Como foi a infância de Robert Prevost, um rapaz nascido em Chicago na década de 1950?Robert Prevost era uma criança normal no South Side de Chicago naquela época. Cresceu numa família muito religiosa, frequentando escolas católicas e rezando o terço após o jantar. A sua família era muito envolvida na vida paroquial. Fazia as coisas normais que um menino fazia naquele tempo: brincava com os amigos, nadava e estudava. Mas havia sempre algo que o atraía para Deus, algo dentro dele que o impelia para a vida espiritual, tanto que brincava às missas em criança, entrou para o seminário menor muito novo e até sonhava vir a ser missionário. Os seus vizinhos descreviam-no como um jovem especial, e alguns até previram que seria o primeiro papa americano! Por isso, a sua infância pode ser descrita como muito normal, mas ele era muito especial: as pessoas viam algo no jovem Robert Prevost, algo que ele só compreenderia completamente após a sua eleição para o papado aos 69 anos.Como se manifestou a sua vocação religiosa?A sua vocação religiosa começou muito cedo, participando em missas com apenas 7 ou 8 anos de idade, e começou a frequentar seminários ainda muito jovem. Sabia que queria ser padre desde a adolescência, a única questão era qual o tipo: tinha de decidir entre ser padre diocesano ou ingressar numa ordem religiosa. No final, escolheu os Agostinhos.Existe alguma explicação especial para a sua opção pelos Agostinhos?Há alguns motivos pelos quais escolheu os Agostinhos. Em primeiro lugar, porque já os conhecia bem. A sua mãe trabalhava numa escola dirigida pelos Agostinhos e os seus irmãos frequentavam as aulas lá, e costumavam convidar os padres da ordem para jantar. Assim, já estava familiarizado com eles. Mas também conheceu outras ordens religiosas. O que mais chamou a atenção nos Agostinhos foi a ênfase na amizade, na vida em comunidade e também a vertente missionária. Sempre teve interesse em viajar pelo mundo e, desde cedo, se sentiu atraído pela vida missionária, pelo que acabou por escolher os Agostinhos.De que forma Prevost foi moldado pela sua vivência no Peru?Esta é talvez a questão mais importante para compreender Robert Prevost, agora papa Leão XIV. O seu tempo no Peru foi fundamental para moldar toda a sua vida e ministério pastoral como sacerdote, como superior da sua ordem religiosa e, mais tarde, como bispo, cardeal, e agora será decisivo para o seu papel como papa. A sua primeira missão pastoral foi no Peru, em meados da década de 1980, numa zona muito pobre, no meio de uma enorme crise social e económica nacional, com as ameaças terroristas do Sendero Luminoso e muitas pessoas em completo desespero e sem esperança. Foi este contexto que o formou enquanto jovem sacerdote. Aprendeu a acompanhar as pessoas em crise e assim o fez durante o resto da sua experiência missionária e pastoral no Peru. Além disso, há também o elemento cultural de como a fé é vivida e expressa no Peru e na América Latina - o calor do povo, as suas devoções populares e como se unem como comunidade para celebrar momentos e festas importantes. A sua vida pastoral e até espiritual estão intrinsecamente ligadas à sua experiência no Peru, e não é possível compreender o papa Leão XIV sem compreender o seu tempo no Peru. . Acha que é mais um papa sul-americano do que um papa norte-americano na sua forma de pensar e de agir?Como o próprio papa Leão me disse na nossa conversa, ele é ambos: a sua forma de pensar e o seu estilo de liderança são muito norte-americanos. É um pensador organizado e sistémico, e também um administrador muito capaz que governa metodicamente, o que é em parte personalidade, mas também certamente cultural, das suas raízes norte-americanas. Ao mesmo tempo, o papa é muito sul-americano nos seus instintos - a sua visão e instinto pastoral em geral, a sua proximidade com o povo e a sua forma de viver a fé. A devoção popular do Peru marcou-o profundamente, assim como o calor e a hospitalidade do povo. Foi acolhido como um deles, como missionário, e esse sentimento nunca o abandonou - é possível ver os seus olhos brilharem quando está com o povo peruano.Foi Francisco quem nomeou Prevost cardeal. Quais eram as expectativas