“Estamos extremamente preocupados em Taiwan com a situação. Temos 15 cabos submarinos e, se houver qualquer dano num deles, isso certamente criará uma grande tensão em todo o sistema de comunicação. A internet é essencial hoje em dia, pois todos os tipos de comércio, negócios, educação e pesquisa dependem dela. Se algo acontecer com a internet, não apenas um setor específico, mas muitos setores sofrerão as consequências”, afirmou Kenny Huang, numa conversa com o DN à margem do Mafra Dialogues, organizado pelo IPDAL. Huang é presidente do Centro de Informação da Rede de Taiwan e no painel intitulado Do fundo do mar ao céu: Proteger infraestruturas críticas, desde cabos submarinos até sistemas aeroespaciais debateu com Anum Khan, da Fundação Nacional Marítima da Índia, e João Fonseca Ribeiro, da UFORCE Portugal, com o moderador a ser Filipe Pathé Duarte, da Universidade Nova.A potencial ameaça aos cabos submarinos em situações de conflito é uma preocupação generalizada, mas no caso de Taiwan é sentida muito em particular, pois além de ser uma ilha, e altamente digitalizada, existe ainda a permanente tensão com a República Popular da China. Pequim relembra que os nacionalistas do Kuomintang se refugiaram em 1949 na ilha depois de derrotados na guerra civil chinesa. E a reunificação com a República da China, nome oficial de Taiwan, mantém-se uma prioridade, se necessário através do uso da força.“Durante uma situação de desastre, o governo também se preocupa com a possibilidade de o inimigo tentar usar o cabo submarino para interromper o sistema de comunicação de Taiwan, deixando o país isolado no mundo digital. Portanto, precisamos encontrar uma maneira de mitigar a ameaça potencial e de melhorar esse tipo de resiliência, especialmente no que diz respeito aos cabos submarinos. É por isso que identificamos diversos mecanismos de controle. Por exemplo, como mencionei, estamos preocupados com qualquer ocorrência nas águas territoriais, então temos regulamentações locais para fortalecer esse tipo de mecanismo de controle dentro das águas territoriais. E temos algum mecanismo de controle para a Zona Econômica Exclusiva? Até o momento não, mas estamos a procurar identificar agências governamentais que possam ter mais capacidade e recursos para ajudar nesse sentido. Por exemplo, a Marinha, ou mesmo a Guarda Costeira, provavelmente possuem mais capacidade, mais tecnologia e mais poder para ajudar a mitigar essa potencial ameaça na ZEE. E, por último, o que aconteceria se algo acontecesse em relação às águas internacionais? Precisamos trabalhar em conjunto com parceiros”, acrescentou Huang.Com apenas 23 milhões de habitantes, e uma área equivalente a um terço de Portugal, Taiwan é, porém, a 21.ª economia mundial, e isso muito graças às empresas de tecnologia, nomeadamente a produção de chips. Com uma economia virada para a exportação, mas com necessidades de importação energética e matérias-primas, a ilha também é afetada por crises distantes, como o atual conflito no Médio Oriente, iniciado com o ataque israelo-americano ao Irão. “Sim, claro, que o conflito no Médio Oriente afeta Taiwan. Obviamente o preço do petróleo aumentou bastante, e também aumentará o preço das importações taiwanesas. Na verdade, a nossa companhia de energia elétrica está já a sofrer com o aumento do preço do petróleo. Tem um grande impacto. Por exemplo, se algo afetar o preço de uma matéria-prima, se essa matéria-prima for um componente básico para a fabricação de chips, isso impactará o fabricante de chips e também o preço praticado. Até ao momento, o nosso governo tenta monitorar tudo de perto para garantir que, se continuar a tensão no Oriente Médio, isso não vai afetar o preço para o consumidor, mas também os elementos críticos da nossa economia, como a fabricação de chips. Queremos garantir que esse tipo de exportação seja bem-sucedido”, sublinhou o académico taiwanês. E chamou ainda a atenção que “uma outra incerteza, não relacionada com o conflito no Médio Oriente, reside no facto de os EUA também terem imposto taxas diferentes para os fabricantes de chips. Assim, precisamos monitorar a situação internacional, não apenas em relação ao cenário mundial, mas também devido às relações comerciais, especialmente com o governo dos EUA”.Na última década, com a eleição sucessiva de dois presidentes oriundos do Partido Democrático Progressista, Tsai Ing-wen e, desde 2024, Lai Ching-te, a relação entre a China e Taiwan degradou-se. Pequim acusa a liderança de Taipé de querer