“Quem tem armas nas mãos, que as deponha!", apela o papa na sua primeira missa pascal
EPA / RICCARDO ANTIMIANI

“Quem tem armas nas mãos, que as deponha!", apela o papa na sua primeira missa pascal

Na sua mensagem Urbi et Orbi, na praça de São Pedro, no Vaticano, Leão XIV criticou aqueles que "travam guerras, abusam dos mais fracos e dão prioridade aos lucros".
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Lembrando que a Páscoa é “uma vitória da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas, do amor sobre o ódio”, o papa aproveitou a sua primeira missa pascal para deixar uma mensagem de paz. “Quem tem armas nas mãos, que as deponha! Quem tem o poder de desencadear guerras, que opte pela paz! Não uma paz conseguida com a força, mas com o diálogo! Não com a vontade de dominar o outro, mas de o encontrar!”, exclamou Leão XIV na sua mensagem Urbi et Orbi (à Cidade e ao Mundo), dirigindo-se à multidão que enchia uma praça de São Pedro, no Vaticano, engalanada com flores brancas, roxas e amarelas.

A partir da varanda da Basílica de São Pedro, ela também decorada de rosas brancas e outras flores, Leão XIV pode nunca ter dito o nome de qualquer país - quebrando a tradição das mensagens pascais dos seus antecessores - mas admitiu que nos habituamos “à violência, resignamo-nos a ela e tornamo-nos indiferentes. Indiferentes à morte de milhares de pessoas. Indiferentes às repercussões de ódio e divisão que os conflitos semeiam. Indiferentes às consequências económicas e sociais que produzem e que todos sentimos”.

Há, disse ainda, uma “globalização da indiferença” cada vez mais acentuada, retomando uma expressão querida ao papa Francisco. Citando o seu antecessor, Leão XIV alertou contra “a injustiça persistente, o mal, a indiferença e a crueldade”, mas deixou um sinal de esperança ao garantir: “também é verdade que, no meio das trevas, algo de novo surge sempre à vida e, mais cedo ou mais tarde, dá frutos”.

Para os cristãos, a Páscoa é a data mais importante do calendário litúrgico, assinalando a ressurreição de Cristo - um princípio fundamental da fé.

Há um ano, a missa pascal foi a última aparição pública do papa Francisco. O argentino morreu na manhã seguinte.

Ontem, Robert Francis Prevost, que a 8 de maio de 2025 se tornou no primeiro papa americano, convidou ainda todos a unirem-se a ele numa vigília de oração pela paz, na Basílica de São Pedro, no próximo sábado, 11 de abril. “A paz que Jesus nos entrega não é aquela que se limita a calar as armas, mas aquela que toca e transforma o coração de cada um de nós! Convertamo-nos à paz de Cristo! Façamos ouvir o grito de paz que brota do coração!”, afirmou.

Por fim, Leão XIV, como fez na sua mensagem de Natal, pronunciou as saudações pascais em dez idiomas: italiano, francês, inglês, alemão, espanhol, português, polaco, árabe, chinês e latim. Em português desejou “Feliz Páscoa! Levai a todos a alegria do Senhor Ressuscitado e presente entre nós.” E terminou com um passeio de Papamóvel pelo meio da multidão, saudando os fiéis e dando a sua bênção a adultos e muitas crianças que ali se reuniram num dia de muito sol.

Antes disso, na homilia, o papa apelara aos fiéis para que mantenham a “canção da esperança” perante “a violência das guerras” que assolam o mundo. Falando a partir de um altar ao ar livre montado na Praça de São Pedro, o papa deixou o seu diagnóstico: “Vemo-lo na violência, nas feridas do mundo, no grito de dor que se eleva de todos os cantos devido aos abusos que esmagam os mais fracos entre nós, devido à idolatria do lucro que saqueia os recursos da terra, devido à violência da guerra que mata e destrói.”

Primeiro papa a carregar a cruz durante toda a Via Sacra desde 1994

Na sexta-feira à noite, o papa - que aos 70 anos apresenta uma excelente forma física que mantém ao praticar ténis e natação - carregou a cruz durante toda a Via Sacra. Com 1,5 metros de altura, a cruz de madeira pesaria entre 15 e 25 kg, segundo a revista ComunitáItaliana. A cerimónia, que marcou a celebração da Sexta-feira Santa, reuniu milhares de pessoas em torno do Coliseu, em Roma. O último pontífice a carregar a cruz durante as 14 estações do percurso fora João Paulo II em 1994. O papa polaco, fê-lo desde que foi eleito, em 1979, com apenas 58 anos, até uma operação à anca o deixar debilitado. Nessa altura, passou a carregar apenas em parte do percurso.

Durante os dois primeiros anos como papa, Bento XVI carregou a cruz na primeira estação dentro do Coliseu de Roma, seguindo depois outros portadores na procissão que termina numa plataforma no Monte Palatino.

Por sua vez, o papa Francisco nunca carregou a cruz durante o seu pontificado, mas participou da procissão até à altura em que a sua saúde se deteriorou.

Na sexta-feira, no final da Via Sacra - que comemora as últimas horas da vida de Jesus, desde a sua condenação à morte ao momento em que carregou a cruz, a sua crucificação, morte e sepultura - Leão XIV terá recitado uma oração de São Francisco de Assis, antes de conceder a sua bênção, regressando depois ao Vaticano sem acrescentar mais palavras.

Segundo a agência Ecclesia, a tradição cristã no Coliseu remonta a 1750, tendo sido promovida pelo Papa Bento XIV, “que consagrou o anfiteatro à memória dos mártires e da Paixão de Jesus”. Foi o papa João XXIII quem restaurou este rito em 1959, estabelecendo um percurso mantido pelos sucessivos pontífices através do Anfiteatro Flaviano, dos Fóruns Imperiais e do Arco de Constantino.

O papa tem sido vocal nos apelos ao fim da guerra na Ucrânia e também no Médio Oriente, mesmo se desta vez não os referiu diretamente. Este último conflito teve impacto nas tradicionais cerimónias na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, venerada pelos cristãos como o local da crucificação e ressurreição de Cristo, tendo sido reduzidas ao abrigo de um acordo com a polícia israelita. As autoridades impuseram limites ao número de participantes em reuniões públicas devido aos ataques com mísseis que se têm multiplicado nas últimas semanas, desde o início dos ataques de Israel e dos EUA contra o Irão, a 28 de fevereiro.

As celebrações da Páscoa começaram este ano logo por ser marcadas pela proibição pela polícia israelita do cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, celebrar a missa do Domingo de Ramos na basílica do Santo Sepulcro. A situação gerou forte contestação internacional e obrigou o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, a recuar e a dizer que o cardeal podia entrar na basílica, numa altura em que a mesquita Al-Aqsa, também em Jerusalém, continua com todos os acessos vedados por Israel há mais de um mês. As restrições também afetaram, portanto, o mês sagrado muçulmano do Ramadão e o feriado do Eid al-Fitr, bem como o atual festival judaico da Páscoa, com duração de uma semana.

Ontem, a bênção sacerdotal judaica no Muro das Lamentações, que junta habitualmente dezenas de milhares de fiéis, ficou limitada a apenas 50 pessoas também por razões de segurança.

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