em relação à sucessão do papa argentino antes do conclave?Havia muitas expectativas. O papa Francisco era uma figura magnética; tinha uma personalidade forte e ousada, agia impulsivamente e tinha um caminho de reformas muito claro. Era também bastante controverso, com muito apoio à sua visão e às reformas em geral, mas também muita resistência. O desafio era encontrar alguém que pudesse trazer equilíbrio: alguém que pudesse dar continuidade aos aspetos do papado de Francisco, da sua visão e reformas, que fossem apreciados, ao mesmo tempo que construísse pontes com os setores da Igreja que resistiam à agenda de Francisco, ou mesmo apenas ao seu estilo. Além disso, havia também a necessidade de alguém que pudesse restaurar o sentido de unidade numa sociedade dividida e transmitir eficazmente uma mensagem de paz num mundo dilacerado por conflitos. Por conseguinte, a Igreja enfrentou desafios internos e externos muito claros no conclave, e encontrar o candidato certo não foi fácil, mas, no final, Prevost foi a escolha óbvia.O que considera ter sido decisivo para que o papa recebesse o voto da maioria dos cardeais no conclave?Penso que o que foi mais decisivo para os cardeais na escolha de Prevost como melhor candidato foi a combinação de dois fatores: a sua personalidade e o seu percurso. Prevost é norte-americano, mas foi missionário, pároco, diretor de uma casa de formação, canonista, superior geral de uma ordem religiosa internacional, bispo e teve também experiência em Roma como cardeal e membro da Cúria Romana. Portanto, ele “tinha tudo” em termos de experiência, mas também em termos da visão global necessária para um papa assumir esse papel hoje. A sua origem americana foi também atraente, no sentido em que seria levado a sério no panorama global numa altura em que a geopolítica está a mudar e exige uma voz e uma direção decisivas da Igreja. É também visto pessoalmente como um homem humilde, calmo, gentil e nada impositivo, com a capacidade de reunir pessoas de diferentes origens e perspetivas para dialogar. A sua formação agostiniana, com a sua ênfase em viver uma vida comunitária unificada e harmoniosa, foi vista como atraente e necessária numa sociedade polarizada.Estes primeiros meses do pontificado mostram já uma grande diferença de estilo entre Leão XIV e Francisco. Mas será que um é uma continuação do outro, ou estamos a assistir a uma verdadeira mudança no rumo da Igreja Católica?O que vemos com o papa Leão é uma mudança de tom, mas não de direção. Leão deixou consistentemente claro, desde a sua primeira saudação na varanda da Basílica de São Pedro, que está empenhado em dar continuidade às reformas do papa Francisco e em levar avante a sua visão de sinodalidade, mas fá-lo-á à sua maneira, com o seu estilo único. O papa Francisco era ousado, enquanto o Papa Leão é calmo; o papa Francisco era impulsivo, enquanto o papa Leão é reflexivo e ponderado; Francisco contornou o sistema que queria reformar, enquanto Leão prefere trabalhar com ele e através dele. Portanto, a visão será a mesma, mas a forma de implementação será a própria de Leão.Com base na sua experiência a lidar com papas, qual é a característica que diferencia Leão XIV?O que torna Leão XIV tão singular é a combinação da sua formação como missionário com a sua vasta experiência em administração. Normalmente, os papas são uma coisa ou outra: arcebispos de dioceses, diplomatas de longa carreira ou funcionários da Cúria ao serviço da Santa Sé. O papa Leão XIV é uma combinação única destas duas coisas: é um líder muito capaz, que tem ocupado consistentemente posições de liderança e cujas capacidades de governação sempre foram reconhecidas e respeitadas, mas é também alguém que, como diria o papa Francisco, tem “cheiro a ovelha”, que está próximo do povo, que conhece bem a sua realidade e sabe como responder eficazmente às suas necessidades. Isto faz dele um papa muito interessante, pois confere profundidade e perspetiva à sua estratégia e às suas decisões. Outro aspeto que torna Leão XIV tão singular é que é o primeiro papa a ter vivido verdadeiramente na era digital - é o primeiro papa a ter contas nas redes sociais e aplicações de telemóvel