Lula e anti-Lula

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Lula da Silva participou em todas as nove eleições para presidente desde a redemocratização: saiu derrotado das primeiras três, uma vez para Collor de Mello e duas para Fernando Henrique Cardoso; venceu depois duas por conta própria e mais duas como padrinho de Dilma Rousseff; preso, perdeu a seguinte, quando se fez representar por Fernando Haddad, mas, já solto, ganhou a de há quatro anos e parece em boa posição para conquistar a de outubro.

Por isso, quer se queira quer não, no Brasil há desde 1989 dois partidos, duas correntes, duas ideologias, dois caminhos: o lulismo e o anti-lulismo.

O anti-lulismo foi exercido com sucesso, de 1994 a 2014, pelo PSDB, o partido de Cardoso, que bateu Lula, de José Serra, que perdeu, só na segunda volta, primeiro para o ex-sindicalista e depois para Dilma, de Geraldo Alckmin, derrotado pelo hoje presidente também à segunda, e de Aécio Neves, que quase superou a única mulher a chegar ao Planalto num emocionante taco a taco. 

Mas, sob Aécio, o PSDB, como outros partidos tradicionais, foi então ferido com gravidade na Operação Lava-Jato, de cujos escombros despontou um bizarro e medíocre deputado chamado Jair Bolsonaro como novo anti-Lula, a reboque de Donald Trump e outras tendências reacionárias internacionais e anabolizado por uma campanha online baseada em aldrabices.

Bolsonaro, portanto, emergiu porque 1) Lula existe e 2) a centro-direita tradicional foi alvejada pela Lava-Jato. O bolsonarismo precisa portanto que 1) o lulismo exista e 2) a centro-direita tradicional não se reerga da campa.

Essa é a razão porque Jair escolheu indicar o filho Flávio Bolsonaro e não Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, como candidato presidencial: o ex-presidente entendeu que Tarcísio, mais capacitado do que Flávio, corria o risco de… ganhar. E, com isso, tornar-se ele o próximo anti-Lula.

É a razão também para Carlos e Eduardo Bolsonaro, os irmãos de Flávio, investirem mais tempo e mais tweets contra Nikolas Ferreira, o jovem prodígio da extrema-direita, e até contra Michelle Bolsonaro, que mesmo transportando o apelido por matrimónio não é vista como confiável pelos descendentes de sangue do ex-capitão, do que contra a esquerda.       

É a razão, finalmente, para que, por mais que surjam áudios constrangedores de Flávio a pedir dinheiro ao atual corrupto-mor da república, Daniel Vorcaro, a quem visitou na prisão, a família insista até ao limite no primogénito até ao fim da corrida.

Porque para os Bolsonaro a prioridade não é tirar Lula do poder: é evitar que outra direita ocupe o posto de anti-Lula. 

É que a família sabe que, no dia em que a direita encontrar um anti-Lula alternativo, o ex-presidente e a prole voltam ao estatuto de bizarria medíocre do período pré-Lava-Jato.

Por isso, em outubro é imperativo para os Bolsonaro estar no boletim de voto, mesmo perdendo. E para 2030, o projeto é 1) concorrer outra vez, via Jair, Flávio ou Eduardo, e 2) rezar para que Deus conserve Lula de boa saúde. 

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