a independência e tem usado a pressão diplomática, económica e militar para pressionar. Sobre a reação aos exercícios militares que a China realiza em redor da ilha, Huang explica que a situação é analisada com base em dois tipos de fases: “Uma fase é o período de paz. Durante o período de paz, na verdade, sentimo-nos muito confortáveis e confiantes para lidar com qualquer tipo de perturbação. Por exemplo, assim como tentamos maximizar a redundância do cabo submarino, também procuramos fornecer mais redundância entre o cabo submarino e a comunicação via satélite. Isso é para tempos de paz. Mas mesmo em tempos de paz, precisamos lidar com a desinformação. Por exemplo, durante as eleições, provavelmente muita desinformação foi disseminada pelo nosso inimigo. E, sim, em tempos de paz, o governo e o povo têm plena confiança em lidar com qualquer tipo de perturbação. A segunda fase seria uma situação de desastre que podemos chamar de tempo de guerra. E isso é algo com que precisamos nos preocupar, porque o tempo de guerra não desencadeia apenas um ataque isolado. Pode ser qualquer tipo de ataque físico. E se houver algum tipo de ataque físico ou se simplesmente desconectarem todo o cabo submarino, o que podemos fazer? O governo está a trabalhar nessa área agora mesmo, e para verificar se até mesmo o cabo submarino mais antigo for cortado, temos algum plano de mitigação? E temos algum sistema de comunicação de emergência específico para lidar com esse tipo de situação de desastre? Sim, estão a trabalhar nisso”.A conversa com perito taiwanês coincidiu com uma visita à China de Cheng Li-wun, líder do Kuomintang, hoje o maior partido da oposição em Taiwan. Foi inclusive recebida pelo presidente Xi Jinping, também secretário-geral do Partido Comunista Chinês. Questionando sobre se estas iniciativas de diplomacia paralela, mesmo com o objetivo de melhorar as relações entre um lado e outro do estreito de Taiwan dividem a população numa sociedade democrática e habituada a debater tudo, Huang respondeu que “o partido no poder tem uma política consistente. Já o Kuomintang foi a Pequim para uma visita que, na realidade, não representa a política governamental. Mas tudo o que discutiram, obviamente, terá impacto na política interna de Taiwan. Mas nada do que discutiram representa necessariamente a posição oficial do partido governante. Portanto, não gostaríamos de ver algum consenso ou acordo que possa comprometer o sistema político de Taiwan. Não creio que isso vá acontecer, mas espero que o partido no governo e os outros partidos em Taiwan possam trabalhar em estreita colaboração para identificar qual o melhor interesse de toda a sociedade. Acho que essa é a melhor forma de trabalharmos juntos”.Sobre a prevista cimeira entre Donald Trump e Xi Jinping em maio, numa visita do presidente americano à China, ter obrigatoriamente na agenda Taiwan, Huang diz que será prestada atenção aos potenciais tópicos de discussão”, mas que “se olharmos para a história recente, as posturas do governo dos EUA e a do governo chinês têm sido bastante consistentes. Acreditamos que estão a procurar maneiras de aprimorar a comunicação entre eles. Resta-nos aguardar e observar, mas prestaremos atenção às repercussões das discussões em Taiwan”.Os Estados Unidos trocaram o reconhecimento da República da China pelo da República Popular da China em 1979, e as relações oficiais são com Pequim, mas continuam comprometidos com Taiwan, vendendo armas e deixando no ar a possibilidade de intervenção militar se houvesse uma tentativa de reunificação pela força. Um dos prováveis temas quentes da cimeira entre Trump e Xi será exatamente a venda de armamento americano a Taiwan, para melhorar as suas capacidades defensivas.Huang vai ser esta segunda-feira, dia 13, um dos participantes em Lisboa, no auditório da FLAD, da conferência Deep Sea Connections, que num comunicado de imprensa convida a conhecer “como os cabos submarinos – responsáveis por mais de 95% dos dados globais – estão a remodelar a segurança, a geopolítica e o crescimento digital, com Portugal como um importante centro transatlântico”. Riscos e oportunidades vão ser debatido entre o especialista taiwanês, a americana Olivia Negus, Diretora de Políticas de Telecomunicações do Conselho da Indústria de Tecnologias de Informação, e o contra-almirante português Nuno António de Noronha Bragança – coordenador do Atlantic Center. .“A segurança de Taiwan está profundamente ligada à segurança de toda a região do Indo-Pacífico”