muito/nada eficaz. Entre os conservadores a divisão sobre este assunto é clara: 46% dizem que será muito/razoavelmente eficaz, enquanto 41% dizem que não será muito/nada eficaz..Quanto às intenções de voto dos britânicos, todas as sondagens realizadas desde dezembro de 2021 dão uma vitória dos Trabalhistas, com a exceção de uma realizada pela Kantar Public, entre 17 e 21 de março de 2022, que dá 36% das intenções de votos aos dois maiores partidos. .Considerado um país seguro.De acordo com a proposta de lei agora aprovada pelos deputados, num período experimental de cinco anos, alguns requerentes de asilo que chegarem ao Reino Unido serão enviados para o Ruanda, e será lá que os seus pedidos serão processados..Se os pedidos forem aceites, os migrantes receberão o estatuto de refugiados e poderão ir para o Reino Unido. Esta legislação aplicar-se-á a quem tiver entrado de forma ilegal no Reino Unido após 1 de janeiro de 2022. A justificação do governo para esta medida é que irá inibir os migrantes de tentarem entrar no país em pequenos barcos através do Canal da Mancha. .Em novembro, o Supremo decidiu que o plano era ilegal, alegando, entre outras matérias, que o próprio governo tinha criticado, em 2021, o Ruanda pelos seus “assassinatos extrajudiciais, mortes sob custódia, desaparecimentos forçados e tortura”. O texto da lei foi alterado e tornado claro que o Ruanda é um país seguro. .Se este plano de deportação não avançar, o Ruanda já se comprometeu a devolver os 280 milhões de euros que recebeu entretanto do Reino Unido. Londres espera gastar mais 58,2 milhões de euros até ao próximo ano..Londres indicou que o número total de pessoas que chegaram em 2023 em embarcações diminuiu 36% para 29 437 em relação às 45 774 registadas em 2022. As condições meteorológicas contribuíram para uma redução, mas apesar das temperaturas negativas, 358 pessoas arriscaram a travessia na quarta-feira em oito barcos insufláveis, o valor mais alto desde o início de dezembro. .ana.meireles@dn.pt