Paris, terceiro dia depois de Charlie

Nas imediações do supermercado HyperCasher um homem tenta arrancar o véu a uma jovem muçulmana. Os assassinos estão mortos, parece. Mas não o medo que cria o ódio que cria o medo que.
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"C"est a cause de ça" ("É por causa disso "). Foi, conta Majoie, 24 anos, o que "um velho" lhe disse, tentando arrancar-lhe o véu que traz bem apertado, negro como o resto da indumentária. "Isto foi porquê? Porque é que ele me agrediu assim?", grita, em lágrimas, atraindo a atenção de jornalistas e curiosos que se juntam na barreira de polícia a 200 metros do minimercado judaico onde um homem se barricou com reféns. "Porque é que está aqui tanta polícia e nenhum me vem perguntar o que se passou e se quero fazer queixa?"

E chama os agentes em traje de combate, tão negro como o dela, que a olham a uns oito metros: "Alô?" Estes não mexem. Uma das jornalistas que acorreu para ver o que se passa tenta acalmá-la: "Não te rales com a polícia, estamos todos aqui para te apoiar"; um negro de meia idade põe-lhe as mãos nos ombros e diz, docemente: "Vá, não fiques assim, por favor." Não me toque, responde, ríspida, Majoie, que se afasta com a mãe.

São perto de quatro da tarde e o sequestro no minimercado Kosher dura há cerca de três horas. A enorme Cours de Vincennes é uma fila indiana de carrinhas de polícia a perder de vista, atravessada periodicamente por carros e motos policiais a grande velocidade, sirenes e pirilampos ligados.

Falta pouco mais de uma hora para que quatro explosões sinalizem o ataque da polícia ao minimercado. Ejera Ikhlec, 45 anos, muçulmana como Majoie, como Majoie moradora na zona (12º bairro, perto do 20º, de maioria muçulmana) mas ao contrário dela sem véu, está sentada num banco de pedra com uma amiga, a assistir. “Foi o meu filho, que anda nesta escola aqui [aponta para um liceu do outro lado da rua] que me ligou a dizer que se passava qualquer coisa, que havia muitos tiros.” Com quatro filhos, de 19, 17, 14 e 12 anos, Ejera diz ter formação de jurista mas de momento está em casa, de mãe. Nascida em França de pais magrebinos, afirma-se, com orgulho, “muçulmana praticante” e adepta “da liberdade de expressão.”

“Estes”, e aponta com o queixo na direção do minimercado, “não são muçulmanos, são bárbaros.” Dos filhos, só o mais velho seguiu a religião da mãe; a de 17 não é religiosa e os outros são ainda demasiado novos para se saber. Mas o rapaz de 19, garante, “está furioso.” Furioso? “Com isto que se está a passar. Não queremos ser confundidos com isto. Não temos nada a ver. E não queremos ter medo.” 

Rehda, 20 anos, podia ser o filho de Ejera. Faz parte de um grupo de três rapazes muçulmanos que seguem a mãe de Majoie enquanto esta percorre o ajuntamento à procura do homem que tentou arrancar o véu à filha. Para quê? “Sinto-me agredida. Estas coisas não podem acontecer.” Queria identificá-lo para se queixar à polícia? “A polícia já tem bastante que fazer, não vamos arranjar-lhe mais problemas”, responde, desaparecendo na multidão.

Rehda e os amigos, porém, ficam a conversar. “Que penso disto? Que dá má imagem de nós.” De nós quem? “Os árabes. Que raio é isto, matar pessoas porque desenharam o profeta? A verdade não é o islão. E isto que se está a passar não tem nada a ver com o islão. O que se passa é criminalidade. Estes tipos não são mártires, são criminosos. Mas fazem-nos ficar mal vistos. E agora há ataques às mesquitas, já viu? Onde é que alguma vez os muçulmanos atacaram uma igreja em França? São estes tipos que cometem crimes, vão bater-se com eles, as mesquitas não têm nada com isso.”

O facto de o minimercado ali em frente ser judeu não parece ser relevante para Rehda, que prossegue: “O Islão não pode ser associado a matar pessoas. Não digo estas coisas porque me saem da cabeça. Li no Corão. Está lá que não temos o direito de tirar a vida a ninguém. Mas agora para os franceses somos todos terroristas. De há dois dias para cá, então, sinto uns olhares mesmo esquisitos. É muito duro ser muçulmano em França.”

Filho de um egípcio e de uma marroquina, Rehda sente-se em terra de ninguém: “Não sou bem-vindo aqui nem em Marrocos. Não me sinto querido em lado nenhum.” Mas, apesar de reclamar a sua cidadania francesa, confessa nunca votar. “Seja Hollande ou Sarkozy, é a mesma coisa. Que fez Hollande? Legalizou o casamento homossexual. Que me interessa isso, se não sou homossexual?” E se Marine Le Pen e a Frente Nacional ganharem as eleições, também é igual? Parece que sim: “Acho que isso é blá-blá-blá.” À despedida, avança com o que lhe parece o argumento definitivo: “Como podem dizer que os assassinos são muçulmanos? Se fossem, teriam matado o polícia muçulmano à saída do Charlie Hebdo?”

Tivesse ouvido a pergunta final de Rehda e Christine Henneguire, 50 anos, professora de literatura francesa, teria ido aos arames. Chega por volta das seis e meia, quando cai a noite e as autoridades, depois de terem matado o sequestrador e libertado os reféns, deixaram de pedir às pessoas para ficarem em casa. Na Cours de Vincennes, forma-se uma pequena multidão que troca informações, tira fotografias, observa o trabalho dos jornalistas de TV. Christine, que cita Voltaire -- “Tremer como um filósofo” -- porque os cartoonistas do Charlie Hebdo eram “voltairianos” e porque “é normal ter medo, é bom e natural ter medo, é sinal de inteligência (os terroristas não têm medo) mas é preciso ousar dizer que não temos”, gostaria que “eles” tivessem sido apanhados vivos, para serem julgados, confrontados com as famílias das vítimas, e se tentar perceber se agiram sós ou tiveram ajuda. “Mas é melhor que tenham morrido eles que os reféns”, conclui, antes de saber que afinal houve reféns mortos (três).

Christine, que se apresenta como laica, militante da liberdade e se adivinha de esquerda, frisa que, a seu ver, “os muçulmanos são tão racionais como as outras pessoas”, e “os imãs, inclusive, foram claros na condenação do atentado. Temos de evitar a armadilha da islamofobia e do ódio, fazer das Marine Le Pen um detalhe na história”. Mas o tom muda quando ouve o episódio de Majoie. “Isso é uma provocação.” Isso o quê? “Para quê vir para aqui de véu com isto a suceder? E, peço desculpa, não está ao mesmo nível, os reféns mortos e essa rapariga a quem deitaram a mão ao véu, a pobre. A vítima não é ela, são as pessoas que foram mortas. Estou farta desse discurso de uma certa imprensa que dizia que o Charlie Hebdo era muito agressivo com os muçulmanos. É um discurso que também tem a sua responsabilidade no que se passou.” Voltaire tinha razão: tremer não é estúpido.   

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