"Na Austrália, os madeirenses foram pioneiros e contribuíram para o desenvolvimento da atividade piscatória"
Foi convidado para umas jornadas da comunidade portuguesa na Austrália, onde apresentará o seu livro ‘Monumentos ao Emigrante: Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa’. França, Alemanha, Luxemburgo, Suíça, Brasil e EUA são tradicionais destinos da emigração portuguesa. A Austrália, mesmo distante, também atrai de há muito os portugueses?
O convite foi endereçado pela conselheira das Comunidades Portuguesas na Austrália, Sara Fernandes, para participar nas II Jornadas Multidisciplinares da Comunidade Portuguesa na Austrália, em Melbourne, no dia 28 de novembro. Irei moderar um painel e abordar a história e a memória da emigração portuguesa na Austrália, através da apresentação do livro Monumentos ao Emigrante: Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa. A Austrália foi um dos principais destinos da emigração portuguesa do terceiro quartel do século XX, fora da Europa, com uma presença particularmente expressiva de madeirenses. A presença significativa de portugueses remonta à década de 1950, quando emigrantes madeirenses ligados à pesca se instalaram em Fremantle, na costa ocidental. Atualmente, vivem na Austrália mais de 55 mil portugueses, sobretudo em Perth, Melbourne e Sydney, onde associações, centros culturais e recreativos e outros espaços mantêm viva a língua e a cultura portuguesas.
Neste seu livro, através das localidades que ergueram monumentos, percebe-se que todo o Portugal contribuiu para a diáspora. Para a Austrália, quem foram os que partiram? Sobretudo madeirenses?
O livro Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa, que realizei em parceria com o fotógrafo Luís Carvalhido, evidencia a existência, em todos os distritos de Portugal continental e nas regiões autónomas, de mais de uma centena de monumentos de homenagem ao emigrante. A emigração é uma constante estrutural da sociedade portuguesa. Na Austrália, os madeirenses foram pioneiros e representam uma parte expressiva da comunidade, sobretudo na Austrália Ocidental, onde contribuíram para o desenvolvimento da atividade piscatória. O livro assinala o busto do comendador Manuel Correia (1914-1996), inaugurado em 1998, na Madalena do Mar, em homenagem à sua ligação pioneira à Austrália. Foi Cônsul Honorário de Portugal e Delegado das Comunidades Madeirenses na Austrália. A comunidade luso-australiana integra portugueses de todas as regiões do país.
Através das suas viagens de contacto com as comunidades portuguesas consegue dizer se a integração é geralmente bem-sucedida, mas sem perderem os laços com o país de origem?
Nas viagens e apresentações que tenho realizado junto das comunidades portuguesas, tenho constatado o empreendedorismo, a resiliência e a solidariedade dos nossos compatriotas, a riqueza do movimento associativo e as potencialidades que representam, nos países de acolhimento e em Portugal. Embora existam percursos marcados por precariedade, doença, desemprego, abandono ou solidão, a integração dos emigrantes portugueses é, em geral, muito bem-sucedida. Ao mesmo tempo, mantêm laços fortes com Portugal através da família, da cultura, das associações, das remessas e da participação cívica.
Continentais, sejam do Minho ou do Algarve, açorianos e madeirenses, quando os emigrantes portugueses se encontram no estrangeiro tendem a formar comunidades que misturam todos?
Nas deslocações que tenho realizado pela diáspora, em particular na América do Norte, tenho constatado que esse processo varia consoante a geografia, a época da emigração e o contexto associativo. No Canadá e nos Estados Unidos, existem inúmeras associações ou casas regionais – de Minhotos, Transmontanos, Madeirenses ou Açorianos – que mantêm vivas as tradições e a cultura das suas regiões. Essas identidades regionais confluem, porém, numa identidade portuguesa mais ampla, sobretudo nas celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, grandes manifestações da portugalidade.
Como lhe nasceu esta paixão pelas comunidades emigrantes?
É uma paixão que nasceu de um percurso pessoal e literário alicerçado no contacto com a diáspora. As obras que tenho realizado sobre a Emigração e a História têm proporcionado inúmeras sessões em Portugal e além-fronteiras, permitindo-me conhecer de perto a realidade das comunidades portuguesas. Escrevo também regularmente para meios de comunicação dirigidos às comunidades portuguesas. Tudo isso tem alimentado uma paixão, mas também um profundo respeito e admiração pelos nossos emigrantes, procurando dignificar e valorizar as sucessivas gerações de portugueses que partiram e que têm contribuído para o desenvolvimento das duas pátrias: a de acolhimento e a de origem.
Há um outro recente livro seu, Portugal: da Ditadura à Democracia, que junta a sua investigação ao espólio fotográfico de Marques Valentim. Também aqui a emigração conta ou está como historiador a abordar outras realidades?
O livro Portugal: da Ditadura à Democracia foi concebido a partir do espólio fotográfico de Marques Valentim, um dos mais relevantes nomes do fotojornalismo português. Reúne fotografias que documentam momentos marcantes da história contemporânea portuguesa: a Guerra Colonial, a integração dos “retornados”, o período revolucionário e a consolidação da Democracia. O olhar de Marques Valentim estendeu-se também aos protagonistas anónimos da nossa história, entre eles os emigrantes, retratados no final dos anos 70 aquando do seu regresso a Lisboa para a quadra natalícia, através da Estação de Santa Apolónia, de onde muitos haviam partido para a Europa no mítico Sud Express. É um testemunho visual de excecional valor histórico.
Há algum recanto do mundo sem emigrantes portugueses? Li recentemente que havia uma dezena na Gronelândia.
As informações apontam para uma das diásporas mais extensas do mundo, estimando-se que mais de cinco milhões de portugueses e lusodescendentes vivam fora de Portugal, espalhados por mais de 180 países e territórios. Segundo dados oficiais, estima-se que apenas dez portugueses vivam na Gronelândia. Apesar dos desafios que a emigração coloca ao país, nomeadamente em termos demográficos e de natalidade, as comunidades portuguesas constituem um dos mais importantes ativos estratégicos de Portugal. Os nossos emigrantes são verdadeiros embaixadores de Portugal no mundo.


