Foi o papa Francisco que a nomeou para o Vaticano. Como se recorda do papa argentino, seu compatriota?Guardo a memória dele com carinho. Ele tornou-se como da minha família. Tínhamos uma relação próxima, quase familiar, com ele. Sofremos muito com a sua partida. Ainda nos lembramos dele até hoje. Fomos os quatro juntos visitar o seu túmulo em Santa Maria Maior.Francisco manteve-se argentino de coração, ou ser papa transformou-o numa pessoa diferente?Os papas são escolhidos por serem quem são. Por isso, não mudam quando se tornam papas. São precisamente as suas qualidades que levam o Colégio Cardinalício a elegê-los. E espera-se que o que fizeram ao longo da sua vida como sacerdotes seja o que guiará a Igreja naquele momento. São escolhidos porque, no momento da sua eleição, a sua personalidade, a sua maneira de ser, a sua visão do mundo são o que a Igreja precisa para avançar. Por isso, não diria que Francisco ou Leão XIV, uma vez que se tornaram papas, se transformaram em pessoas diferentes. Naturalmente, ocupam um papel diferente no seio da Igreja e atuam num contexto político, económico e cultural diferente, e cada vez mais diferente. Por conseguinte, as decisões sobre os desafios que enfrentam podem não ser as mesmas que tomariam enquanto bispos das suas cidades. Isto não se deve ao facto de serem pessoas diferentes, mas sim porque o contexto histórico é diferente.Francisco ter sido um papa de fora da Europa trouxe novidades?Bem, como cada um de nós, Francisco tinha a sua própria personalidade e, ao contrário de Robert Prevost, eu não conhecia Francisco quando ele era arcebispo. Bem, claro que o conhecia porque era o arcebispo de Buenos Aires, mas não é como se eu trabalhasse com ele, quando era Jorge Mario Bergoglio. Conheci-o e comecei a trabalhar com ele já depois de se tornar Francisco em 2013. Portanto, não sei qual foi a mudança . No caso de Prevost, é o contrário. Conheci-o quando era bispo, e agora é o papa, por isso talvez consiga compreender. Mas a grande diferença com os papas anteriores, claro, está que são dois papas das Américas. E, por vezes, as pessoas enfatizam que vieram ambos da América Latina, pela ligação de Prevost ao Peru. Penso que é preciso parar de fazer estas distinções por várias razões que poderia referir, mas todas as Américas têm uma forma de ver o mundo e de procurar soluções para os conflitos que não é a mesma da Europa. Isto é verdade tanto na América Latina como na América Central e na América do Norte. Podemos pensar no pragmatismo norte-americano, assim como podemos pensar no que se chamava a filosofia e a teologia da libertação, mas todo o pensamento original latino-americano parte da realidade e, a partir dela, constrói não só as suas estratégias políticas, mas também as eclesiais e as culturais. Isto é muito característico das três Américas. Assim, quando se olha para o papa Francisco e para Leão XIV, são semelhantes porque ambos foram formados por uma cultura americana que é diferente da europeia.Quando se fala do papa Leão XIV, este tem uma característica muito interessante: é cidadão dos Estados Unidos, mas viveu no Peru, país do qual também tem cidadania. Então, será que este papa representa uma síntese das várias Américas?Sim, sem dúvida. E penso que essa é a grande diferença em relação ao Francisco, e penso que é também por isso que foi eleito pelos seus pares. Ou seja, é alguém que compreende a realidade da periferia, que é a América Latina, e também a realidade dos países centrais, como os Estados Unidos. Conhece as zonas rurais não só por ter vivido na América Latina durante mais de 20 anos, mas também por ter desempenhado um papel importante. Não era apenas o bispo de Chiclayo, mas também era membro da Conferência Episcopal Peruana. Por outras palavras, ele tinha um papel significativo, até mesmo institucional. Conhece ambas as igrejas, e Francisco não. Mas a vantagem de Francisco sobre Prevost era que Francisco era arcebispo de uma grande cidade, uma grande metrópole como Buenos Aires, enquanto Prevost era bispo de Chiclayo, uma pequena cidade. Por outras palavras, têm diferenças qualitativas muito importantes para os seus pontificados, e em ambos os casos bastante válidas.Prevost foi nomeado bispo e cardeal por Francisco. É o sucessor desejado por Francisco?A estrutura da Igreja