Espera alguma mudança na relação dos EUA com o Paquistão com a nova Administração presidida por Donald Trump?O Paquistão está neste momento a adaptar-se ao contexto internacional, a assumir um lugar próprio, sem fixar-se num bloco, mas sim a ter relações com todos. Ora, a maior vantagem do Paquistão é a região onde estamos localizados, no centro da Ásia, onde também estão o Afeganistão, o Irão, a Índia e a China. E faremos parte dos BRICS muito em breve. Portanto, no que diz respeito às mudanças na América, isso não mudará o facto de que o mundo atual é multipolar. Consigo ver diferentes polos a emergir. Não tenho muita certeza de como tudo isto será finalmente moldado, mas consigo ver a ordem ocidental, a atual ordem internacional, a enfrentar uma grande disrupção. Por exemplo, esta guerra na Ucrânia, não sei como vai acabar. Também não sei como evoluirá a Europa, quer seja a política do presidente francês Emmanuel Macron, de uma Europa forte, que emerja, seja a do outro Donald, Tusk na Polónia, que também quer uma Europa forte, seja a do húngaro Viktor Orbán, mais nacionalista. Já agora, na minha opinião, foi uma decisão errada dos britânicos fazerem o Brexit. Vejo que diferentes blocos estão também a emergir do Ocidente.A ordem ocidental está a ser desafiada, mas o Paquistão tradicionalmente é um país amigo dos EUA, e ao mesmo tempo tem uma ligação muito forte com a China. Não era um problema antes, porque os EUA e a China estavam alinhados no tempo da Guerra Fria contra a União Soviética. Mas agora com esta concorrência crescente entre os EUA e a China pela supremacia global, como é afetado o Paquistão?Chamo a atenção para o facto de que os chineses têm as maiores reservas de dólares do mundo. Olha-se para a economia chinesa e têm mais de 3 biliões de dólares em reservas. Não estou a falar de yuans, mas sim de dólares, e estão todos em bancos ocidentais. Portanto, se der juros de quatro ou cinco por cento, estão a receber milhões e milhões desses bancos. A guerra comercial, se Trump cumprir com o aumento das tarifas, terá um impacto que se medirá em números muito altos. Mas ainda teremos de esperar para ver quem definirá essa política, se será Elon Musk, ou Vivek Ramaswamy, ou o próprio presidente. De qualquer forma, o Paquistão já foi muito próximo da América e ainda tem uma boa relação com a América. E tem a sua palavra a dizer. Neste mundo de hoje, até uma pequena ilha no Pacífico tem a sua importância. Mesmo um país pequenino de África, de que ninguém conhece o nome, tem. Mesmo uma pequena nação na América Latina. A última cimeira do G20, que decorreu no Brasil, coincidiu com o acordo com os chineses para uso do porto peruano de Chancay. Assim, sem disparar um tiro, os chineses acabaram com a famosa Doutrina Monroe, de controlo americano do Hemisfério Ocidental. A minha geração, e sinto que temos sorte por isso, está a ver muitos, muitos acontecimentos. O que quer que aconteça, por exemplo, em França afetará provavelmente o Paquistão, afetará a Índia, afetará a China, afetará a América. Mas não é como se em tudo estejamos com a China, ou em tudo o que somos, os chineses estejam connosco. Não somos a Coreia do Norte. O Paquistão tem uma relação muito boa com vários países.É, portanto, possível que o Paquistão mantenha boas relações tanto com a China como com os EUA?Muitos países estão a conseguir isso. Se olhar para os BRICS, para o G20, para o Brasil, para a África do Sul, para os países do Golfo Pérsico. É possível.Mas os paquistaneses não estão preocupados com a existência de uma relação cada vez mais estreita entre os EUA e a Índia? Mesmo nos candidatos presidenciais americanos, Kamala Harris tinha em parte ascendência indiana, e a mulher do vice-presidente de Trump, J.D. Vance, é de origem indiana. E diz-se que existe uma boa relação entre Trump e Narendra Modi. Poderá de alguma forma esta realidade afetar o Paquistão?Tenho muitos amigos na Índia. A comunicação social é um mundo diferente, como sabe. E eu sempre que interajo com eles, como não somos políticos, olhamos para as coisas de uma forma diferente. E todos percebemos que não há almoços grátis, como dizem os americanos. Houve, por exemplo uma desescalada recente entre a China e a Índia. Havia um conflito nos Himalaias, mas conseguiu-se uma desescalada. E tudo foi iniciado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros Wang Yi e pela reunião que teve com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Índia, Jaishankar. As tropas voltaram às posições anteriores, de 2020. Não esquecer que o maior parceiro comercial da Índia é a China, e que a China está bem presente na Índia. Neste mundo de 8 mil milhões de habitantes, há 1,4 mil milhões de indianos e 1,4 mil milhões de chineses. A questão é que, se a Índia se aproximar dos EUA, haverá problemas para a Índia. Porque a Índia está rodeada de países que estão mais próximos da China. Sobretudo depois da mudança política no Bangladesh, após a fuga de Hasina Wajed, que se refugiou na Índia. Essa é a mudança número um, a nova relação do Bangladesh com a Índia, e, claro, a nova relação do Bangladesh com o Paquistão. Passados mais de 50 anos, voltou a haver uma ligação marítima entre o Bangladesh e o Paquistão. Atenção também às mudanças no Nepal. E em Myanmar. O melhor que a Índia tem neste momento é não haver grande tensão com o Paquistão.Como está agora a relação entre o Paquistão e a Índia? Há menos