Jornalista citou Gabriel García Marquez e disse que preferia "comer merda" a continuar a ser "humilhada"
Jornalista citou Gabriel García Marquez e disse que preferia "comer merda" a continuar a ser "humilhada"Foto: D.R.

"Não me vais humilhar mais". Jornalista abandona programa em direto e acusa apresentador de maus tratos

Marta Gómez Montero abandonou o programa em lágrimas. Apresentador e presidente da TVE pediram desculpas. Direita espanhola defendeu jornalista e atacou Pedro Sánchez.
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Marta García Montero, jornalista da TVE, abandonou em diretoo programa da emissora pública espanhola "Malas Lenguas noche", acusando o apresentador Jesús Cintora de maus tratos e humilhações. Cintora tinha aberto o debate sobre as declarações do líder da oposição, o presidente do Partido Popular (PP), Alberto Núñez Feijóo, contra o absentismo laboral, a que chamou de "um cancro". Quando o apresentador se virou para García Montero para saber a sua opinião do assunto, a jornalista afirmou: "Não vou responder, Jesús, desculpa".

"Não me vais voltar a humilhar, sinto-me absolutamente humilhada. Aguentei muito tempo, aguentei para pagar as faturas, aguentei pelos meus filhos", continuou, começando a chorar e insistindo que "não aguentava mais".

Antes de sair, a autora citou o fim do livro "magnífico" Ninguém Escreve ao Coronel, do Nobel da Literatura Gabriel García Marquez. "Ela, a mulher, pergunta-lhe no final [...] 'O que é que vamos comer?'. 'Merda', diz o protagonista. Pois eu, Cintora, prefiro comer merda".

O debate já tinha começado há alguns minutos, tendo Gómez Montero ficado do lado de Feijóo mas sido interrompida várias vezes pelos restantes comentadores. Como destacou o jornal El Mundo, "tudo parecia normal no programa, mas algo estava a acontecer que escapava ao olhar do espetador". As reações do apresentador prolongaram-se ao longo do programa. Primeiro, no momento em que a jornalista abandona, pergunta: "Mas o que se passa, Marta?". Depois, comenta que "ela saberá" porque é que abandonou.

Mais tarde, Cintora interrompe o programa para sublinhar que lhe dizem que "se está a comentar e muito" o que tinha acontecido mas que não tinha "entendido" o que se passou.

"Com todo o carinho e com as desculpas que forem necessárias, caso se tenha sentido mal, mas apenas lhe fiz um gesto para que esperasse pela sua vez. Pede-se a todos os colegas que não interrompam os outros, que não falem por baixo e que respeitem a ordem de intervenção. Apenas isso, nada mais. A partir daí, ela decidiu ir-se embora", explicou-se ainda o apresentador.

"Está mais do que convidada a voltar a este programa quando quiser, e digo-o com todo o carinho. São coisas que acontecem em direto e que vos contamos, porque não há nada a esconder", concluiu.

Após o fim do programa, o caso continuou a ser comentado nas redes sociais, que partilharam o vídeo do momento várias vezes. Cintora, na rede social X, voltou a comentar o caso e a expressar que no seu programa "há e haverá sítio sempre para todas as opiniões.

"A Marta Gómez Montero é uma boa jornalista e colega que participa com muita frequência no nosso programa. Depois de lho ter dito em privado, quero apresentar-lhe as minhas desculpas pelo transtorno causado. A Marta conta com a minha amizade e as portas do programa estão abertas para ela", acrescentou na publicação.

Por sua vez, o presidente da TVE, José Pablo Lopez, dirigiu-se à jornalista da sua emissora na rede social X. "Querida Marta, as desculpas em privado não bastam; por isso, quero fazê-lo também em público, dar-te um abraço e colocar-me à tua inteira disposição para o que precisares», escreveu na publicação, sublinhando que já a conhece "há vários anos".

"És uma profissional magnífica e uma excelente pessoa. A RTVE continuará a ser um espaço onde a tua voz e o teu talento serão valorizados», afirmou ainda.

Nas redes sociais, o momento foi comentado por figuras políticas, contra a vontade da presidente da Associação de Imprensa de Madrid, Marta Rey. No X, Rey publicou várias vezes a pedir que não se reduza "uma situação como esta nem a uma batalha ideológica nem a uma disputa entre jornalistas". “Quem classificar o que aconteceu no programa Malas Lenguas Noche como um ato de vitimismo premeditado ou não tem alma ou nunca sofreu uma crise de ansiedade", sublinhou.

A jornalista, próxima do campo da direita espanhola, foi amplamente defendida e apoiada por personalidades do Partido Popular, que ligaram Cintora ao governo de Pedro Sánchez, do PSOE.

Isabel Diáz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid e uma das principais figuras do partido de centro-direita, partilhou o vídeo e criticou o "governo desequilibrado que está a levar toda a Espanha ao caos".

Para Ayuso, o governo está "a fazer uso abusivo dos serviços públicos", "a pressionar, a intimidar, a impor o pensamento único, a levar tudo e todos ao confronto. "Sánchez: vai-te embora já", acrescentou.

Já Nacho Martín Blanco, deputado do PP, disse que García Montero parecia "uma mulher sensata e cordial e que não tem de aturar a arrogância de comissários políticos como Cintora, que transformaram a TVE num instrumento de agitação e propaganda indigno de um país democrático".

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