não pode ser interpretada da mesma forma que se interpretariam as mudanças num país. Por exemplo, num país há competição entre partidos políticos, fazem campanhas, apresentam as suas propostas, e aquele que melhor convence o povo chega ao poder, e quando isso acontece, todo o seu gabinete é renovado. E provavelmente haverá políticas económicas, culturais e de saúde diferentes. A Igreja não funciona dessa forma. Não é como se houvesse uma campanha para escolher em quem se deve votar. As Congregações Gerais, realizadas antes do conclave, são precisamente onde se discutem os sonhos e as necessidades deste momento, como afirma o Concílio Vaticano II: qual é a situação mundial, qual é a situação da Igreja e que tipo de Igreja e que pastor precisamos para este tempo. Assim, com base no que é apresentado nas congregações gerais, os cardeais elegem um novo papa. Ora, o objetivo é a continuidade, porque se trata da Igreja; não podemos começar tudo de novo, pois isso não seria unidade. Portanto, há sempre continuidade, e podemos ver isso, por exemplo, entre João XXIII e Paulo VI; ou seja, há continuidade. Como se pode observar esta continuidade? No Magistério Pontifício, promulgado pelos papas. Há uma continuidade. A diferença não reside no facto de defenderem posições políticas ou ideológicas distintas, mas sim, tendo em conta a adoção de diferentes posicionamentos ideológicos pelo mundo, a Igreja, por fazer parte da história, deve responder e estar à altura da sua época. Portanto, os temas que Francisco terá provavelmente de abordar não são os mesmos que João Paulo II abordou. Por exemplo, a encíclica Laudato Si’, o cuidado com a criação e a sustentabilidade. Esta é uma questão que esteve presente, de alguma forma, em papas anteriores, mas não representava uma ameaça à vida. Hoje, a ameaça à vida é à dignidade humana, devido à mudança tecnológica qualitativa. Por isso, este papa terá provavelmente de enfatizar o conceito e defender a dignidade humana. E isso não significa que todo o problema ecológico tenha sido deixado para trás. Significa simplesmente que há continuidade, mas há uma diferença não marcada pela Igreja, pela personalidade do papa, mas pelos acontecimentos históricos.Entrevistei uma biógrafa de Leão XIV, Ann Elise Allen, correspondente no Vaticano do Crux. Disse que o papa Francisco era impulsivo, enquanto o papa Leão XIV é reflexivo e ponderado. Concorda?Eu diria o contrário. O papa Francisco, enquanto papa Francisco, considerou muitas posições que não eram propriamente as suas posições. As decisões que não tomou - ou seja, as decisões que deixou de tomar - visavam precisamente manter a unidade da igreja. É uma pessoa que não confrontou os outros. Muitos criticaram-no precisamente por não os confrontar. Precisamos de analisar a instituição. Como era a abordagem institucional sob o governo de Francisco? Se analisarmos a situação, a Cúria Romana de Francisco manteve cardeais que tinham sido nomeados por João Paulo II. Por outras palavras, manteve e deu continuidade à estrutura institucional. Os discursos de Francisco, talvez mais fortes e diretos, talvez devido ao seu estilo argentino, levam as pessoas a pensar que o papa Francisco era confrontador, enquanto Leão XIV, com um estilo mais norte-americano, fala menos. Os norte-americanos, naturalmente, falam menos. Nos Estados Unidos, existem assuntos pessoais que não são politicamente corretos para serem discutidos numa reunião. Já nos países latinos - Itália, Espanha, Brasil, Argentina - as pessoas falam de assuntos pessoais publicamente. Ora, as personalidades individuais são uma coisa, mas a forma como a Igreja, e especialmente a Cúria Romana, é governada é outra. E se observar atentamente, verá que o papa Francisco não fez qualquer alteração significativa na governação da Igreja. Trabalhou nas margens, nas periferias, promoveu o diálogo aberto, a sinodalidade, que é um processo de diálogo, mas não se envolveu em confrontos com movimentos eclesiais, congregações ou posições dentro da Cúria.Referiu a personalidade argentina e norte-americana dos dois recentes papas. Tem também uma ligação com Prevost, com Leão XIV. O que mais se destaca na sua personalidade?Bem, ele é uma pessoa muito simples. Falo agora do cardeal Prevost, não do papa Leão XIV. É uma pessoa simples, muito