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Partido da Barata: como um insulto se tornou numa ameaça para Modi na Índia

O movimento político satírico reúne jovens descontentes, havendo já quem o compare aos protestos da Geração Z que resultaram nas quedas dos governos no Nepal ou Bangladesh.
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O que começou como um insulto tornou-se num movimento de jovens que está a causar dores de cabeça ao primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. Depois de ter ouvido o presidente do Supremo Tribunal da Índia, Surya Kant, comparar os jovens que não conseguem emprego e acabam a queixar-se nas redes sociais a “baratas”, Abhijeet Dipke lançou a questão no X: “E se todas as baratas se juntassem?”

Estavam lançadas as bases do Cockroach Janta Party (ou Partido do Povo das Baratas), que em poucos dias conseguiu mais de um milhão de membros registados (e milhões de apoiantes).

“O que lhes foi lançado como um insulto, agora carregam com orgulho”, disse sobre esses membros, ao jornal The New York Times, o licenciado de 30 anos da Universidade de Boston que está por detrás deste partido satírico que se tornou viral na Internet.

E apesar de o presidente do Supremo já ter vindo a público esclarecer que, quando falou nas” baratas” se referia às pessoas com “diplomas falsos e fraudulentos” e não à juventude indiana em geral, isso não acalmou a situação.

“Onde é que as baratas existem? Existem num local que está podre. Então, está o sistema indiano tão podre que as baratas estão a sair em tão grande número? Temos que pensar nisso”, afirmou Dipke à Al-Jazeera.

Movimento foi criado por Abhijeet Dipke, de 30 anos, que perguntou nas redes sociais: "E se todas as baratas se juntassem?"
Movimento foi criado por Abhijeet Dipke, de 30 anos, que perguntou nas redes sociais: "E se todas as baratas se juntassem?"DR

“Há um sentimento subjacente entre eles [os jovens] de que o sistema político atual simplesmente não se preocupa com eles, seja o partido do governo ou a oposição”, acrescentou ao The New York Times.

Quase metade dos 1,4 mil milhões de indianos têm menos de 25 anos, segundo os dados das Nações Unidas. O desemprego na faixa etária dos 15 aos 29 anos está em cerca de 10% e a concorrência para conseguir um emprego é enorme - com muitos jovens, mesmo com cursos superiores, a acabarem a trabalhar nas entregas em várias plataformas.

A juntar-se a isso, problemas nos exames põem em causa a avaliação de milhões de alunos, que podem ter que ser obrigados a repetir os testes. Isso deixa o ministro da Educação Dharmendra Pradhan na mira dos jovens, com Dipke, que vive nos EUA, a anunciar que vai voltar à Índia no próximo dia 6 para liderar um protesto a pedir a sua demissão.

No Nepal ou no Bangladesh, protestos dos jovens da chamada Geração Z terminaram em revoltas que fizeram cair governos. “Deixe-me ser absolutamente claro. Não insultem nem subestimem a Geração Z da Índia, fazendo tais comparações”, escreveu Dipke no X.

“Os jovens deste país são muito mais maduros, conscientes e politicamente empenhados do que muitos lhes atribuem crédito. Compreendem os seus direitos constitucionais e manifestarão a sua discordância por meios pacíficos e democráticos”, referiu. “Muitos destes jovens são muito mais instruídos e informados do que aqueles que atualmente governam o país”, concluiu.

Mas depois de conseguir mais de 25 milhões de seguidores no Instagram (mais do dobro dos que seguem a conta oficial do partido de Modi), o movimento revelou estar a ser alvo de ameaças e repressão. Tanto as contas de Instagram do partido como a pessoal de Dipke foram alvo de pirataria, a conta de X foi apagada, sendo necessário criar uma nova, e até o site (criado com Inteligência Artificial) foi abaixo.

“O Governo indiano declarou-me uma ameaça à segurança nacional”, disse à Reuters. Segundo a lei indiana, isso obrigaria as empresas de redes sociais a fechar as contas. “Estão a tentar difamar-me. Mas democraticamente, dentro dos nossos direitos constitucionais, faremos o que for necessário”, referiu.

Dipke pode ter começado o partido como uma piada, mas quer aproveitar a oportunidade para transformar o movimento num ponto de encontro dos jovens e garantir que têm uma voz.

O manifesto tem cinco pontos: defende o direito de voto, a representação feminina nos órgãos de poder (50%), a independência dos media, que nenhum presidente do Supremo tenha direito a um lugar na câmara alta do parlamento após a reforma e dificultar a carreira a deputados que mudem de partido.

Esta não é a primeira vez que Dipke, que estudou Relações Públicas, se envolve na política, tendo trabalhado antes de ir para os EUA com o Partido Aam Aadmi, que nasceu há mais de uma década de um movimento anticorrupção (mas se viu também ensombrado por esse problema).

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