Marine Le Pen foi três vezes candidata às presidenciais francesas e é a favorita nas sondagens para a primeira volta de 2027. Mas a deputada do Reunião Nacional (RN, antiga Frente Nacional) pode nem sequer estar no boletim de voto. Em causa está um processo em que é acusada de desvio de fundos do Parlamento Europeu, arriscando ficar proibida de concorrer a cargos públicos por dez anos. O julgamento começou esta segunda-feira, com Le Pen a rejeitar ter cometido qualquer crime e a expressar “serenidade” em relação ao caso..“Abordo este julgamento com grande serenidade. Temos um enorme número de argumentos para defender o que me parece ser a liberdade parlamentar que está em causa neste caso”, disse a antiga líder do RN, que foi eurodeputada entre 2004 e 2017. “Não violámos nenhuma regra política e nenhuma regra regulamentar de qualquer tipo do Parlamento Europeu”, acrescentou aos jornalistas à entrada para o tribunal em Paris. .Le Pen, o próprio RN e outros 24 arguidos são acusados de usar o dinheiro que o Parlamento Europeu destina para pagar aos assistentes parlamentares dos eurodeputados para os salários de funcionários que trabalhavam na realidade (a tempo inteiro ou apenas parcial) para o partido - algo que está proibido segundo o regulamento do hemiciclo. Um exemplo: uma das supostas assistentes parlamentares era, de facto, a secretária pessoal de Jean-Marie Le Pen. Outro, o seu guarda-costas. O pai de Marine e líder histórico da Frente Nacional, de 86 anos, é outro dos acusados, mas por questões de saúde não irá estar em tribunal..Os arguidos arriscam uma pena de até dez anos de prisão e uma multa de um milhão de euros, além da proibição de concorrer a cargos públicos - até dez anos para aqueles que ocupavam um desses cargos à altura dos factos. Segundo a acusação o partido tinha criado um “sistema”, que existiu entre 2004 e 2016. O Parlamento Europeu calcula em cerca de 3,7 milhões de euros o prejuízo financeiro - cada eurodeputado tem direito a um “envelope” de 21 mil euros mensais para contratar a sua equipa. Um milhão de euros já foi reembolsado pelo RN, que recusa ver nesse gesto uma admissão de culpa..O partido nega de facto ter cometido qualquer crime, alegando que “os assistentes parlamentares não são funcionários do Parlamento Europeu” e são políticos por natureza. Vários eurodeputados alegam ainda que havia uma “mutualização” do trabalho dos assistentes, que acabam também por ser funcionários do partido. Em causa, explicam, está “uma leitura diferente” do trabalho de um assistente parlamentar em França ou em Bruxelas. O julgamento decorre três vezes por semana e deverá durar até 27 de novembro, com qualquer sentença a poder ser alvo de recurso..“Tenho confiança na justiça ou não estava aqui”, disse Le Pen, que é advogada, deixando claro que este processo não a irá enfraquecer. “Responderei a todas as questões que o tribunal quiser fazer”, acrescentou. A líder do grupo parlamentar no RN, que liderou o partido entre 2011 e 2021, quer aproveitar este caso para ganhar ainda mais destaque e apoio, acreditando que será ilibada e que isso ainda reforçará mais as suas hipóteses eleitorais. “Vimos no caso do [ex-presidente dos EUA Donald] Trump como ganhou força e apoio ao longo dos seus julgamentos”, diz uma análise do Eurointelligence numa nota, citada pela Reuters..susana.f.salvador@dn.pt