Que eleições se realizam no próximo domingo, 24 de maio, em Chipre?No domingo, mais de meio milhão de cipriotas vão às urnas para eleger 56 membros da Câmara dos Representantes do país (Vouli Antiprosopon), depois da sua presidente, Annita Demetriou, a ter dissolvido no dia 23 de abril, respeitando o período obrigatório de 30 dias que antecede as eleições gerais.Em que contexto decorrem estas eleições parlamentares?Estas eleições que decorrem enquanto Chipre detém a presidência rotativa semestral do Conselho da União Europeia, que termina a 30 de junho, e numa altura em que a ilha está a ser afetada pelo conflito no Médio Oriente, devido à sua localização no Mediterrâneo Oriental.Qual é o nível de participação em termos de candidaturas?“Foram apresentadas um total de 753 candidaturas, aproximadamente mais 100 do que nas eleições parlamentares anteriores, das quais 744 dizem respeito a listas partidárias e nove a candidatos independentes”, anunciou o diretor da Comissão de Eleições, Elikkos Elia, a 7 de maio. Este responsável revelou ainda que este é um número recorde tanto em candidaturas como em combinações partidárias. “O maior número anterior que tivemos foi nas eleições parlamentares de 2021. Nessa altura, havia 15 listas partidárias, agora temos 19, e mais 102 candidatos do que em 2021”. De notar também que, segundo Elia, 529 candidatos, ou 70,3%, são homens, enquanto 224 (29,7%) são mulheres.O que se pode esperar desta votação?Para o jornalista cipriota Thanasis Photiou, num artigo publicado no KNews, estas eleições “serão o pleito que irá remodelar o mapa político de Chipre tal como o conhecemos há décadas”. “Com o voto a tornar-se cada vez menos ideológico e mais anti-sistema, o sistema partidário do país parece estar a sofrer uma profunda transformação, afastando-se da conhecida estrutura bipolar, onde o chamado ‘espaço central’ atuava como fiel da balança, em direção a algo completamente diferente: uma era política multicêntrica, marcada por personalidades e instável, caracterizada por novas forças, laços ideológicos frágeis e alianças fluidas”, acrescentou o diretor editorial das revistas do Grupo Phileleftheros.O que pode representar esta mudança do mapa político?Conforme nota Thanasis Photiou, parece estar a chegar ao fim a estrutura tradicional da política cipriota, construída em torno de dois partidos dominantes - a Aliança Democrática (DISY), de orientação democrata-cristã, e o Partido Progressista do Povo Trabalhador (AKEL), sucessor do Partido Comunista de Chipre -, que contam com as forças do centro - Partido Democrata (DIKO), Partido Socialista (EDEK), Verdes e Frente Democrática (DIPA) - para equilibrar as eleições presidenciais.Isso quer dizer que o DISY e o AKEL estão fora da corrida para a vitória no domingo?Não. O DISY, liderado desde 2023 por Annita Demetriou, a presidente da Câmara dos Representantes, está à frente na maioria das sondagens feitas desde o início do ano, com uma diferença em relação ao AKEL entre os 0,2 e os 4 pontos percentuais, apresentando uma percentagem entre os 20,8 e 24,5% das intenções de voto. Em quatro estudos de opinião, os dois partidos surgem empatados, e em três o AKEL aparece com vantagem. De notar que, nas eleições de 2021, o DISY saiu vencedor com 27,8% dos votos (17 deputados), seguido do AKEL, com 22,3% (14 eleitos).A que se deve então este prenúncio de mudança no panorama político cipriota?Por um lado, ao crescimento da Frente Popular Nacional (ELAM), partido de extrema-direita criado em 2011 e liderado por Christos Christou, que nas eleições de há cinco anos ficou em quarto lugar com 6,8% dos votos (4 deputados) e agora surge nas sondagens com a terceira maior fatia de intenções de voto, variando entre os 16,5 e os 12,9%, ou seja, tudo aponta que deverá duplicar a sua votação. Existem ainda estreantes, que irão contribuir para uma maior dispersão dos votos. Um deles é o Cidadãos para Chipre (ALMA, um movimento apartidário fundado em maio de 2025 por um antigo auditor-geral, Odysseas Michaelides, que, apesar de ter sido afastado do cargo devido a uma polémica, surge em quarto nas intenções de voto. Outro estreante é Feidias ‘Fidias’ Panagiotou, um YouTuber e influenciador de 25 anos que fundou o Democracia Direta (ADK) em outubro, depois de ter sido eleito eurodeputado como independente nas europeias de 2024 com 19,3% dos votos. Agora, as suas intenções de voto variam entre os 12,2 e os 5,9%. Estas eleições vão servir para escolher o primeiro-ministro?Não. O presidente da República, eleito por sufrágio universal para um mandato de cinco anos, também desempenha as funções de chefe do governo. O atual titular do cargo é Nikos Christodoulides, eleito em 2023 como independente, mas oriundo do DISY.Como funciona o sistema eleitoral do Chipre?Em julho de 1985, foi aprovada uma lei que fixa o número de lugares da Câmara de Representantes em 80: 56 (70%) eleitos por cipriotas gregos e 24 (30%) reservados à comunidade turca, mas como ainda não existe um acordo de paz para resolver a divisão da ilha, estes lugares continuam vagos e não serão preenchidos nas eleições do próximo domingo. Os eleitores podem optar por votar num único partido (classificando os candidatos desse partido por ordem de preferência) ou em candidatos de diferentes partidos..Chipre quer deixar uma União Europeia mais “autónoma e aberta ao mundo”.Vitória de moderado no lado turco abre porta a reconciliação em Chipre