É com a frase “A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos” que começa a primeira encíclica de Leão XIV. No texto intitulado Magnifica Humanitas, o papa alerta para os perigos da Inteligência Artificial (IA), partilhando uma visão apocalíptica de um mundo definido pela ganância, imoralidade e falta de respeito pela vida humana.Segundo a Bíblia, depois do Dilúvio, falando a mesma língua, os Homens chegam à terra de Sinar. Aí, acordam construir uma torre alta o suficiente para chegar ao céu. Mas Deus decide confundir as línguas para que não se entendam e espalha-os pelo mundo.Com o subtítulo “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”, a encíclica foca-se num dos grandes desafios do século XXI - a IA. Dividida em cinco capítulos, Magnifica Humanitas parte de um pressuposto: a tecnologia não é uma “força antagónica em relação à pessoa”, nem “um mal em si mesma”. Mas deixa o alerta: “não é neutra, pois assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”. Daí o apelo do papa para “construir o bem” e “permanecer humanos”.Muita aguardada desde a eleição de Robert Prevost como papa, há pouco mais de um ano, a primeira encíclica de Leão XIV denuncia a “cultura do poder” que impulsiona a corrida à IA, especialmente no desenvolvimento de métodos cada vez mais sofisticados de guerra remota. No texto, o papa americano disse ser “inadmissível” confiar decisões irreversíveis e letais a sistemas de IA, criando mais um ponto de discórdia com a administração de Donald Trump, que tem trabalhado para desregulamentar o desenvolvimento da IA. IA essa que se encontra no centro da corrida entre EUA e China pela supremacia neste sector chave.“A IA exige agora ser desarmada, libertada das lógicas que a transformam num instrumento de dominação, exclusão e morte”, disse o papa na apresentação no Vaticano da encíclica, um dos mais importantes documentos pontifícios emitidos pelo papa. Na Magnifica Humanitas, Leão XIV afirma que as inovações tecnológicas não são neutras, podendo “aumentar a participação e a justiça”, mas também “ampliar as desigualdades, o controlo e a exclusão”, alertando para o perigo da IA “se concentrar nas mãos de poucos”.O papa lamenta o crescimento da indústria bélica, a corrida às armas nucleares e o surgimento de novos atores armados - entre os quais os jihadistas - que visam perpetuar os conflitos como fonte de poder e de renda. E deixa o alerta contra o uso de armas ligadas à IA, pois “não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”.Leão XIV apela a “uma ordem social justa na era digital”, com um “quadro jurídico adequado”, “regras justas” e “mecanismos de proteção eficazes”. Alertando para “usos claramente anti-humanos” da IA, “como a manipulação da informação ou a violação da privacidade”, chama também a atenção para um engano mais subtil, quando os sistemas, “apresentando-se como neutros e objetivos, refletem e reforçam estereótipos ou posições ideológicas daqueles que os projetaram e programaram”.Numa clara alusão ao estado atual do mundo, o papa afirma de forma muito clara que “a promoção do bem comum nunca pode ser separada do respeito ao direito dos povos de existir, de preservar sua identidade e de contribuir com sua originalidade para a família das nações”. Consequentemente, “qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, portanto, inaceitável”.Neste mundo dominado pela tecnologia, o papa americano destacou a justiça social, relembrando que na era digital, ela deve garantir a todos um acesso equitativo às oportunidades, proteger os mais vulneráveis, combater o ódio e a desinformação e submeter o uso das tecnologias ao controle público. Leão XIV aponta os migrantes como um “teste decisivo” nesse campo: a maneira como a sociedade os trata demonstra “se a ideia de justiça é guiada pelo medo ou pela fraternidade”.E garante que a IA gera novas formas de escravidão, como a dos “corpos marcados, mutilados, consumidos” daqueles que trabalham na extração das “terras raras” necessárias à tecnologia. E a luta contra as novas formas de escravidão é outro “teste decisivo para o discernimento ético” da transformação digital.No terceiro capítulo - “Técnica e domínio. A grandeza da pessoa humana diante das promessas da IA” -, o papa destaca a necessidade de um código ético submetido a critérios de justiça social compartilhada, pois “não serve uma IA mais moral se essa moral for decidida por poucos.”A primeira encíclica de Leão XIV coincide com os 135 anos da Rerum Novarum (Sobre as Coisas Novas), o documento doutrinal mais importante do seu inspirador e homónimo, o papa Leão XIII. Esta abordava os direitos dos trabalhadores, os limites do capitalismo e as obrigações de Estados e empregadores, em plena Revolução Industrial. Magnifica Humanitas foi elogiada pelo co-fundador da empresa de IA Anthropic, Christopher Olah, segundo o qual “precisamos de vozes éticas que os incentivos não consigam corromper”, e por Paolo Carozza, presidente do Conselho de Supervisão da Meta. “Estou convencido de que este documento irá revelar-se determinante para a nossa época”, disse à AP o também professor de Direito na Faculdade de Direito de Notre Dame..”Quando vi Prevost já papa fiquei paralisada. E ele disse: ‘continuo o mesmo’. Disse-o com o sorriso de sempre”