Os luso-americanos, nossos aliados

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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A população de origem portuguesa nos Estados Unidos ronda os 1,4 milhões, o que pode parecer pouco comparado com os americanos de origem irlandesa ou italiana, mas é preciso não esquecer que Portugal tinha um império colonial e, sobretudo, o Brasil foi, mesmo depois da independência, um destino de muitos dos nossos emigrantes.

Ora, independentemente do número (e esse é relativo pois há estados como Massachusetts ou Rhode Island onde a presença portuguesa sobressai) há todo o interesse em preservar as ligações entre os luso-americanos e o país de origem.

Ainda há dias, em entrevista ao DN, a embaixadora da República Dominicana em Portugal, Patricia Villegas de Jorge, referia a grande importância da comunidade dominicana nos Estados Unidos, pelas remessas de divisas, mas também por ser uma espécie de posto avançado que alertava para problemas que podiam surgir na relação. Ideia que vale para os luso-americanos.

São várias as organizações que representam a diáspora e asseguram essa ligação entre Portugal e, neste caso, os Estados Unidos. E a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) tem um papel igualmente vital no relacionamento entre os dois aliados que são, de certa forma, vizinhos, graças ao Atlântico.

Nunca esquecer os Açores como centrais na relação bilateral, que tem 250 anos se pensarmos no reconhecimento da independência, 500 anos se a referência for João Rodrigues Cabrilho a navegar até à atual Califórnia. A maioria da comunidade tem raízes açorianas, mas não faltam os descendentes de madeirenses, os minhotos, os algarvios e por aí fora.

Uma das iniciativas da FLAD que merece ser destacada é o Legislators’ Dialogue, que todos os anos traz a Lisboa políticos luso-americanos, sejam eleitos a nível federal, sejam a nível estadual.

Há casos como Tony Cabral, congressista do Massachusetts, que nasceram ainda em Portugal. Outros, como Jack Martins, senador estadual de Nova Iorque, que são filhos de portugueses. E outros ainda, como Samantha DeCorte, senadora do Havai, que têm antepassados portugueses, mas há várias gerações que a família se instalou nos Estados Unidos e a miscigenação foi acontecendo.

"Essa capacidade de democratas e republicanos, de origem portuguesa, se entenderem em benefício da comunidade e do país dos antepassados foi também realçada no ano passado, na anterior edição do 'Legislators’ Dialogue', por dois dos congressistas federais, o democrata Jim Costa (de pé, na foto) e o republicano David Valadao."
"Essa capacidade de democratas e republicanos, de origem portuguesa, se entenderem em benefício da comunidade e do país dos antepassados foi também realçada no ano passado, na anterior edição do 'Legislators’ Dialogue', por dois dos congressistas federais, o democrata Jim Costa (de pé, na foto) e o republicano David Valadao." FOTO: Reinaldo Rodrigues

Refiro estes três nomes, um açoriano do Pico, um filho de minhotos e a neta de um havaiano 50% madeirense por serem bons exemplos da diversidade que o Legislators’ Dialogue trouxe este ano a Portugal. Foram entrevistados pelo DN e concordaram que não só reforçam laços com Portugal, como constroem laços entre eles. Não esquecer que o Massachusetts fica mais longe do Havai do que de Portugal e a probabilidade de estes políticos americanos se conhecerem era mínima.

Os alertas que chegam da comunidade portuguesa podem ser sobre alguma iniciativa para acabar com a dupla cidadania ou sobre o eventual encerramento do consulado em Ponta Delgada. Pode nunca acontecer, mas evitá-lo passa por as próprias autoridades portuguesas estarem informadas a tempo. E a suposta capacidade de influenciar a decisão nos Estados Unidos passa pelos políticos luso-americanos, em regra mais do Partido Democrata, mas também alguns republicanos. O ex-congressista Devin Nunes, por exemplo, é uma figura próxima do presidente Donald Trump e chegou a participar no Legislators’ Dialogue.

A identificação destes luso-americanos exige trabalho árduo. Samantha DeCorte, que se orgulha muito de um brasão dos Medeiros que herdou do avô materno, só agora vai descobrindo mais sobre Portugal e a influência dos emigrantes portugueses no Havai. Ficou surpreendida quando soube que as malassadas, tão populares no arquipélago do Pacífico, eram um doce português e que o ukulele era afinal o cavaquinho levado da Madeira no século XIX pelas famílias contratadas para trabalhar nas plantações de cana de açúcar. Foi agora a sua segunda viagem a Portugal e, obviamente, a ligação emocional aumenta, mesmo que se assuma como uma política que representa os nativo-havaianos.

No Havai a miscigenação foi tanta que um quinto da população tem antepassados portugueses, mas um neto ou bisneto de portugueses pode muito bem ter um apelido japonês; como acontece com o senador Ronald Kouchi, que já participou na iniciativa da FLAD, que tem antepassados de Hiroxima, mas também dos Açores, os Sousa e os Morgado.

Esta discreta construção de um lobby luso-americano é potenciada por, atualmente, quatro dos congressistas federais serem luso-americanos. E também por estes serem capazes, tal como acontece com a generalidade dos participantes, de cooperar esquecendo as cores partidárias, e isso deve-se muito ao terreno neutro que Lisboa lhes oferece. “É muito bom estarmos juntos numa oportunidade como esta, porque quando nos põem a todos numa sala aqui em Lisboa, não se consegue saber quem é republicano e quem é democrata. Apenas sabemos que temos em comum a ascendência portuguesa. E isso derruba fronteiras. Não há partidos. Ninguém pergunta. E se perguntarem, tudo bem”, disse Samantha DeCorte há dias, na sua entrevista.

Essa capacidade de democratas e republicanos, de origem portuguesa, se entenderem em benefício da comunidade e do país dos antepassados foi também realçada no ano passado, na anterior edição do Legislators’ Dialogue, por dois dos congressistas federais, o democrata Jim Costa e o republicano David Valadao. Descendentes de açorianos, ambos eleitos pela Califórnia, não só aceitaram dar uma entrevista conjunta ao DN, como admitiram, sublinhou Valadao, “que não é incomum trabalharmos bem juntos em questões que afetam as nossas comunidades”, mas também em prol da relação entre os Estados Unidos e Portugal, uma relação que começou, simbolicamente, quando a Declaração de Independência foi brindada, a 4 de julho de 1776, com vinho da Madeira.

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