Kamala Harris passou o segundo dia consecutivo, na quarta-feira, a cortejar eleitores minoritários, especialmente latinos, enquanto novas sondagens mostravam que a democrata recebeu uma vantagem pós-debate sobre Donald Trump em dois dos Estados indecisos que provavelmente serão decisivos nas Presidenciais dos Estados Unidos - Pensilvânia e Michigan. Mas num potencial revés para a vice-presidente, o influente sindicato Teamsters, um dos maiores do país, anunciou que não apoiará ninguém em 2024. O sindicato que representa camionistas, trabalhadores de armazéns e pilotos aéreos apoiou os democratas em todas as presidenciais desde 2000 e esta é a primeira vez que não opta por um candidato desde 1996..“Infelizmente, nenhum dos principais candidatos foi capaz de assumir compromissos sérios com o nosso sindicato para garantir que os interesses dos trabalhadores sejam sempre colocados à frente dos das grandes empresas”, disse Sean O’Brien, presidente do Teamsters, que tem cerca de 1,3 milhões de membros nos Estados Unidos e Canadá. Uma consulta interna sobre as tendências de voto dos seus membros foi conhecida pouco antes deste anúncio, indicando que a maioria apoia Donald Trump em relação a Kamala Harris..Horas antes, no encontro com o Instituto do Grupo Hispânico do Congresso, a democrata tinha deixado claro o compromisso com os trabalhadores americanos. “Temos de colocar a classe operária em primeiro lugar, compreendendo os seus sonhos, os seus desejos e as suas ambições”, afirmou..A decisão deste poderoso sindicato é um sério revés para os esforços da campanha de Kamala Harris para conseguir os votos da classe operária, já que um apoio do Teamsters teria o poder de mobilizar milhares de membros que vivem em Estados cruciais como Pensilvânia, Michigan e Wisconsin, que fazem parte do chamado Rust Belt. .Mesmo assim, e depois de conhecida a decisão do sindicato a nível nacional, algumas delegações regionais representando mais de meio milhão de membros do Estados do Michigan, Wisconsin, Nevada, Califórnia e Hawai anunciaram que apoiam Kamala Harris. A democrata também já recebeu o apoio de outros grandes sindicatos, incluindo o United Auto Workers, com cerca de um milhão de membros num total de cerca de 600 sindicatos locais da indústria automóvel, e a AFL-CIO, a maior central sindical dos Estados Unidos, representando mais de 12 milhões de trabalhadores no ativo e reformados..Num comunicado, a campanha de Harris elogiou “o apoio da esmagadora maioria do trabalho organizado”, notando ainda que muitos sindicatos locais do Teamsters tinham decidido ficar ao lado da sua candidatura..Mas a verdade - e para grande desânimo dos democratas, que estão a ver fugir um grupo que tradicionalmente os apoiava - é que os eleitores da classe operária, os blue-collar, estão cada vez mais ao lado de Donald Trump, havendo sondagens que mostram que o republicano tem agora um apoio maior deste grupo em relação a há quatro anos..Na opinião de Mike Lux, um consultor político que participou na elaboração do relatório Cidades Industriais, o voto democrata no Rust Belt caiu principalmente em áreas com decréscimo de postos de trabalho na indústria e entre sindicalizados. Em declarações ao The Guardian, explicou que, desde que Franklin Roosevelt foi presidente, entre 1933 e 1945, os eleitores da classe operária viam o Partido Democrata como aquele que os iria proteger, mas muitos têm vindo a afastar-se nas últimas décadas, convencidos de que isso não está a acontecer. .Entre as razões para este sentimento está a normalização das relações comerciais com a China, que levou ao fecho de muitas fábricas nos EUA, e a ratificação do Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio, ambas operadas na Administração de Bill Clinton, e mais recentemente o apoio dado por Barack Obama a Wall Street na sequência da recessão de 2007-2009, dando a sensação de que não fez o mesmo pelos trabalhadores..Um outro fator que levou ao afastamento da classe operária dos democratas é o declínio no número de sindicalizados - de 35% de todos os trabalhadores norte-americanos nos anos 1950 para os atuais 10%..O livro Rust Belt Union Blues, lançado há um ano, foca-se precisamente na questão por que os eleitores da classe operária estão a afastar-se do Partido Democrata. Na obra é dito que esta realidade levou a que muitos centros de convívio de sindicatos fechassem tendo a classe operária passado a reunir-se muitas vezes em clubes de tiro, um ambiente propício para os apoiantes de Donald Trump..Outro fator para o afastamento em relação aos democratas é o facto de muitas estações de televisão locais estarem na mão de proprietários de direita, o que torna mais difícil que a mensagem do Partido Democrata chegue a estes eleitores. “As pessoas da classe operária contavam com os democratas. Eles eram o partido que estava ao lado da classe operária e sentiram-se traídos”, resumiu Ruy Teixeira, cientista político e coautor do livro Onde é Que Foram Todos os Democratas?, lançado em novembro, em declarações ao The Guardian..ana.meireles@dn.pt