Quantos eleitores franceses precisam voltar às urnas este domingo (22 de março) para a segunda volta das eleições municipais? Na primeira volta, no último domingo (15 de março), quase 96% das localidades francesas elegeram os seus representantes locais - na maioria dos casos os autarcas só enfrentavam um adversário ou até eram os únicos candidatos e conseguiram logo ter mais de 50% dos votos. Mas nos outros 4,4% (pouco mais de 1500 autarquias, a maioria com mais de cem mil habitantes) é preciso cerca de 26 milhões de eleitores voltarem às urnas para escolher os membros dos conselhos municipais, responsáveis depois pela eleição dos presidentes de câmara para os próximos seis anos.O que é que aconteceu na primeira volta?Ficou marcada por um desempenho positivo dos extremos. À esquerda, a França Insubmissa (LFI, na sigla em francês) conquistou Saint-Denis (a segunda maior comuna dentro da região de Paris) e conseguiu que 46% dos seus candidatos se qualificassem para a segunda volta. O partido de Jean-Luc Mélenchon falou num “aumento notável” de votos, apesar de atravessar um momento complicado, com controvérsias em torno da morte de um militante de extrema-direita em Lyon, atribuída a apoiantes da LFI, ou declarações polémicas do próprio Mélenchon. E na extrema-direita? O Reagrupamento Nacional (RN), que tradicionalmente não tem grande presença a nível local, conseguiu um bom desempenho em zonas rurais e em grandes cidades como Perpignan, Fréjus, Cagnes-sur-Mer e Marignane (todas no sul de França, que se apresenta cada vez mais como um feudo do partido). Outros cem candidatos do RN qualificaram-se para a segunda volta. Contudo, ficou claro que a formação de Marine Le Pen não tem força nos grandes centros urbanos no resto do país, o que poderá representar um desafio para as presidenciais de 2027. E os partidos ditos tradicionais?Os Republicanos e o Partido Socialista, normalmente os mais fortes a nível local, tiveram bons desempenhos na primeira volta. Os primeiros conquistaram 42 dos grandes municípios, entre eles Cannes, qualificando-se para a segunda volta noutros 82. Já os socialistas ganharam em 14 e qualificaram-se noutros 97, partindo à frente em Paris, Marselha ou Lille. Mas os socialistas foram surpreendidos pelo bom desempenho da LFI. O líder Olivier Faure rejeitou a ideia de um “acordo nacional” entre os dois partidos, tendo em vista a segunda volta, enquanto a LFI se mostrava disposta a fazê-lo para evitar a ameaça da direita e da extrema-direita. Três em cada quatro eleitores eram contra estas alianças à esquerda, que se confirmaram em algumas localidades. Que acordos são estes?As eleições municipais francesas têm uma particularidade. Caso um candidato não consiga mais de 50% dos votos na primeira volta, todos os que tiveram mais de 10% qualificam-se para a segunda. Isso significa que, em vez de um tradicional frente-a-frente, a segunda volta pode ser a três, quatro, cinco e até seis candidatos. Para evitar isso, os partidos procuram fazer acordos, juntando duas listas numa só, por exemplo, para evitar a divisão dos eleitores de um ou outro campo. Os candidatos também podem simplesmente desistir, apelando ao voto em adversários que considerem mais bem colocados. Houve muitos acordos?As alianças à esquerda ocorreram em localidades como Toulouse, Lyon, Nantes ou Brest, mas em Paris e Marselha os socialistas rejeitaram acordos com a LFI. Na capital, o socialista Emmanuel Grégoire (apoiado por ecologistas e comunistas) recusou a aliança com Sophia Chikirou, da esquerda radical, que continua para a segunda volta. A adversária conservadora, a ex-ministra Rachida Dati, chegou a acordo com Pierre-Yves Bournazel (do Horizontes, de centro), podendo beneficiar também da desistência de Sarah Knafo, do Reconquista (extrema-direita), que apelou a voto em Dati para derrotar a esquerda. À direita, os acordos com o RN são muito menos do que à esquerda, com a LFI. E o que é que tudo isto tem a ver com as presidenciais?A menos de um ano das presidenciais, esta ida às urnas não deixa de ser um termómetro para avaliar o sentimento dos eleitores. O presidente Emmanuel Macron, que não poderá voltar a candidatar-se em 2027, não se envolveu muito nestas eleições - o seu Renascimento não se saiu bem. No campo presidencial, o único destaque foi para Édouard Philippe, do Horizontes, pré-candidato ao Eliseu, que está bem colocado para voltar a ser eleito em Le Havre (a sua candidatura às presidenciais estará acabada se não ganhar). Depois do silêncio da primeira volta, Macron deixou alertas para a segunda volta contra os “acordos entre partidos políticos” e grupos “extremistas”, sublinhando “a importância de ninguém se esquecer de que os grupos extremistas continuam a ser perigosos para a República”. E lembrou a relevância de se manterem os princípios: “por um lado, não podemos esquecer os discursos e os atos de excesso, seja qual for a sua origem, e por outro lado, não podemos esquecer os princípios republicanos que são negados, seja qual for a sua origem”.Estas eleições dão algumas pistas para as presidenciais?A baixa taxa de participação (44% dos eleitores não foram às urnas) é um mau sinal para qualquer eleição. O bom desempenho dos extremos é outra lição que se pode tirar, mesmo se na capital o duelo é entre representantes dos partidos tradicionais. Muitos acreditam que é cada vez mais provável o cenário de duelo na segunda volta das presidenciais entre Mélenchon e Jordan Bardella, o líder do RN, caso se confirme a impossibilidade judicial de Le Pen ser candidata.