antes da sua eleição. Conhece o mundo digital e faz parte dele, o que também o torna um papa muito interessante para os tempos modernos.Como é que os Estados Unidos veem o seu primeiro papa? Há poucas décadas, John Kennedy teve de “negar” a construção de um túnel da Casa Branca para o Vaticano, como o também católico Al Smith em 1928.Há dois sentimentos principais: grande entusiasmo e grande curiosidade. Estive em Miami para o lançamento da edição original em espanhol do meu livro em novembro, e devo dizer que a reação ao papa Leão XIV foi incrível. Existe um grande entusiasmo em relação a ele, as pessoas ainda não acreditam que exista um papa americano e sentem uma forte ligação com ele. Mas muitas pessoas ainda não o conhecem e estão muito ansiosas por saber quem é e qual será a sua mensagem para a Igreja americana. Compreendem que tem uma forte ligação com o Peru, o que faz com que o apreciem pela sua experiência missionária e humildade, mas também sentem um certo “ciúme” por este afeto, no bom sentido, pois desejam estar perto dele e ouvir o que ele tem para dizer e fazer. No entanto, como o papa Leão XIV é americano, há também uma grande expectativa sobre a forma como se relacionará com o governo dos EUA, e tudo o que diga corre o risco de ser imediatamente politizado em excesso, como já vimos com os seus comentários sobre a imigração. Muitos americanos desejam um papa que concorde com a sua própria ideologia e querem reivindicar Leão XIV para o seu lado ou posição, o que também pode representar um grande desafio para ele no seu diálogo com a Igreja nos EUA.Leão XIV e Donald Trump: existe a possibilidade de um conflito entre o papa filho de Chicago e o presidente nova-iorquino?Muitos americanos, e até mesmo pessoas de outros países, estão curiosos para saber como irá interagir com Donald Trump. O papa Leão XIV já deixou claro que têm visões muito diferentes sobre a imigração, mas isso não é novidade e já era de esperar. Os ensinamentos da Igreja Católica, e especificamente a sua doutrina social, não estão facilmente alinhados com muitas políticas do governo dos EUA. O que é inevitável é que haverá divergências entre o papa Leão XIV e Donald Trump, mas Leão XIV também deixou claro, inclusive na nossa conversa, que não tem qualquer intenção de entrar em conflito. É alguém que deseja dialogar e que manterá sempre essa porta aberta. Defenderá a posição e os ensinamentos da Igreja, mas comunicará esta mensagem de forma respeitosa, procurando o envolvimento e o diálogo, e não de forma crítica ou que cause alienação.Leão XIV já realizou a primeira viagem, neste caso ao Líbano e à Turquia. E agora alguns países africanos, como Angola, e Espanha estão a ser anunciados. Prevost era um viajante. Teremos um papa peregrino?A resposta a esta pergunta é: teremos de ver! Até ao momento, este ano, já foram anunciadas várias viagens: ao Mónaco, uma longa viagem a África em abril e uma viagem a Espanha em junho. Continuam a circular rumores de que também visitará a América do Sul, incluindo o Peru, ainda este ano. Há também várias visitas que fará dentro de Itália. Com base nisso, bem como na sua agenda de viagens anterior, mesmo como superior geral da Ordem Agostiniana, sim, penso que podemos esperar um papa “em movimento!”Todos os papas desde Paulo VI visitaram Portugal. Fátima receberá uma atenção especial do papa?Acho que isso é inevitável. O papa Leão XIV tem uma forte devoção mariana e, como todos os seus antecessores, visitará certamente Fátima, e não creio que demore muito tempo a fazê-lo. O papa Francisco visitou Fátima por duas vezes, incluindo em 2023 para a Jornada Mundial da Juventude. Leão XIV também visitará Portugal, certamente, e é claro que visitará Fátima. É um lugar com uma grande história com os papas e uma relação única com o papado, dados os “segredos” e as profecias a eles associados, pelo que Leão XIV continuará certamente a prestar atenção a um lugar tão importante para o catolicismo e para a devoção popular..“Leão XIV vai pôr em prática algumas das intuições geniais do papa Francisco” ."O bom Papa é aquele que é eleito entre os seus pares cardeais, seja ele africano, asiático, americano ou europeu"