O Partido dos Trabalhadores (PT) divulgou na terça-feira, 9 de junho, uma carta aos evangélicos onde sublinhou que Lula da Silva, atual presidente da República e candidato do partido à reeleição, sempre teve “respeito e reconhecimento pelas igrejas” de fé protestante no Brasil. O documento surge após o senador Flávio Bolsonaro, o maior rival de Lula nas eleições de outubro, ter falado em “guerra espiritual” durante evento religioso. Em causa, o voto de 47 milhões de evangélicos brasileiros, cerca de 27% do eleitorado do país.A carta foi redigida no IV Encontro Nacional de Evangélicos do PT e destaca ações de Lula ligadas à liberdade religiosa como leis voltadas ao livre exercício dos cultos e à facilitação de criação de igrejas, o reconhecimento da música gospel como património cultural e a instituição de datas nacionais ligadas à fé cristã e ao combate à intolerância religiosa. “Os governos do PT nunca se opuseram às igrejas, sempre tiveram uma atitude de respeito e de reconhecimento da importância e do papel da igreja evangélica”, diz o texto.“Este compromisso não nasce do uso eleitoral da fé, pois compartilhamos do entendimento do próprio presidente de que ‘não se deve tirar proveito político de coisa sagrada’”, continua ainda o documento, citando frase de Lula para justificar a ausência na 34.ª Marcha Para Jesus, evento evangélico de dia 4 de junho, feriado do Corpo de Deus, que reuniu dois milhões de pessoas circulando ao longo do evento, segundo dados da prefeitura de São Paulo.Quem esteve no evento, organizado pelo apóstolo Estevam Hernandes e pela bispa Sônia Hernandes, apoiantes de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022, foi o atual pré-candidato e filho do ex-presidente Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL). Do trio elétrico, Flávio disse à multidão que o Brasil “vive uma guerra espiritual” e que “o mal vai ser expulso do governo”. “Vamos orar pelo nosso Brasil, essa guerra é espiritual e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso do governo este ano”, disse o senador, ladeado por Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, e Ricardo Nunes, prefeito da cidade, seus aliados. No início da marcha cantou o “Hino da Vitória”, da cantora gospel Cassiane, e no fim dela repetiu o slogan do pai “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”. Lula, mesmo não tendo participado na marcha, foi representado por Jorge Messias, ministro do governo. Messias, uma das raras lideranças evangélicas de esquerda, foi recentemente indicado pelo presidente a uma vaga no Supremo Tribunal Federal e, consequentemente, rejeitado pelo Senado, situação que não ocorria na república brasileira há mais de 100 anos. “Hoje é dia de louvar e adorar a Deus, as pessoas estão aqui buscando a palavra de Deus, não é dia de comício”, afirmou o ministro de Lula na Marcha Para Jesus. Mas a dada altura falou em “Judas”, numa altura em que o chefe de governo vem classificando os Bolsonaro de “traidores da pátria” por terem influenciado a administração de Donald Trump nos EUA a aumentar tarifas comerciais sobre empresas brasileiras. Em sondagem da Nexus/BTG Pactual de 26 de maio, Lula tinha 47% das intenções de voto e Flávio, 43%. Mas, entre católicos, que representam cerca de 50% da população e do eleitorado, o atual presidente subia para 51% ante 42% do filho de Bolsonaro, enquanto no segmento evangélico o candidato do PL chegava a 54% contra apenas 36% do candidato do PT. Nas eleições de 2022, pesquisas de opinião a um mês do sufrágio atribuíam 51% a Jair Bolsonaro e 27% a Lula entre evangélicos. Para explicar a diferença, especialistas lembram que a igreja católica brasileira tem ligações históricas a movimentos sociais de esquerda – nos últimos anos da ditadura militar, a corrente filosófica Teologia da Libertação teve influência na criação do próprio PT. Em paralelo, questões como aborto, direitos da comunidade LGBT e outros temas de comportamento caros à esquerda não costumam ser tão determinantes na hora do católico-médio votar. Já os evangélicos priorizam, assim como a direita em geral e o bolsonarismo em particular, esses temas de costumes.A Carta aos Evangélicos de Lula foi, entretanto, comparada a outra carta do líder de esquerda em 2002, às vésperas de vencer a primeira eleição presidencial, destinada aos empresários, o grupo que então mais temia a sua vitória. Nessa Carta aos Empresários, o então candidato comprometia-se a dialogar com todos os setores da economia, a reduzir a taxa de juros, a controlar a inflação, a ordenar as contas públicas e a retomar o crescimento, para descansar os representantes da alta finança. Agora, na Carta aos Evangélicos, o presidente em busca do quarto mandato termina a pedir para “que Deus abençoe o povo brasileiro”. “Que Ele fortaleça a nossa democracia, a nossa soberania, inspire nossas orações e ações em favor do próximo e nos conduza pelos caminhos da fé, da justiça, da paz, da esperança e do bem comum”. .Lula e anti-Lula