tensão?Há menos tensão. E, na verdade, a única razão pela qual aconteceu foi que, quando a escalada com a China começou, a Índia teve de mudar toda a doutrina de defesa e mover as suas forças da fronteira com o Paquistão para os Himalaias, para a fronteira com a China. É uma novidade. A Índia foi invadida muitas vezes na história. Seja pelos povos da Ásia Central, seja pelos mongóis ou os árabes. Todos vieram do Ocidente. Nunca da China. Porque existe uma muralha chamada Himalaias, capaz de parar o exército chinês e as forças indianas também.Está a sugerir que, de certa forma, hoje a China é uma maior ameaça para a Índia do que o Paquistão, e isso ajuda o Paquistão a ter uma melhor relação com a Índia?Os Himalaias são uma fronteira natural entre a Índia e a China. Então, por causa disso, os dois países nunca lutavam no passado. Tudo mudou recentemente por causa das modernas tecnologias, que permitem voar acima das montanhas. Portanto, se estiver sentado em Deli, pensarei que haverá sempre combatentes deste lado, sempre do Ocidente.Ninguém veio da Birmânia ou do Bangladesh. Mongóis ou muçulmanos ou quem quer que sejam atacar a Índia vieram sempre do Ocidente. Ou os arianos, se for antes na história. Portanto, têm sempre esse problema. O que fizemos foi garantir à Índia que queríamos a paz neste momento. Assim, a Índia conseguiu deslocar as suas forças da fronteira do Paquistão para a fronteira chinesa. O Paquistão garantiu que não íamos começar uma luta nesse minuto. E os chineses também estavam cientes disso. Deveria, por isso, haver uma desescalada. Porque recorde-se, quem abriu as portas entre a China e a América há meio século foi o Paquistão. Com a famosa visita de Henry Kissinger ao Paquistão, na época de Nixon, antes da ida à China. O que pretendemos é que haja sempre boas relações com os vizinhos. Trump não virá salvar ninguém. Ele não virá sequer salvar Taiwan. Ele não emprestará as suas forças a Taiwan. Ele não vai salvar a Ucrânia. Os seus vizinhos irão.A capacidade nuclear do Paquistão e da Índia funcionou realmente de forma a evitar conflitos? Porque nos primeiros 24 anos pós-independência, tiveram três guerras, mas depois de 1974, quando há o primeiro teste nuclear da Índia, e depois de 1998 com ambos os países a assumir a posse da arma nuclear, não houve guerras. A dissuasão nuclear está a funcionar no Sul da Ásia?Está a funcionar. Como é a relação atual entre o Paquistão e a Rússia?É muito boa. Estamos a receber petróleo de lá. E em relação à América eu disse aos meus amigos na Índia que há muitos projetos antigos da CIA que serão encerrados. Para não caírem em armadilhas. E um dos meus amigos, que é diretor de um jornal, perguntou, “tipo o quê?” Eu respondi, “como o Dalai Lama”. O que vai acontecer com o próximo Dalai Lama? Manterão o apoio ao Dalai Lama? Terão uma disputa com a China sobre a questão do Dalai Lama? Onde está o Dalai Lama? O que lhe aconteceu? Fez parte da Guerra Fria. Acabou. Não estou a dizer isto porque sou do Paquistão, mas o plano de contenção da China falhou. E a Índia sim é que esta a ser contida. E os indianos percebem isso. Nepal, Paquistão, Bangladesh, Myanmar. Temos a Tailândia nos BRICS. Temos a Indonésia também. Temos o Irão. Aconteceu o pior dos desastres ao investimento da Índia no Irão. Está ligado à guerra no Médio Oriente. Porque o Irão e a Índia assumiram posições opostas em relação a Israel. Portanto, todo aquele projeto que ia do porto de Chabahar até à ligação com o Afeganistão e tudo isso acabou.Outro assunto importante para o Paquistão, é o terrorismo islâmico. Como vê esta ameaça? Os talibãs voltaram a governar o Afeganistão, mas outros talibãs atacam no Paquistão.Não acho que seja uma ameaça assim tão grande agora. Toda a gente põe o nome de islâmico no terrorismo, embora sejam muitas vezes coisas distintas. Por exemplo, a questão entre o PKK e a Turquia, nada a ver com o Islão, é uma questão antiga, que é a questão dos curdos com a Turquia. A questão é que, neste momento, a China está a ter muitos investimentos no Afeganistão. O próprio Afeganistão quer tornar-se parte dos BRICS e há condições impostas ao Afeganistão, que tem de as cumprir antes de obter permissão para entrar, e também para entrar na Organização Cooperação de Xangai. Tem de mudar para ser reconhecido. Primeiro, não pode haver terrorismo. Em segundo lugar, tem de haver educação para as meninas. Alguma abertura é necessária. Ninguém está a dizer que se tornem um país laico, têm as suas tradições, mas abram-se.A China está a pedir isso aos talibãs?A China está a fazer isso. Ah, sim, são os chineses que estão a fazer isso, não são os americanos. Os chineses estão a fazer isso. E a investir. E os chineses estão a dizer também que se houver algum problema no país e alguém prejudicar os interesses chineses, no dia seguinte pedirão contas.E a influência do Paquistão no Afeganistão ainda é forte?Suponha que sou afegão e sei que no meu país duas superpotências foram derrotadas nos últimos 30-40 anos. Então, o que vou pensar? O meu país está destruído, mas só os afegãos podem reconstruir o meu país. Têm muitos recursos, têm muito talento, mas têm de sair daqueles 40-50 anos de modelo de pensamento em que costumavam ser talibãs. Ok, este novo governo é talibã, mas agora tem de interagir com o mundo. O mundo está disposto a ajudar. Disse já que a China os está a pressionar, mas também o Paquistão. E os russos.