Os navegadores portugueses podem ter dado voltas ao globo pelos mares antes de todos os outros povos, descobrindo, por exemplo, o Brasil, mas foi um cidadão desse mundo novo o primeiro lusófono a andar pelo espaço. Marcos Pontes, hoje com 63 anos, tinha 43 quando fez parte da Missão Centenário, a bordo de uma nave russa, a Soyuz TMA 11F732, no dia 30 de março de 2006. O astronauta, que entretanto trocou o espaço sideral por Brasília, onde exerceu o cargo de ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação no governo de Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022, e foi eleito senador no Congresso Nacional, em 2023, recorda ao DN aqueles momentos, antes, durante e depois da missão. “Eu venho de uma origem muito simples, o meu pai era faxineiro, a rua em que eu morava, em Bauru, no estado de São Paulo, não tinha asfalto, mas eu queria voar alto”, conta Pontes.“Esse sonho de ser piloto começou na infância e, quando eu dizia que queria ser piloto, os meus colegas riam de mim, diziam que era coisa de rico. Um dia, cheguei a casa e a minha mãe perguntou por que eu estava triste e eu contei a ela essa história. Ela olhou para mim com seus lindos olhos azuis e disse ‘você pode ser tudo o que você quiser, desde que você estude, trabalhe e faça mais do que esperam de você!’, aquilo, para mim, foi um combustível que me motivou a querer mais”.Depois do sonho, o plano: “comecei a estudar, fiz escola técnica, entrei na Força Aérea e formei-me piloto, depois conclui o curso de engenharia aeronáutica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica e, a seguir, fui fazer o mestrado em engenharia de sistemas, na Califórnia, então, inscrevi-me para o concurso de Astronauta pela NASA e fui selecionado”.“Quando surgiu a oportunidade da Missão Centenário, eu já vinha me preparando há muitos anos. Não foi sorte, foi preparação encontrando o momento certo”, finaliza.A Missão Centenário nasceu de um acordo comercial entre Brasil e Rússia que culminou com o lançamento da nave Soyuz TMA 11F732 do Centro de Lançamento de Baikonur, no Cazaquistão, às 23:30 de Brasília. Com Pontes, faziam parte da tripulação o russo Pavel Vinogradov e o americano Jeffrey Williams.A comunidade espacial, entretanto, vivia ainda o abalo causado pelo acidente fatal com o vaivém Columbia, de três anos antes. “É claro que existe tensão numa viagem assim, a gente fica sentado, literalmente, em cima de combustível, de um foguete com energia suficiente para causar uma grande explosão, mas, nós, os astronautas, estudamos, treinamos e nos preparamos para lidar com todo o tipo de risco, porque ele não deixa de existir mas nós aprendemos a não nos basear na emoção, mas nos factos”. “Nós temos que confiar no treino que tivemos, temos que confiar na nossa equipa e, acima de tudo, em Deus. Eu sabia que, se fosse da vontade d’Ele, eu cumpriria aquela missão”.“O planeta azulzinho”O dia a dia numa nave é desafiador. Mas extraordinário, garante o astronauta ao DN. “A ausência de gravidade é fascinante, você aprende a movimentar-se de forma completamente diferente, mas o astronauta treina para isso”. “Já a comida é toda preparada, nutritiva e equilibrada para alimentar o astronauta com alimentos desidratados ou em embalagens especiais, comemos refeições pastosas ou naturais, e dormir exige adaptação, porque você simplesmente flutua, então, precisa estar ‘amarrado’ ao saco de dormir para não flutuar e usamos casas de banho com sucção”, continua Pontes.“O dia a dia é rigorosamente planeado, com tempo para atividade física e contato com a Terra, nessa viagem tudo é impactante, é uma experiência extraordinária, mas nada se compara a olhar a Terra do espaço. A Terra é bonita! Eu vi um planeta sem fronteiras. Eu vi o Brasil inteirinho do espaço. Eu tive essa oportunidade como nenhum outro brasileiro pôde ter. E eu pude perceber como nós temos sorte. Temos tudo aqui! A minha maior emoção foi olhar o planeta azulzinho e lembrar dos olhos azuis da minha mãe quando ela me dizia que eu poderia ser tudo o que eu quisesse”.Depois de dois dias na nave e oito na estação espacial Internacional, num total de 155 órbitas, o primeiro astronauta brasileiro, sul-americano e lusófono pousou no dia 8 de abril no Cazaquistão, com a ajuda de 17 helicópteros.No regresso ao Brasil foi condecorado por Lula da Silva, o presidente da altura, e homenageado na mesma Bauru onde o sonho começara. Mas, ao solicitar a reserva da Força Aérea em seguida, foi alvo de críticas do Palácio do Planalto e de setores do Congresso Nacional que esperavam que Pontes, dado o investimento público de cerca de 10 milhões de dólares no projeto, pudesse treinar e orientar novos astronautas. “O legado é muito maior do que qualquer polémica pontual, com o tempo, o que fica são os resultados, a missão inspirou uma geração inteira de jovens, fortaleceu a ciência brasileira e mostrou que o Brasil pode estar na fronteira do conhecimento, as críticas fazem parte de qualquer projeto grande, especialmente quando envolve recursos públicos, mas olhando hoje, tenho convicção de que valeu a pena”.Marcos Pontes mantém contacto com os astronautas com quem voou e conviveu na nave e na estação espacial. “Mantenho até hoje contato e respeito profundo por todos os demais astronautas que estiveram comigo, a convivência numa missão espacial cria laços muito fortes, porque você depende uns dos outros num ambiente extremo”.“No ano passado, fui o anfitrião de um grande encontro de astronautas que tivemos aqui no Brasil, o 26º Planetary Congress, e foi ótimo poder rever os colegas astronautas de cerca de 20 países, continuo conectado com a comunidade espacial internacional, inclusive com astronautas que hoje também atuam na política, nos Estados Unidos”.“O espaço ajuda na política”Na política, Marcos Pontes vai no quinto partido, o PL, de Jair Bolsonaro. Começou por concorrer em 2014 e 2018 a deputado federal por São Paulo, ficando em ambas como suplente. Nesse ano, foi anunciado pelo então presidente Bolsonaro como novo ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação. Em 2022, foi eleito senador. “O espaço e a política são desafios diferentes e importantes”, desabafa Pontes. “No espaço, você enfrenta leis da física, risco real e um ambiente extremo. Na política, você enfrenta interesses, burocracia e decisões que impactam milhões de pessoas”. “Eu diria que a política é um desafio contínuo, porque exige persistência diária para transformar visão em resultado que beneficie a população, de facto. Mas foi justamente a experiência no espaço que me deu essa clareza: o Brasil precisa de decisões bem tomadas aqui na Terra para alcançar grandes conquistas”..Astronauta sobrevoa o absurdo