Para os dias de canícula é do conhecimento comum que a hidratação é essencial e que a alimentação também deve ser adaptada. A península da Coreia tem sido assolada com uma onda de calor, o que levou as autoridades de Pyongyang a emitir uma recomendação chocante aos olhos de quase todo o resto do mundo. O jornal do Partido dos Trabalhadores da Coreia (a partir do qual a dinastia Kim exerce o poder), Rodong Sinmun, publicou uma entrevista com um médico, no qual este explicou que o princípio orientador para cuidar da saúde durante o calor é baixar a temperatura corporal. E a alimentação tem um papel importante: melancias, uvas, melões e pepinos, por exemplo, são aconselhados. Até aqui, nada de mais. Porém, ao explicar que o corpo necessita de proteínas, sugeriu aos norte-coreanos ingerirem papas de peixe, papas de feijão vermelho e sopa de carne de cão (dangogi guk, ou seja, sopa de carne doce). O prato, conhecido como bosintang na Coreia do Sul, tem uma longa tradição na península e está associado aos dias mais quentes do ano. Há uma crença de que o consumo da carne de cão é um poderoso revitalizador e que ajuda a combater o calor. O regime norte-coreano promove há décadas o consumo de dangogi guk. No entanto, o prato é inacessível para a maioria da população, que não tem recursos para comprar a carne. Refira-se que, no Sul, a prática de comer carne de cão está a cair em desuso, após anos de campanhas de associações de defesa dos animais. Legislação aprovada em 2024 prevê a eliminação progressiva, até fevereiro de 2027, da criação, abate, distribuição e venda de cão para consumo humano. O regime totalitário da Coreia do Norte tem um historial sinistro no que respeita a garantir aos seus habitantes o mínimo para a sua sobrevivência. Durante a década de 90, o seu isolamento, potenciado pela dissolução da União Soviética, e um conjunto de fatores como anos de inundações e de seca, levaram à chamada "grande fome". Não se sabe ao certo quantas pessoas morreram de desnutrição; estimativas apontam para números tão díspares quanto 250 mil e 3 milhões de mortos. Mais recentemente, durante os anos da pandemia, com o país a fechar-se ainda mais (encerrou as fronteiras para tentar impedir a disseminação do vírus), registou-se nova crise alimentar. Sabe-se por imagens de satélite que a produção agrícola teve uma quebra e, segundo estimativas do Sul, a ditadura não conseguiu obter o número de toneladas de cereais para alimentar a população. Há relatos de mortes por desnutrição, mas não há dados oficiais. Kim Jong-un alertou então para uma nova "marcha árdua", eufemismo que Pyongyang usa para retratar a "grande fome" do final do século XX. .O conselho das autoridades coincidiu com nova promoção da única estância balnear na Coreia do Norte, através de um vídeo emitido pela agência de notícias estatal. O complexo turístico Wonsan Calma, que se estende por uma linha de praia de quatro quilómetros e com capacidade para receber 20 mil turistas, foi inaugurado em julho do ano passado. A construção foi então comparada a Benidorm. Esteve aberto a turistas estrangeiros, mas duas semanas depois, Pyongyang fechou a porta ao exterior. A medida coincidiu com o relato de um jornalista russo, que acompanhou o ministro dos Negócios Estrangeiros Sergei Lavrov ao local, e segundo o qual os turistas norte-coreanos eram na realidade figurantes. .Coreia do Norte enfrenta "grave seca" em "grande parte do território".Kim Jong-un inaugura a Benidorm da Coreia do Norte