Renan Santos, 42 anos, é o candidato da chamada “terceira via”, ou seja, entre Lula da Silva, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL, que mais sobe nas sondagens. Presidente do Missão, partido nascido do Movimento Brasil Livre, que prosperou durante as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff há pouco mais de 10 anos, diz liderar “um projeto geracional e anti-oligárquico”. “Nós somos a verdadeira direita: coerente, programática e independente”, afirma Renan, que considera o governo Lula “péssimo” e que Flávio “tem uma sucessão de episódios graves a pesar sobre ele”. O que o distingue dos demais candidatos e como define o Missão política e ideologicamente? O Missão é o único partido nascido fora do sistema — ele veio das ruas, do movimento anticorrupção que mobilizou milhões de brasileiros e não dos gabinetes do centrão [o centro-direita do Congresso Nacional conhecido pelas práticas clientelistas]. Somos um projeto de direita, sim, mas o nosso corte é antes de tudo geracional e anti-oligárquico: queremos superar o clientelismo que captura a política brasileira há décadas, em que partidos sem ideologia se vendem ao governo da vez em troca de cargos e verba. Enquanto os demais candidatos representam o passado ou a acomodação, o Missão representa uma nova geração disposta a romper com essa lógica e devolver a política a quem ela pertence: o cidadão.Sente-se equidistante de Lula e Flávio Bolsonaro ou mais próximo do candidato do PL?Não há equidistância nem proximidade ideológica com o PL, porque o PL, na prática, é mais próximo do PT do que de nós. É um partido clientelista, sem doutrina, que vota com o governo sempre que lhe convém — apoiou a lei da misoginia, o vale-gás e o fim da escala 6x1. Os números não mentem: na última legislatura, o nosso deputado Kim Kataguiri acompanhou o governo em apenas 22% das votações, enquanto Flávio Bolsonaro o fez em 46%. Nós somos a verdadeira direita — coerente, programática e independente. O PL é apenas mais uma engrenagem do toma-lá-dá-cá.Javier Milei, presidente da Argentina, e Nayib Bukele, presidente de El Salvador, são inspirações ou a realidade onde eles estão inseridos não se encaixa no Brasil?São inspirações – Milei na economia, Bukele na segurança pública – sem dúvida, mas inspiração não é cópia indiscriminada. Cada país tem a sua realidade, e o nosso trabalho foi estudar o que deu certo nesses modelos e adaptá-lo às condições brasileiras. Foi exatamente para isso que construímos o Livro Amarelo: mais de 500 páginas com propostas inéditas, pensadas para o Brasil, e não importadas mecanicamente. Levamos o debate de ideias a sério, e isso nos distingue de quem só improvisa slogans.As sondagens apontam-no perto do terceiro lugar. Acredita que pode chegar à segunda volta?Estamos jogando para ganhar -- temos uma missão com o Brasil, e não uma candidatura para marcar posição. Começamos com 1% e já estamos com 6% ou 7% em diversos institutos, numa curva de crescimento que nenhum outro nome apresenta. Quem diz que é cedo demais subestima a vontade de mudança do eleitor, sobretudo do mais jovem. Temos todas as condições de chegar à segunda volta e de vencer.Como avalia o atual mandato de Lula?É um péssimo mandato, possivelmente o pior do próprio Lula. É uma repetição sem emoção e sem esperança das mesmas políticas de 2002 a 2010 – vinte anos depois, sem atualização nenhuma. O PT parou no tempo: não tem projeto de futuro e tenta se sustentar comprando votos com [projetos como o] Pé-de-Meia, Vale-Gás e programas eleitoreiros, a qualquer custo, enquanto as oligarquias e o centrão ficam cada vez mais fortes. O Brasil não merece mais quatro anos de estagnação.Como vê o escândalo do filme Dark Horse e a relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro preso Daniel Vorcaro? Flávio Bolsonaro não tem a menor condição de ser presidente da República. O caso dos 134 milhões de reais [cerca de 23 milhões de euros] que teria pedido a Vorcaro é apenas a cereja do bolo de uma sucessão de episódios graves que pesam sobre ele — da rachadinha às conexões com o Comando Vermelho via [o deputado estadual do Rio de Janeiro] Rodrigo Bacellar. São factos que precisam ser apurados com rigor pela Justiça e, se confirmados, ele deve responder integralmente e devolver cada centavo de origem ilícita. Quem aspira a comandar o país tem de ter a ficha limpa e a conduta acima de qualquer suspeita – e não é o caso.Pretende em campanha falar diretamente aos brasileiros que vivem em Portugal?Sim, e com uma mensagem muito clara: o nosso sonho é repatriar esses brasileiros. A imensa maioria deles não saiu do país por vontade, mas por falta de oportunidade económica e pelo avanço da criminalidade. O nosso governo vai enfrentar esses dois problemas de frente e colocar o Brasil no caminho para se tornar um país de primeiro mundo – e, quando isso acontecer, poderemos recebê-los de volta, com trabalho, segurança e futuro. Essa é a nossa missão, dentro e fora do Brasil..Romeu Zema: “O Governo Lula usa a estrutura de poder para perseguir inimigos”