O Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) avisou os navios na região de que o bloqueio ao estreito de Ormuz, anunciado na véspera pelo presidente Donald Trump, se aplica aos navios de qualquer bandeira tendo como origem ou destino os portos iranianos. Teerão denunciou o que considera um ato de “pirataria” e trocou ameaças com o presidente norte-americano. No entanto, o cessar-fogo “mantém-se”, reiterou o primeiro-ministro paquistanês, com Islamabad a expressar algum otimismo quanto a futuras negociações depois da ocorrida no domingo entre o vice-presidente dos EUA e o presidente do Parlamento do Irão.O organismo britânico gestor do tráfico marítimo UKMTO informou que o bloqueio dos EUA se aplica a navios em “qualquer localização no golfo Pérsico, no golfo de Omã e no mar Arábico a leste do estreito de Ormuz”, de qualquer bandeira. Estão isentos os navios com rotas sem relação com os portos do Irão, mas os capitães foram avisados de que podem “deparar-se com presença militar, comunicações ou procedimentos de direito de visita durante a passagem”, ou seja, a inspeções. Segundo uma fonte citada pelo Wall Street Journal, foram destacados para a região 15 navios de guerra, incluindo um porta-aviões, vários contratorpedeiros e um navio de assalto anfíbio. Apoiados por helicópteros, podem iniciar operações de abordagem aos navios que desafiem o bloqueio. Na sua rede social, Donald Trump disse que as suas forças deixaram “completamente aniquilada” a Marinha iraniana, à exceção dos seus “navios de ataque rápido”, segundo o próprio porque não os consideraram “uma ameaça séria”. Mas agora ameaçou com a destruição de qualquer destes navios caso estes se aproximem “sequer um pouco” do bloqueio, empregando o “mesmo sistema de neutralização” usado nas Caraíbas nos meses que antecederam a operação contra Nicolás Maduro..Trump diz que EUA vão bloquear Estreito de Ormuz após negociações falharem.Teerão também teceu as suas ameaças. “O Irão, que exerce um controlo total sobre o estreito, não tolerará qualquer interferência ou agressão por parte dos Estados Unidos ou de outras forças estrangeiras”, disse o porta-voz do Ministério da Defesa Reza Talaei-Nik. Já o porta-voz do quartel-general central, depois de classificar as restrições impostas pelos Estados Unidos ao trânsito marítimo em águas internacionais como ilegais e equivalentes a atos de pirataria, advertiu: “Se a segurança dos portos da República Islâmica do Irão for ameaçada, nenhum porto no golfo Pérsico ou no mar de Omã permanecerá seguro”, disse Ebrahim Zolfaqari.A jogada de Trump, anunciada após o lado iraniano não ter cedido em abdicar do programa nuclear, confundiu muitos. O presidente dos EUA tem mantido uma aparente incoerência sobre o estreito de Ormuz, ora menosprezando a sua importância para si e para o seu país, ora ameaçando pôr fim à “civilização inteira” do Irão se não permitisse a passagem de navios. “Não entendo como o bloqueio do estreito vai de alguma forma obrigar os iranianos a abri-lo”, comentou à CNN o senador democrata Mark Warner, da Comissão dos Serviços de Informações do Senado. O racional é impedir o Irão, já em dificuldades económicas, de obter receitas e forçar os seus líderes a voltarem à mesa das negociações em posição enfraquecida.“À medida que as exportações de petróleo do Irão entram em colapso, não haverá dinheiro para importações, pelo que a atividade implode, a moeda entra numa espiral de desvalorização e decorre uma hiperinflação”, augura Robin Brooks, do centro de reflexão Brookings Institution, citado pela The Economist. “Não há dúvida de que isto levará os ayatollahs à mesa de negociações de boa-fé.” Tendo em conta que o país sobreviveu a anos de sanções económicas e agora a duas campanhas de bombardeamentos, nem toda a gente concorda com esta linha de pensamento, até porque, como aponta o diretor da publicação militar britânica RUSI Journal, Kevin Rowlands, a ação imposta por Trump é por natureza de longo prazo. “Não se faz um bloqueio durante uma semana.” Para Ali Vaez, especialista no Irão do International Crisis Group, “o cenário mais provável não é uma guerra imediata, mas um período volátil de pressão, envio de sinais e tentativas de última hora de evitar uma conflagração mais ampla”, disse à Associated Press. À exceção do israelita Benjamin Netanyahu, nenhum outro líder apoiou publicamente a iniciativa de Trump. Pelo contrário, houve apelos, da UE à China, para que se restabeleça um “tráfico sem entraves”. O secretário-geral da Organização Marítima Internacional (OMI), Arsenio Domínguez, realçou que nenhum país tem o direito de proibir o direito de passagem inofensiva ou a liberdade de navegação nos estreitos internacionais utilizados para o trânsito internacional. E para que tal aconteça, o presidente francês Emmanuel Macron anunciou a realização, nos próximos dias, de uma conferência anglo-francesa para a formação de uma missão multinacional e pacífica para restaurar a liberdade de navegação.Execuções em número recorde As autoridades iranianas executaram pelo menos 1639 pessoas em 2025, um recorde desde 1989, segundo o relatório anual conjunto da organização norueguesa Iran Human Rights (IHR) e da Ensemble Contre la Peine de Mort (ECPM), sediada em Paris. Desde 2008, o regime iraniano tirou a vida a 11.196 condenados à pena capital. A repressão aos opositores políticos acentuou-se já este ano, durante as manifestações, e as condenações e execuções têm prosseguido. Em meados de janeiro, o presidente dos Estados Unidos disse que os “assassínios” tinham parado, dias depois de ter prometido ajudar os manifestantes. Um tema que Donald Trump deixou cair. Aquelas duas organizações não governamentais apelaram para que a questão da pena de morte seja incluída nas negociações com Teerão.