Estão a ser retirados civis dos dois lados da fronteira.
Estão a ser retirados civis dos dois lados da fronteira.AFP / GOVERNMENT OF KURSK REGION

Ofensiva surpresa de Kiev obriga Moscovo a enviar reforços para Kursk

Analistas apontam que incursão ucraniana mostrou fraquezas da Rússia, mas também serve para mostrar aos aliados mais tímidos em termos de ajuda militar de que é possível vencer esta guerra.
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Ao quarto dia da ofensiva surpresa ucraniana, Moscovo declarou esta sexta-feira o estado de emergência federal na região fronteiriça de Kursk e anunciou o envio para a zona de reforços, de forma a responder ao ataque de Kiev, classificado como o mais significativo em solo russo desde a invasão em fevereiro de 2022. Já a Ucrânia expandiu a sua zona de evacuação em Sumy, do outro lado da fronteira de Kursk, referindo que cerca de 20 mil pessoas teriam de ser retiradas.

O Ministério da Defesa da Rússia adiantou que ia enviar colunas de equipamento militar, incluindo lançadores de foguetes, artilharia, tanques e camiões pesados para reforçar as suas defesas na região. Moscovo reforçou também a segurança da central nuclear de Kursk, tendo a Agência Internacional de Energia Atómica dito ontem não ver motivos de preocupação relativamente à segurança das instalações. Cerca de mil soldados ucranianos e mais de duas dúzias de veículos blindados e tanques estiveram envolvidos no ataque inicial, segundo estimativas da Rússia. 

Kiev ainda não assumiu oficialmente a responsabilidade desta incursão, mas Volodymyr Zelensky afirmou na quinta-feira que a Rússia precisava “sentir” as consequências da sua invasão. De acordo último relatório do Instituto para o Estudo da Guerra, e tendo por base vídeos e fotos geolocalizados, unidades ucranianas penetraram muito mais no território russo num “rápido avanço”. “As forças ucranianas estão alegadamente presentes em áreas até 35 quilómetros da fronteira internacional”, afirmou o ISW na sua avaliação diária, advertindo que as suas tropas “certamente não controlam” toda aquela área.

A ofensiva na região de Kursk pareceu apanhar a Rússia desprevenida, com alguns analistas a sugerirem que Kiev esperava desviar recursos e aliviar a pressão sobre partes da linha da frente onde Moscovo está a avançar. Ao mesmo tempo, bloguistas militares russos criticaram os líderes militares por não terem detetado ou reprimido a incursão.

“Os ucranianos surpreenderam, demonstrando o fracasso da inteligência russa e a fraqueza ao longo da sua fronteira”, refere Daniel Fried, antigo secretário de Estado adjunto dos EUA para a Europa e atual associado do think tank Atlantic Council. “O ataque subverte assim a narrativa do Kremlin sobre a inevitável vitória russa”, que “a propaganda do Kremlin utiliza na Europa e nos Estados Unidos para avançar o seu argumento de que a resistência ucraniana é inútil e o apoio à Ucrânia é fútil”.

Para John E. Herbst, antigo embaixador dos EUA em Kiev, “mesmo que as forças ucranianas sejam em breve expulsas de Kursk, este é um tiro certeiro para a Ucrânia”, pois esta incursão pode agora “forçar o Kremlin a aliviar a sua pressão atual sobre as posições ucranianas no Donbass ou no norte de Kharkiv”. O atual diretor sénior do Centro para a Eurásia do Atlantic Council refere ainda que, se as forças ucranianas estabelecerem posições defensáveis em território russo, então “Moscovo terá de considerar ainda mais ajustes das suas forças na Ucrânia” e “um cessar-fogo em vigor” seria “menos atraente para a entourage de Putin”. É “altamente provável” que parte do objetivo da Ucrânia seja demonstrar a sua capacidade aos seus aliados, observa ainda Herbst, sublinhando que a incursão em Kursk “deveria ser um lembrete aos líderes ocidentais mais tímidos de que a Ucrânia pode vencer esta guerra se permitirmos que vençam”.

Rússia e Ucrânia também intensificaram os ataques aéreos atrás das linhas de frente na sexta-feira. Um ataque com mísseis russos contra um supermercado na cidade de Kostyantynivka, no leste da Ucrânia e a cerca de 13 quilómetros das posições russas mais próximas, matou pelo menos 11 pessoas e feriu 44. “A Rússia será responsabilizada por este terror”, garantiu Zelensky numa publicação no Telegram. Kiev, por seu turno, anunciou ter realizado um grande ataque aéreo contra uma base militar russa na região de Lipetsk, a cerca de 280 quilómetros da fronteira, afirmando ter atingido “armazéns contendo bombas aéreas guiadas e uma série de outras instalações”. 

ana.meireles@dn.pt

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