A imprensa espanhola dava conta esta terça-feira (7 de abril) da polémica em França por causa da decisão de dar um prémio ao rei emérito Juan Carlos pelo seu livro de memórias Reconciliação (que escreveu junto com a escritora Laurence Debray e foi editado pela Planeta em Portugal).Mas a polémica parece só estar a ter repercussões em Espanha, onde até a porta-voz do Governo, Elma Saiz, foi questionada pelos jornalistas sobre este galardão, limitando-se a dizer que ele é “um cidadão livre”. Desde 1991 que a associação Lire la Société distingue o Livro Político do ano, numa cerimónia que se organiza na Assembleia Nacional francesa. O vencedor só será conhecido no evento no sábado (11 de abril) - há três finalistas -, mas o livro de Juan Carlos vai ser distinguido com um prémio especial do júri (é a terceira vez que é entregue). Em causa está “o papel chave” que desempenhou “na transição democrática” após o final da ditadura. .Segundo o jornal El País, a notícia apanhou de surpresa tanto a líder da Assembleia, Yaël Braun-Pivet (cuja residência oficial acolhe a cerimónia e o respetivo almoço), como os finalistas. “Parece estranho que uma figura tão controversa em Espanha vá agora receber uma homenagem na Assembleia Nacional, com a presença da presidente”, disse um deles ao jornal. O livro de memórias de Juan Carlos, que vive exilado em Abu Dhabi mas estará em Cascais, foi escrito em francês e publicado em novembro pela editora Stock. Só depois foi traduzido para espanhol. Numa entrevista ao DN, a coautora Laurence Debray (que também estará na cerimónia) disse que os franceses “adoraram e receberam muito bem o livro” enquanto em Espanha “muitos o criticaram” mesmo sem o ter lido..“Juan Carlos é uma espécie de rei da democracia e vê que ela está a desintegrar-se no mundo. Choca-o muito”.Juan Carlos fala, nas memórias, da transição democrática após a morte de Franco, mas também de como o respeitava e que não deixava que o criticassem à sua frente. Aborda ainda a relação com a família, nomeadamente com o herdeiro, Felipe VI, dizendo perceber que o filho tenha sido obrigado a cortar os laços para proteger a instituição. E admite o erro de ter recebido milhões de euros dos sauditas.O rei, que hoje tem 88 anos, abdicou em 2014, no meio de uma série de escândalos, mudando-se para Abu Dhabi em 2020. Regressa apenas ocasionalmente a Espanha, não estando autorizado a ficar no palácio, e já esteve noutras ocasiões em França, tendo até jantado com o presidente Emmanuel Macron. “Para nós, não importam as polémicas em Espanha. Temos as nossas regras. E o nosso assunto são os livros. Estamos a homenagear uma obra, uma parte da história da segunda metade do século XX. E convidamos sempre os laureados; não vamos abrir uma exceção”, disse ao El País a líder da associação Lire la Société, Luce Perrot.