Merz posto à prova no domingo quando metade dos alemães espera que deixe de ser chanceler
Não há como escapar. As eleições deste domingo realizam-se na capital e no estado federal de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Em Berlim, os eleitores escolhem 159 representantes para o parlamento da cidade-estado, e com isso o próximo presidente da Câmara, que é também presidente do Senado (Regierender Bürgermeister, ou governador-presidente). Na região do nordeste, são 71 os lugares em disputa para o parlamento regional, e dessa escolha sairá o respetivo governo. Porém, é no chefe do executivo federal, Friedrich Merz — que não figura nos boletins de voto — em quem recai a atenção. Mais um resultado desastroso poderá ser o suficiente para que o impopular chanceler saia de cena. De motu proprio ou empurrado pelos colegas da União Democrata-Cristã (CDU).
Uma sondagem YouGov publicada na sexta-feira indica que quase metade dos alemães (48%) espera que Merz já não seja chanceler no final do ano, enquanto quase um em três (31%) crê que permaneça no cargo. O aumento do preço dos combustíveis e, em consequência, do custo de vida, domina o debate político e as preocupações dos cidadãos. O democrata-cristão, um milionário acusado bastas vezes de estar desligado da realidade e de não ter empatia para com as classes mais necessitadas, disse que se prepara um alívio no preço dos combustíveis, mas não adiantou como.
O que se sabe é que, como tem sido habitual na coligação entre CDU-CSU e os sociais-democratas (SPD), a abordagem não é consensual. Os primeiros privilegiam a baixa dos impostos sobre os combustíveis, enquanto os segundos propõem um teto aos preços e um imposto sobre os lucros extraordinários das petrolíferas. Enquanto isso, o descontentamento cresce e quem estava em campanha tentou capitalizar.
É o caso da chefe do governo de Mecklemburgo e candidata a novo mandato. A social-democrata Manuela Schwesig elegeu Merz como o adversário político da campanha eleitoral, e não o candidato da CDU, no que é visto como uma estratégia para disputar os votos da Alternativa para a Alemanha (AfD). Afinal, foi com uma forte rejeição a Merz que este partido de extrema-direita construiu a sua vitória na Saxónia-Anhalt, a primeira a nível regional, há duas semanas. Na reta final da campanha, Schwesig, que foi ministra da Família do governo de Angela Merkel, disse que Merz devia agir rapidamente e introduzir um teto ao preço da gasolina e do gasóleo.
Segundo a mais recente sondagem, para a ZDF, a estratégia da ministra-presidente do SPD poderá resultar. A AfD liderava até então, mas agora aparece em segundo com 36%. O SPD sobe três pontos percentuais nas intenções de voto e chega aos 37%. A confirmar-se, evitaria o simbolismo da segunda vitória de seguida dos nacionalistas, embora aqui, como em Berlim, a expressão dos votos é insuficiente para a AfD governar (nenhum outro partido está disponível para cortar o cordão sanitário (Brandmauer).
Inclusive na Saxónia-Anhalt não é líquido que o partido liderado por Alice Weidel e Tino Chrupalla consiga formar governo. A hipótese considerada mais viável é obter a maioria simples, à terceira votação no parlamento de Magdeburgo, com a abstenção do partido populista de esquerda BSW, em troca do alinhamento em algumas políticas. Mas a sua líder, Sarah Wagenknecht, acusou a AfD local de "tentar sabotar as negociações através de provocações públicas".
De volta a Macklemburgo-Pomerânia: a sondagem não indica apenas que Manuela Schwesig estava a ser bem-sucedida com o mote Frau gegen Blau (Mulher contra Azul, a cor da AfD). A luta a dois empurra a CDU para uns antes impensáveis 6% (obteve 13,3% nas anteriores eleições). Seria o pior resultado de sempre da CDU ao nível regional e deixa os conservadores no limiar da eleição (a barreira é 5%). Se o partido falhasse a eleição, iria ser o "caos total", disse um dirigente conservador, em desabafo ao Politico.
Refira-se ainda que, a confirmar-se a sondagem, Schwesig ficaria a um lugar de renovar a maioria com o partido A Esquerda (Die Linke).
Jogo de ténis fatal
Em Berlim, a luta é a três, com a CDU a ser desafiada pelos extremos. O destino político do autarca em fim de mandato ficou traçado em janeiro. Kai Wegner, da CDU, admitiu meses depois que esteve a jogar ténis com a sua mulher e senadora de Berlim (membro do executivo) enquanto a capital viveu o primeiro dia do maior apagão em décadas. Cem mil pessoas ficaram sem energia em resultado de uma sabotagem em pleno inverno. O senador com a pasta das Finanças, Stefan Evers, ficou com a tarefa de colar os cacos da credibilidade do partido.
A sondagem para a ZDF atribui à CDU 20% (menos oito pontos do que nas eleições anteriores), atrás do Die Linke (22%) e um pouco à frente da AfD (18%). Com o parceiro de coligação SPD a cair de segunda força para quinta (com 12%), ainda que a CDU chegue à frente no final da corrida, a solução governativa teria de ser outra.
Mas, para já, as atenções estão viradas para A Esquerda e para a sua candidata Elif Eralp, filha de exilados políticos turcos. A maior preocupação dos berlinenses é a habitação e é nesse tema que o herdeiro do partido oficial da República Democrática Alemã se distingue. Promete materializar o resultado de um plebiscito realizado em 2021, e no qual 59% dos berlinenses concordaram com a expropriação de empresas imobiliárias com mais de três mil habitações.
Merz cancela viagem
A resposta de Friedrich Merz deu mais argumentos aos adversários. Ao falar sobre as eleições de domingo, ligou-as ao momento geopolítico que a Europa atravessa. "Todos os olhos estão voltados para a Alemanha, para Berlim, para o nosso papel no mundo. São colocadas expectativas em nós para contribuir para a manutenção da estabilidade deste continente europeu", disse durante um momento da campanha, na quinta-feira. Sobre as preocupações dos eleitores, nem uma palavra.
Foi na mesma linha de pensamento que, na quarta-feira, os oito ministros-presidentes da CDU assinaram um manifesto de apoio a Merz. A sua data de validade, porém, é uma incógnita. Para já, o chanceler, prevendo o pior, convocou os dirigentes do partido para se reunirem no domingo. E cancelou a viagem a Nova Iorque, onde iria discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas.