simples. Chegou à cúria como bispo de uma pequena cidade periférica, o que não é o mesmo que ser arcebispo de São Paulo, da Cidade do México ou de Buenos Aires. Conduzia o seu próprio carro, ia ao ginásio todos os dias e vestia-se sempre de forma muito simples. Foi sempre muito cavalheiro comigo, sendo eu mulher. Nunca impôs as suas ideias no trabalho. Ouvia os programas que eu liderava e apoiava, e defendia a sua equipa, nós que trabalhávamos com ele. Ele tem um sorriso incrível. É invulgar para um norte-americano. Ele é muito expressivo, muito expressivo mesmo. Talvez quando o veem como papa agora, ele ande assim, muito solene, não é? Mas, fora disso, porque o vemos mais em atos litúrgicos, se prestar atenção, quando ele fala com a imprensa, por exemplo, verá que a sua voz, a sua atitude e os seus gestos são muito diferentes de quando o vemos numa celebração litúrgica. Por isso, quando o vemos com a imprensa, é aí que reconheço o Prevost que conhecia como Prevost. É alguém que realmente ouve, mas também dá a sua opinião e toma decisões. Ele não se limita a escutar. Acho que as pessoas estão a interpretar mal o que veem na liturgia. É por isso que digo: observem-no quando fala com a imprensa.Como é conhecer alguém que é bispo, cardeal e, depois do conclave, o reencontra já papa? Vê a mesma pessoa ou há algo automaticamente diferente?Bem, a primeira vez que vi Prevost vestido de papa, em privado, fiquei paralisada, sem reação. E ele disse-me: “Continuo o mesmo”. Disse-o com o sorriso de sempre. Mas mesmo assim vi-o e fiquei quase paralisada. Não é porque ele seja diferente, mas porque respeito profundamente a instituição, porque quando estou com ele, estou verdadeiramente com o papa. Não penso nisso como seja estar com o bispo Prevost, aquele que conheci primeiro. Ele é o papa, e eu respeito-o como tal. E sim, estar perante um papa é especial - vi também Francisco muitas vezes, muitas vezes - e, no entanto, todas as vezes que o via, e todas as vezes que qualquer um de nós na Cúria está com o papa, está com o papa. Não sei como explicar, não é algo que nos obrigamos a fazer, é automático. Para todos nós, mesmo vendo-o com frequência, ele é o papa. E nós ficamos paralisados, quer dizer, é o peso da investidura. Francisco fazia muito para quebrar isso. Porque ele sabia, mesmo vendo-o nós a toda a hora, que entrávamos na reunião e automaticamente ficávamos à espera dele falar. Ele fazia uma piada. Tinha um talento especial para encontrar algo nas nossas roupas e fazer uma piada. Aí, ria-se.Fazer piadas é muito argentino, não é?Sim, ao estilo argentino. Bem, ele falava italiano e espanhol, não falava outras línguas. Talvez essa barreira tenha sido um problema, porque já convivia com pessoas dos Estados Unidos e de outros lugares, e claro, ele fazia as mesmas coisas, mas as pessoas não o compreendiam. Compreendi também algo muito importante sobre o papa Francisco: embora não falasse muitas línguas, dominava a linguagem corporal. Por exemplo, quando se ajoelhou no chão para beijar os pés das pessoas em África. Isso foi impressionante. E isso diz tudo, é como se falasse todas as línguas. Tinha esta capacidade de comunicar com o corpo, que superava e era ainda mais poderosa do que falar com palavras. No caso de Prevost, tem a vantagem de falar muitas línguas. Assim, consegue comunicar com as pessoas. Ele não precisa de o fazer, pois pode simplesmente entrar. Falar o inglês sendo nativo dos Estados Unidos, não se trata apenas de falar uma língua; falar uma língua é falar uma cultura. A cultura está na língua. Além disso, Prevost não fala apenas inglês, mas também espanhol. Falo muito rápido porque sou argentina e no início quando falava com ele e pensava: “Dá para me perceber?” E falava devagar. Mas ele fala tão bem espanhol, é incrível. Como se fosse a sua própria língua. Ele compreende a cultura; consegue ultrapassar a barreira linguística. Fala também italiano muito bem; viveu em Itália. Creio que a capacidade de falar outras línguas lhe proporciona essa facilidade de adaptação, que foi o que Francisco teve de ultrapassar. E por isso usou a linguagem corporal, e a linguagem do humor..Leão XIV: um ano do papa da “serenidade desarmante” que está a fazer ouvir a sua voz.“Não é possível compreender o papa Leão XIV sem compreender o seu tempo no Peru”