Primeira-dama do Brasil reforça aproximação aos evangélicos em busca de votos para Lula
A primeira-dama do Brasil, Rosângela (Janja) da Silva, reforçou a atuação do Partido dos Trabalhadores (PT) junto dos evangélicos, numa estratégia para reduzir a rejeição de Lula da Silva e conquistar votos destes eleitores nas eleições gerais.
A atuação da primeira-dama surge num momento em que o adversário de Lula, Flávio Bolsonaro, tem maior popularidade entre os evangélicos, segundo as sondagens de intenção de voto para as eleições de outubro.
“A primeira-dama, nos últimos anos, foi ouvir as mulheres evangélicas. Ela tem essa sensibilidade, e também essa coisa de combate ao feminicídio, ao assédio e violência contra as mulheres”, disse à Lusa o coordenador nacional interreligioso do PT, Gutierres Barbosa.
Uma sondagem Datafolha divulgada na sexta-feira passada mostra que Flávio Bolsonaro tem 62% de aceitação entre os evangélicos, enquanto Lula tem 29%.
Em julho, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro tinha 60%, contra 31% de Lula.
Neste contexto, Janja da Silva gravou um vídeo exibido para 200 pastores no lançamento do comité de campanha “Evangélicas e Evangélicos com Lula”, no qual associou a gestão do Presidente brasileiro ao respeito e à proteção dos fiéis do segmento religioso.
No vídeo, afirma que os valores da solidariedade e da igualdade que “sempre guiaram” a vida e as gestões de Lula da Silva “são importantes norteadores da fé cristã”.
Adiantou que “cuidar de um povo é cuidar daquilo que ele mais acredita”, citando feitos da gestão do PT, como a aprovação do Dia do Evangélico, do Dia Nacional da Marcha para Jesus e do Dia Nacional da Música Gospel.
A participação da primeira-dama na campanha do marido, especialmente na aproximação com os evangélicos, representa uma mudança de postura de Janja da Silva e do PT em relação à disputa eleitoral de 2022, quando esteve longe dos atos de Lula neste segmento.
Nessa eleição, Lula chegou a divulgar uma carta aberta aos evangélicos, após ser convencido por aliados de que era importante fazer um gesto de aproximação a estes.
Para Gutierres Barbosa, que é também vice-presidente da Igreja Batista Nazaré (Salvador, estado da Baía), Janja da Silva tem capacidade de dialogar e cativar as mulheres evangélicas por valores compartilhados de “preocupação com o Brasil”.
“Da simbologia das mulheres na família, do empoderamento feminino, (...) Janja dá vez e voz às mulheres. Então, as evangélicas também se veem na primeira-dama”, completou.
No primeiro ato de campanha de Lula, em 16 de agosto, Janja apareceu a cantar, ao lado de um pastor, uma música gospel cujo refrão enaltece a vida do político de esquerda.
O censo demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, revela que um a cada quatro brasileiros declararam-se evangélicos, o que representa 47,4 milhões de pessoas, ou seja, 26,9% dos brasileiros.
O número revela um crescimento três vezes maior comparado ao censo de 1991, quando os protestantes representavam 9% da população do país.
Gutierres Barbosa avalia que, até às eleições gerais de 2014, os protestantes votavam, na sua maioria, no PT, mas que o partido foi vítima do avanço do conservadorismo na última década.
Exemplos de afastamento dos evangélicos foram a destituição da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, e a prisão de Lula, em 2018, no curso das investigações Lava-Jato.
Para o dirigente, o PT mantém uma relação histórica com este segmento e tem mais de 500 mil evangélicos filiados, além de 500 vereadores entre os representantes do partido nas assembleias das cidades brasileiras.
“Temos uma relação com o público evangélico que não é de hoje. Não estamos fazendo um trabalho apenas eleitoral e não estamos preocupados com a eleição, em si. Estamos preocupados com o Brasil”, declarou.
Segundo Gutierres, os evangélicos alinhados com Lula terão papel fundamental para “combater desinformação, como essa de que o PT irá fechar igrejas” e que irá “privar os evangélicos de fazer cultos”.
“Quem assegura os direitos sociais para as famílias é o Presidente Lula”, disse Gutierres, numa crítica ao discurso “Deus, Pátria e Família”, slogan associado ao bolsonarismo.

