Seria um tremendo exagero afirmar que o panorama em torno do governo alemão e do seu líder estaria em modo positivo; antes, o que já estava mal, pior ficou. A mais recente crise foi desencadeada com o escândalo da barriga de aluguer do líder parlamentar, e agravou-se com a forma desastrada como Friedrich Merz aproveitou para fazer uma remodelação governamental. O desastre está a pouco mais de um mês de se consumar, caso a extrema-direita chegue ao poder na Saxónia, como as sondagens indicam.Em maio, um diplomata europeu dizia ao londrino Telegraph, a propósito dos primeiros 12 meses de Merz à frente dos destinos do governo de coligação dos democratas-cristãos (CDU) com os sociais-democratas (SPD): “Tem sido um ano desastroso. A questão é saber se a Alemanha tem um problema com Merz, ou se Merz tem um problema com a Alemanha?”. Não há maneira de a economia, a maior da UE, inverter a tendência e voltar a ser o chamado “motor da Europa”, alimentando os partidos fora do arco governativo, em especial a Alternativa para a Alemanha (AfD), que lidera as sondagens com cinco pontos de avanço em relação à CDU. .13Por cento dos alemães estão satisfeitos com o desempenho do chanceler, o valor mais baixo alguma vez registado em 30 anos de sondagens da ARD-DeutschlandTrend..No início de julho, Friedrich Merz recebeu a reprovação de cinco em cada seis alemães na sondagem para a ARD, e apenas 13% se mostraram satisfeitos, um recorde negativo. Há duas semanas, rebentou um escândalo quando Jens Spahn, líder parlamentar dos conservadores — e rival de Merz — anunciou ser pai, com o marido, de um bebé, tendo recorrido à barriga de aluguer. A prática é ilegal na Alemanha, mas quem tem dinheiro contorna as limitações recorrendo à gestação por outrém no estrangeiro, com os tribunais a reconhecerem a paternidade. Mas não só a CDU se mostrou contra a legalização deste processo, como o próprio Spahn, enquanto ministro da Saúde, mostrou-se contra uma proposta de legalização da gestação de substituição, em 2020. Uma posição politicamente insustentável: perante a chuva de críticas, Spahn demitiu-se. “Em política, a credibilidade é o bem mais precioso”, reagiu então Merz, que considerou a saída de cena de Spahn “justa e inevitável”. O chanceler viu na demissão do líder parlamentar a oportunidade para relançar um governo impopular, com uma remodelação. A forma como tudo correu — ou está a correr, não se sabe se já chegou ao fim — deixou Merz ainda mais fragilizado, e com várias figuras no partido a criticarem-no pela forma como está a gerir o dossiê.“Estas alterações de pessoal seguem um princípio orientador claro. Queremos um governo que trabalhe com o maior entusiasmo e alegria, ao mesmo tempo que reflita a diversidade da nossa sociedade e do panorama político. Somos um governo orientado para reformas e pretendemos continuar a demonstrá-lo”, disse o chanceler ao anunciar as primeiras mexidas. A mais importante foi a chamada de Nina Warken, até então ministra da Saúde, para a chancelaria. É a primeira mulher na coordenação do governo federal. Para o seu lugar foi o secretário-geral da CDU, Carsten Linnemann, que fica com a responsabilidade de apresentar a reforma da Saúde até ao final do ano. Outra área em que Merz quer apresentar trabalho já no outono é na reforma das pensões. Ao apresentar estas mudanças, há uma dezena de dias, Merz disse, um pouco paradoxalmente, que iria continuar a remodelar o executivo, mas “sem pressão do tempo, com o devido cuidado, e depois das necessárias discussões”. O que se seguiu enfureceu parte dos seus confrades, demitindo pessoas por mensagens de telemóvel ou com os visados a saberem através de anúncios em conferências de imprensa. O caso mais bicudo foi o do ministro dos Transportes. Merz não escondeu a frustração por Patrick Schnieder não pôr em prática um plano de modernização das infraestruturas rodoviárias e ferroviárias e anunciou o seu sucessor antes de este ter aceitado. Perante a recusa, Merz deixou Schnieder no cargo, até este pedir a exoneração, dada a “situação indigna” em que se encontrava..3Eleições em setembro podem vir a selar o destino de Merz: Saxónia, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Berlim. A AfD pode vencer no primeiro..Thorsten Frei, até agora a chefiar a chancelaria, é o homem proposto para substituir Spahn na liderança parlamentar, numa votação a decorrer na quarta-feira, e que os media preveem tensa. Tendo em conta que Merz fez história ao falhar a eleição no Parlamento à primeira volta, mais surpresas podem acontecer no Bundestag. .Merz fala em "big bang" na Alemanha face à provável vitória da extrema-direita.Friedrich Merz faz um ano no poder na Alemanha sem motivos para celebrar