Flávio e Michelle nos melhores tempos da relação.
Flávio e Michelle nos melhores tempos da relação.DR

Michelle torna-se “mulher bomba” na campanha de Flávio Bolsonaro

Depois de guerra surda, ataque público da madrasta ao enteado e demissão dela do partido de ambos atormenta a candidatura do principal rival de Lula da Silva nas eleições de outubro.
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A candidatura de Flávio Bolsonaro, principal rival de Lula da Silva na corrida à presidência da República do Brasil, sofreu um golpe tão inesperado quanto poderoso nesta semana vindo da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro - ou Michelle Firmo, como os apoiantes mais férreos de Flávio passaram a tratá-la, usando o nome de solteira e omitindo o de casada. Num vídeo de 27 minutos, a madrasta do candidato afirmou que foi apunhalada por ele. E dias depois demitiu-se da liderança da ala feminina do Partido Liberal (PL), a formação a que ambos e Jair Bolsonaro pertencem.

“Ele [Flávio] foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone”, disse Michelle no vídeo em que recupera uma discussão de dezembro a propósito das candidaturas do PL no Ceará. Na ocasião, Michelle criticou a aliança da direção local do partido com o quatro vezes candidato presidencial Ciro Gomes, que quer concorrer em 2026 a governador daquele estado. “Fazer aliança com um homem que é contra o maior líder da direita [referindo-se ao marido] não dá, nós queremos pacificar, ter unidade e essa pessoa (...) continua a dizer que a nossa família é de ladrões, de bandidos, compara Bolsonaro a um ladrão de galinhas”, disse então a ex-primeira-dama do Brasil.

O discurso contradisse e indispôs à época André Fernandes, presidente do PL no Ceará, e Flávio saiu em defesa do líder cearense. “Michelle atropelou o presidente Bolsonaro (...) e a forma como se dirigiu [a André Fernandes] foi autoritária e constrangedora”, disse na altura, explicando que o objetivo no Ceará, com o aval do pai, era assinar um acordo pragmático com Ciro, uma vez que ambos têm Lula, com muita força na região, como rival comum.

No vídeo desta semana de Michelle, a ex-primeira dama disse que Flávio a mandou “ficar fora das decisões do partido”. “Ele disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política. Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante. E então me recolhi. Fiquei na minha e assim permaneço”.

Numa comunicação pensada ao detalhe, com símbolos religiosos ao lado, como a Estrela de David, e até uma caneta bic na mão, como o marido usava nas comunicações do Planalto ao país, Michelle revelou que queria “desmentir as narrativas que circulam na imprensa”, a propósito de notícias sobre a sua falta de empenho na campanha do enteado. “Eu sei quem as planta. Eu sei quem são as fontes. Eles me tratam como se eu fosse idiota, como se eu fosse alguém que chegou ontem, mas eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam”, disse a mulher de Jair Bolsonaro.

Flávio começou por não comentar o vídeo, argumentando que estava mais preocupado com o jogo do Brasil no Mundial de futebol do mesmo dia, mas acabou a pedir desculpas horas depois. “Em nenhum momento eu ofendi ou tive a intenção de ofender a Michelle. Se, em algum momento, fiz isso, mais uma vez peço desculpas”, afirmou em vídeo. “Tenho total convicção de que todos nós - eu, Michelle, a família inteira - temos o mesmo objetivo”.

Anunciada em seguida na imprensa uma reunião de Valdemar Costa Neto, o presidente do partido, com Michelle, pensou-se que o diferendo se resolveria. Mas o encontro resultou na demissão da ex-primeira dama da liderança do PL Mulher. “Após muito refletir com o meu marido sobre o momento que estamos vivendo na nossa família, reuni-me com o presidente do PL (...) e comuniquei-lhe a minha decisão de deixar a presidência do PL Mulher para me dedicar - integralmente - aos cuidados para com o meu marido e minha filha”.

“[Michelle] acaba atingindo dois dos principais ativos eleitorais do bolsonarismo: o eleitorado feminino e o segmento evangélico”, escreveu no G1 a jornalista Andréia Sadi, a propósito de um setor, os evangélicos, maioritariamente leais à extrema-direita, e a outro, as mulheres, que votam preferencialmente em Lula.

E, no meio da controvérsia, o bolsonarista Paulo Figueiredo, neto de João Batista Figueiredo, último presidente da ditadura militar, ainda disse que “mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras, as casadas costumam acompanhar o marido”. Dias depois, Flávio distanciou-se da opinião de Figueiredo, um bolsonarista radicado nos EUA que serve de braço direito de Eduardo Bolsonaro, outro filho do ex-presidente.

Para Sadi, a comunicação de Michelle demonstrou também que a ex-primeira-dama “mira voos mais altos em 2030 e não em 2026”, referindo-se a eventual candidatura presidencial dela daqui a quatro anos.

O atrito com Michelle é o segundo grande golpe na candidatura de Flávio, que chegou a ultrapassar Lula nas sondagens mas perdeu a vantagem após ser gravado a pedir dinheiro a Daniel Vorcaro, banqueiro preso por corrupção, para financiar filme sobre o pai. A própria Michelle partilhou nas redes sociais uma publicação enigmática de Anthony Garotinho em que o ex-governador do Rio de Janeiro revela festas de Vorcaro com “mulheres sem roupa e políticos que dizem defender a família”. “A verdade de Jesus Cristo vai prevalecer”, comentou a ex-primeira-dama na publicação.

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