A presença dos administradores executivos das empresas mais representativas do setor da inteligência artificial é a grande novidade da reunião anual dos países mais ricos do mundo, o Grupo dos 7 (G7), que se reúne a partir desta segunda-feira e prossegue até quarta em Évian-les-Bains. O presidente Emmanuel Macron, único dirigente ainda no poder a par de Donald Trump aquando da anterior cimeira do G7 em França, em 2019, então no sudoeste (Biarritz), tem uma das derradeiras ocasiões para deixar uma marca sua no concerto das nações. Elegeu como prioridade para a presidência do grupo a redução dos desequilíbrios mundiais, indo ao encontro da vocação original do G7 (então G6), que é ajudar a resolver as crises económicas. “Concorrência predatória, excesso de capacidade industrial, subinvestimento, sobreendividamento e desregulamentação, retrocesso da solidariedade internacional, fraqueza dos investimentos privados nos países em desenvolvimento: estes desequilíbrios ameaçam a prosperidade e a estabilidade económica das nações, geram grandes tensões e enfraquecem o espírito de cooperação entre os povos”, aponta Macron num texto publicado no site do Eliseu.Na preparação da cimeira, o chefe de Estado francês reuniu-se com o primeiro-ministro canadiano e falou por videoconferência com o vice chinês. O primeiro, Mark Carney, é um aliado de Macron no que toca a um alinhamento no combate à guerra sem regras entre as superpotências. Como disse na cimeira de Davos: “Ou estamos à mesa, ou fazemos parte da ementa.” Do segundo, Zhang Guoqing, recebeu palavras de apelo à cooperação económica e crescimento inclusivo. . Ucrânia e desequilíbrios comerciais dominam encontro entre Macron e Xi Jinping.Segundo a agência Xinhua, Zhang apelou para um ambiente de comércio livre. “A China está a expandir de forma firme a abertura de alto nível e continuará a partilhar oportunidades de desenvolvimento com outros países para trazer mais certeza e estabilidade à economia mundial”, afirmou. Macron e outros dirigentes ocidentais querem mais do que declarações de intenções por parte de Pequim. Na última visita do francês à China, este disse a Xi Jinping que, se o país com recorde mundial de superávit não cooperar, a UE será forçada a tomar medidas protecionistas. Mas o facto de a China ter participado numa videoconferência preparatória do G7 é por si só digno de registo. O regime comunista tem um histórico de críticas ao grupo, que diz carecer de legitimidade e de representatividade para tratar dos temas da ordem mundial. Outros temas em cima da mesa são os “desafios geopolíticos”, com a situação no Médio Oriente e a guerra na Ucrânia à cabeça, e com a presença de Volodymyr Zelensky. Em ambos os casos, Trump estará no centro das atenções. No domingo, o presidente norte-americano esteve ao telefone cerca de uma hora com Vladimir Putin. Segundo Moscovo, Trump disse que os seus enviados Steve Witkoff e Jared Kushner em breve iriam de novo à capital russa.O líder ucraniano e os diplomatas europeus vão aproveitar a nova realidade no terreno — a superioridade aérea de Kiev e ataques continuados para lá das linhas da frente graças à guerra de drones — para relembrar ao empresário norte-americano que as condições propostas pelos EUA eram demasiado favoráveis para a Rússia. Os europeus também vão sinalizar estarem dispostos a negociar com Moscovo, mas numa posição de força e de aumento da pressão, com mais sanções e ajuda à Ucrânia. O futuro da inteligência artificial será debatido num almoço, na quarta-feira, entre os políticos e os executivos de uma dúzia de empresas de topo, como a Open AI, Anthropic, Google ou Meta. A regulação será a questão mais premente depois de há dias, a Anthropic ter pedido uma pausa no desenvolvimento dos modelos mais avançados de IA dados os riscos de saírem do controlo humano.Banhada pelo lago Léman, a localidade no sudeste de França mais conhecida apenas por Évian está em estado de alerta máximo para receber os líderes políticos. Tal como os vizinhos suíços, que na cimeira de 2003 na mesma estância termal viram a polícia entrar em confronto com parte das dezenas de milhares de manifestantes que se acumularam em Genebra e Lausana, após pilhagens e motins. No domingo, uma marcha que reuniu cerca de 20 mil pessoas (segundo as autoridades) em Genebra contra o G7 degenerou em confrontos entre os cerca de 600 elementos mais extremistas (Black Bloc) e a polícia. Desta vez, porém, as autoridades helvéticas estavam preparadas e, apesar de ações de vandalismo como a que teve como alvo um automóvel Tesla, que acabou incendiado, o porta-voz do departamento de segurança do cantão de Genebra, Laurent Paoliello, qualificou a ação policial de "sucesso".