No dia em que o governo demissionário de Gabriel Attal bate o recorde de longevidade -- o anterior datava de 1953, quando o executivo de René Mayer se manteve em funções 38 dias à espera de ser substituído --, Emmanuel Macron põe fim à trégua olímpica por si decretada e por fim recebe os dirigentes dos diversos blocos partidários para ouvir as respetivas propostas. Já se sabe há muito quem é que a Nova Frente Popular (NFP) propôs e também que o presidente não está inclinado a abrir mão de um executivo com pessoas da sua confiança, e ainda que o partido que obteve mais votos sozinho (Reunião Nacional, de Marine Le Pen/Jordan Bardella) não estará no governo. O que se desconhece é como vai Macron cozinhar uma solução viável ante uma Assembleia Nacional sem maioria absoluta, dividida em três grandes blocos, e desprovida do hábito de coligações heterodoxas, como por exemplo a que se verifica na Alemanha. Na véspera da reunião no palácio do Eliseu, que decorre esta sexta-feira de manhã, os representantes da NFP e a sua candidata ao palácio de Matignon, Lucie Castets, afirmaram estar “prontos” para governar e criticaram a “inação grave e nefasta” de Macron. Numa carta dirigida aos franceses, os quatro partidos que compõem a aliança (França Insubmissa, LFI; PS, Partido Comunista e Ecologistas) voltaram a pressionar o presidente, ao lembrar que o seu bloco obteve o maior número de deputados..“Como em todas as democracias parlamentares, a coligação vencedora deve poder formar governo. Trabalhámos nisto durante todo o verão. Estamos prontos”, proclamam..Para a NFP, que reafirma a vontade de marcar desde início uma rutura com o passado, o facto de estarem quase a cem deputados da maioria absoluta não é uma questão: “Quem se recusará a aumentar o poder de compra? Os deputados serão responsáveis pelos seus votos e os cidadãos serão testemunhas disso”, afirmam Castets - que vai ao Eliseu junto dos líderes parlamentares e partidários -, Manuel Bompard (LFI), Olivier Faure (PS), Fabien Roussel (PCF) e a ecologista Marine Tondelier..Para que não haja dúvidas sobre o consenso alcançado, em especial perante o extremismo do LFI nalguns temas, os líderes da aliança reafirmaram que, no campo externo irão trabalhar para “derrotar a guerra de agressão de Vladimir Putin”, “obter um cessar-fogo em Gaza e a libertação dos reféns”, enquanto advogam o reconhecimento imediato da Palestina..A carta não continha a ameaça da LFI de avançar com um procedimento para a destituição de Macron, como a sua líder parlamentar Mathilde Panot revelou em entrevista à France Inter na quarta-feira. Sabe-se que no campo da NFP pelo menos os socialistas discordam dessa iniciativa. Depois de receber a Nova Frente Popular, Macron entra em consultas com os partidos do seu campo, bem como com os representantes de Os Republicanos. Para segunda-feira ficam os representantes da extrema-direita, Jordan Bardella, Marine Le Pen e o seu aliado saído d’Os Republicanos Éric Ciotti. Segundo o Eliseu, na sequência do objetivo de procurar a “maioria mais ampla e mais estável” definido por Macron em julho, o objetivo destas consultas é “descobrir em que condições as forças políticas podem atingir este objetivo”. A decisão de nomear o ou primeiro-ministro “será tomada tendo em conta estes dois critérios”, explicou o Eliseu na quinta-feira, e tendo também em conta que se está perante um “parlamento de minorias”. A presidência enalteceu a esse propósito o “trabalho fundamental” da direita republicana, ao mostrar-se disponível para um “pacto legislativo”, e do “bloco central” (os partidos do campo de Macron) com o “pacto de ação para os franceses” apresentado por Gabriel Attal - ironicamente a pessoa preferida pelos franceses para o cargo. Dito de outra forma, o presidente crê que um executivo do bloco de esquerda e extrema-esquerda acabaria rapidamente graças a uma moção de censura; pelo contrário, crê-se que um primeiro-ministro fora do campo da NFP não sucumbiria a uma moção de censura porque não é crível que a NFP se juntasse à Reunião Nacional. A aliança dos quatro partidos de esquerda e extrema-esquerda poderá até chegar ao poder, mas como um presente envenenado, crê o politólogo Martial Foucault. “Macron poderia fazer um cálculo mais cínico e entregar as chaves de Matignon ao NFP antes do prazo de votação do orçamento de 2025, o que o exporia a uma moção de censura com os votos da Reunião Nacional e do campo presidencial”, disse em entrevista ao Le Figaro..No radar.Lucie Castets.Lucie Castets, ao centro, junto da líder dos ecologistas Marine Tondelier. GUILLAUME SOUVANT / AFP.A responsável pela gestão de 10 mil milhões de euros anuais da Câmara de Paris foi o nome de consenso apresentado para chefiar o Governo pela Nova Frente Popular, o bloco de esquerda e extrema-esquerda que mais deputados elegeu. No entanto, Emmanuel Macron não parece convencido pelo perfil da ex-militante do PS, de 37 anos. Bernard Cazeneuve Este advogado de longo percurso político, iniciado na política regional e autárquica da Normandia, chegou a primeiro-ministro durante a presidência de François Hollande, ainda que por menos de meio ano. Foi o culminar de um percurso governamental com funções anteriores nos Assuntos Europeus, Orçamento e Interior. Abandonou o PS em 2022, quando este acordou a aliança eleitoral Nupes com a França Insubmissa. Face aos resultados eleitorais de julho, defendeu um governo de unidade nacional composto por todos os republicanos (ou seja, sem a extrema-esquerda nem a extrema-direita), em artigo no L’Opinion. Xavier Bertrand Aos 59 anos (menos dois que Cazeneuve), Bertrand apresenta-se como candidato não assumido da área do centro-direita. Presidente da região Hauts-de-France, desempenhou as funções de ministro da Saúde durante a presidência de Chirac e de ministro do Trabalho (por duas vezes) nos anos Sarkozy. Foi dos primeiros nomes lançados como hipótese à direita, tendo recebido elogios de vários ministros do Governo cessante. Michel Barnier O homem que chefiou as negociações do Brexit pela União Europeia é outra possibilidade à direita, numa lista em que também figuram os nomes de Valérie Pécresse (presidente da região Île-de-France) ou Jean-Louis Borloo (ex-ministro afastado da política), embora, ao contrário de Bertrand, que se mostrou recetivo ao convite de Macron, este se mantenha no maior mutismo. Karim Bouamrane.O autarca Karim Bouamrane. (Câmara de Saint-Ouen-Sur-Seine).Nos últimos dias, o nome do autarca de Saint-Ouen, no norte de Paris, passou também a ser mencionado como possibilidade caso a escolha recaísse à esquerda, em alternativa a Castets e a Cazeneuve. Nascido na vila a que preside, filho de pais marroquinos, o socialista de 51 anos apresenta um currículo exemplar enquanto autarca, e decerto atrativo para Macron enquanto político desempoeirado e crítico da França Insubmissa, e com experiência de trabalho em Silicon Valley. O jornal alemão Die Welt chamou-o de “Obama do Sena”. Jean-Dominique Sénard Caso o presidente opte por uma solução fora do sistema partidário, um tecnocrata desconhecido como Jean Castex, que foi primeiro-ministro entre 2020 e 2022, será escolhido. Ou então, como foi avançado na quinta-feira, o administrador do grupo Renault, Jean-Dominique Sénard, de 71 anos, tido como uma inspiração para o Governo macronista devido às suas preocupações sociais..cesar.avo@dn.pt