Luaty Beirão. "Silêncio cúmplice" de Portugal contribui para "democracia de fachada" em Angola

Ativista e músico foi a única voz lusófona no palco principal do Oslo Freedom Forum, onde se discutiu o combate a ditaduras. Em entrevista ao DN, destaca "realidade devastadora que angolanos vivem".

"A voz desafiadora de uma nova geração". Foi assim que o luso-angolano Luaty Beirão foi apresentado no palco do Oslo Freedom Forum (OFF), evento que reuniu, na capital da Noruega, ativistas do mundo todo para debater o combate às ditaduras.

Luaty foi o único representante de um país lusófono entrar na programação principal do fórum. A sua trajetória como "rapper dissidente e líder de protestos" foi destacada como força para "mobilizar angolanos a lutarem contra o statu quo". O percurso do país desde a independência, em 1975, foi definido como "cinco décadas de ditadura". No Tyranny Tracker da Human Rights Foundation, fundação organizadora do OFF, Angola é classificado como um país sob um "regime totalmente autoritário".

Luaty ganhou notoriedade internacional em 2015, quando cumpriu 36 dias de greve de fome enquanto esteve na prisão, acusado de articular um golpe de Estado contra o então presidente José Eduardo dos Santos. Desde então, conta em entrevista ao DN, nada mudou, na sua análise. Segundo Luaty, "a realidade é de uma grande maioria ostracizada, ignorada e reprimida sempre que tenta dizer que tem fome, e uma minoria que se quer perpetuar no poder".

Para o músico, as tentativas recentes do governo de João Lourenço de tentar "lavar" a imagem do regime não passam despercebidas. O ator americano Will Smith esteve recentemente no país a promover um filme e uma competição desportiva de barcos. "Isto não ajuda àquilo que nós queremos defender em Angola, que é a abertura democrática. Quando se faz a lavagem de imagem de regimes e se usa a sua própria imagem para transportar para o exterior que Angola é um país acolhedor, como se tudo estivesse bem, não se está a fazer um serviço aos angolanos, está a trabalhar-se na ocultação da realidade devastadora que os angolanos vivem".

Luaty Beirão no palco do Oslo Freedom Forum.
Luaty Beirão no palco do Oslo Freedom Forum.Oslo Freedom Forum / Abrakadabra Studio

Angola vai a eleições em 2027 sem uma oposição articulada, segundo a análise de Luaty Beirão. "Como em muitos sítios do mundo, como vemos nas histórias, que Angola não é um país isolado, onde não há transparência, onde há opacidade, onde as constituições são fictícias, são apenas fachadas para simular democracias, estão normalmente ditadores que querem se perpetuar no poder", afirma.

O ativista condena os resultados das últimas eleições presidenciais, em 2022, que reelegeram João Lourenço. "O que acontece em Angola é o mesmo que a democracia de Angola, são eleições de fachada. Estes regimes sabem que devem criar uma legitimidade aos olhos da comunidade internacional. Então as eleições são, ciclicamente, aquele momento de tensão em que eles têm uma vez mais de preparar um simulacro em que precisam que todos nós participemos para dar esse ar de legitimidade, mas não são eleições. Eles já sabem quais são os resultados que vão apresentar".

Para o ativista, os posicionamentos de outros países, como o de Portugal, legitimam a situação. "Eu diria que a (relação) de Portugal, sobretudo, tornou-se quase uma relação de subserviência, em que os portugueses entendem a importância de se manterem em silêncio para conservar a amizade entre os povos. Os povos não, as elites".

"Há legitimação por parte das estruturas. Marcelo Rebelo de Sousa foi lá para a tomada de posse de eleições que todos contestavam (em 2022), portanto, quando se legitima aquilo de que o povo reclama, não se está ao serviço de uma amizade entre os povos, está-se ao serviço de conluios entre elites", conclui.

* A jornalista viajou a convite do Oslo Freedom Forum.

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