A disciplina de voto salvou Keir Starmer de uma possível humilhação, mas não impediu um debate aceso na Câmara dos Comuns sobre se o primeiro-ministro britânico devia ou não ser investigado pela poderosa Comissão de Privilégios por alegadamente ter enganado os deputados. Em causa está o processo de nomeação de Peter Mandelson como embaixador dos EUA e o que Starmer disse sobre a verificação de segurança (que o trabalhista chumbou) e a existência ou não de pressões para que lhe fosse dada luz verde, apesar dos laços que teve com o falecido pedófilo Jeffrey Epstein. A investigação foi chumbada com 335 votos contra e 223 a favor, com 15 deputados do Labour a quebrar a disciplina de voto (não sendo claro se serão castigados por isso). Outros 53 abstiveram-se, mas alguns foi por não estarem em Londres, tendo no debate havido quem questionasse a decisão do partido de exigir que votassem contra, defendendo que o primeiro-ministro sairia beneficiado se fosse “ilibado” pelo inquérito. Assim, limita-se a sobreviver a mais um dia, continuando fragilizado.O gabinete de Starmer reagiu à votação, acusando os conservadores (que desencadearam a votação) de tentarem “uma manobra política desesperada na semana anterior às eleições de maio”. Para a semana há eleição para os parlamentos da Escócia e País de Gales, além de eleições locais em várias localidades inglesas, com as sondagens a apontarem uma forte queda do Labour - outro momento que não será fácil para o primeiro-ministro. No início do debate, a líder da oposição, Kemi Badenoch, tentou vender a investigação como uma “questão de confiança” para o público, defendendo que em causa já não está “apenas” a nomeação de Mandelson, mas a capacidade de Starmer. Em relação a Mandelson falou num “encobrimento”, dizendo que os trabalhistas que votassem contra a investigação estariam a participar.Vários deputados da oposição lembraram uma votação semelhante, em 2022, que tinha como alvo Boris Johnson e onde não foi pedida disciplina de voto. O então primeiro-ministro foi investigado por alegadamente ter enganado o Parlamento em relação ao que sabia sobre as polémicas festas do seu gabinete durante a pandemia da Covid. E acabou por se demitir depois de ver o rascunho do relatório da Comissão de Privilégios, que concluía que tinha enganado os deputados.Starmer, que não participou no debate, nega ter enganado o Parlamento e afirma que, quando disse aos deputados que tinha sido seguido o devido processo na nomeação de Mandelson, acreditava que assim era - descobrindo-se entretanto que o embaixador teve acesso a informação secreta antes de receber a luz verde. O primeiro-ministro também disse que “não houve qualquer pressão” para que o Ministério dos Negócios Estrangeiros aprovasse a verificação de segurança de Mandelson. Mas em declarações à Comissão de Negócios Estrangeiros, os funcionários públicos alegam que houve pressão para acelerar o processo (a nomeação de Mandelson foi tornada pública antes de ser feita a verificação), que havia quem defendesse que não era necessária esse procedimento (porque ele pertencia à Câmara dos Lordes) e que o gabinete do primeiro-ministro mostrava “desinteresse” em relação às preocupações levantadas. Não só sobre Epstein, mas soube-se mais tarde, também pelas relações com ativos russos e chineses. Mandelson acabou por ser demitido após sete meses no cargo, quando foram reveladas novas informações sobre os laços com o falecido pedófilo.Starmer já pediu várias vezes desculpa por ter escolhido Mandelson, com o seu ex-chefe da gabinete, Morgan McSweeney, a admitir ontem ter cometido “um erro grave” ao aconselhar a sua nomeação. Mas negou ter pedido para o processo ser acelerado ou que o futuro embaixador fosse aprovado “a qualquer custo”. Explicou que Mandelson foi escolhido devido à sua experiência como comissário europeu para o Comércio, já que o objetivo era negociar um acordo com os EUA..Starmer volta a tremer por causa de Mandelson, mas ainda sem cair