Os líderes dos 32 países da NATO reúnem-se esta terça e quarta-feira (7 e 8 de julho) em Ancara, sendo esperado que os europeus tentem reduzir o clima de tensão com Donald Trump após fricções sobre a Gronelândia e o Irão, mas também que mostrem aos Estados Unidos que estão prontos para assumir a liderança da defesa do continente, face às exigências de Washington para que gastem mais e sejam mais independentes e ao anúncio de que irão retirar tropas e meios da Europa - aquilo que a Casa Branca vê como sendo a NATO 3.0. “À medida que a cimeira de Ancara se aproxima, a Aliança transatlântica enfrenta um dos seus testes mais difíceis. As ameaças de Donald Trump de retirar os Estados Unidos da NATO, as exigências em relação à Gronelândia, os pedidos de apoio não atendidos referentes à guerra no Irão e uma abordagem imprevisível em relação ao processo de paz na Ucrânia prejudicaram profundamente a confiança transatlântica. Neste contexto, o resultado mais importante da cimeira seria, simplesmente, a sua realização com a participação de Trump e uma firme reafirmação do compromisso com o artigo 5.º do Tratado de Washington”, referiu Pinar Dost, investigadora do Atlantic Council, numa análise sobre a reunião desta semana. Na sua recente visita à Casa Branca, em finais de junho, o secretário-geral da Aliança, Mark Rutte, fez questão de sublinhar ao presidente norte-americano que “os europeus e o Canadá estão numa trajetória para igualar os seus gastos com os Estados Unidos”, especificando que estão a gastar “quase 20% mais” em defesa em 2025 do que no ano anterior - de acordo com o secretário-geral da NATO, os membros europeus e o Canadá aumentaram as despesas com a defesa em 90 mil milhões de dólares em 2025 em relação ao ano anterior, elevando a despesa total para além dos 570 mil milhões de dólares. De recordar que há um ano, na cimeira de Haia, os 32 países da NATO comprometeram-se a elevar os gastos principais com defesa para 3,5% do PIB até 2035, subindo a meta anterior de 2%. Foi ainda acordado alocar 1,5% adicional do PIB a investimentos mais amplos relacionados com a defesa, desde infraestruturas a melhorias na cibersegurança.Mas, aparentemente, Trump não terá ficado convencido com mais esta investida de charme de Rutte, tendo escrito na sexta-feira na Truth Social considerar “ridículo” os EUA manterem uma relação “unilateral” com a NATO, sublinhando que esta “não é recíproca”. “Eles não estiveram lá por nós!!!”, prosseguiu, repetindo o que tem vindo a dizer desde que vários países europeus se recusaram a cooperar com Washington na guerra com o Irão. No dia da sua ida à Casa Branca, Rutte falou também com os líderes do chamado E5 - França, Alemanha, Reino Unido, Itália e Polónia - para discutir a cimeira da NATO, com o chanceler Friedrich Merz a afirmar que uma reunião bem-sucedida em Ancara iria permitir fortalecer os laços transatlânticos com os EUA “e aproximar-nos como europeus”. Já Emmanuel Macron e Giorgia Meloni garantiram que os europeus iriam usar a cimeira para sinalizar a sua prontidão para uma missão no Estreito de Ormuz, mas apenas depois de EUA e Irão finalizarem o acordo de paz. Os E5 deixaram ainda claro que levarão para Ancara “um forte sinal de apoio à Ucrânia”, como sublinhou Merz, com o grupo a comprometer-se “a continuar a apoiar substancialmente a Ucrânia na sua defesa contra a agressão russa”. Esta segunda-feira, na antevisão da cimeira, Rutte reafirmou que a reunião de Ancara vai focar-se em garantir que os aliados têm “planos claros, concretos e credíveis” para atingir os 5%, reforçando que o progresso é “impressionante”. “Após anos de subinvestimento, estamos a gerar capacidades reais”, declarou, acrescentando que “vamos precisar de mais forças, mais recursos e uma base industrial muito mais robusta”.O neerlandês salientou ainda que as mudanças na estrutura da Aliança demonstram uma “real mudança de mentalidade, uma Europa mais forte e uma NATO mais forte” e adiantou que os aliados irão anunciar nestes dois dias “dezenas de milhares de milhões em novos contratos” para “deter e defender”, fortalecendo as suas indústrias militares. Falando sobre a Ucrânia, na sua opinião, Kiev “está a mudar a dinâmica no campo de batalha”, ressalvando que as forças armadas ucranianas “precisam do nosso apoio contínuo, especialmente no que diz respeito à defesa aérea”. “Quero deixar claro: todos os aliados precisam de fazer a sua parte para que o nosso apoio à Ucrânia continue a fluir”, alertou Rutte. Volodymyr Zelensky não participará na reunião, mas estará em Ancara para vários encontros, como um jantar oferecido pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. De acordo com a Reuters, é esperado que os laços pessoais de Trump com Erdogan e Rutte ajudem a cimeira a decorrer sem problemas, embora haja o risco de tal não acontecer devido à tensão entre os EUA e o resto dos aliados por causa do Irão, mas também a Gronelândia, e às constantes críticas do presidente norte-americano à NATO. A par disto, os aliados terão ainda que lidar com a recente contenda entre o presidente norte-americano e a sua antiga aliada italiana Giorgia Meloni, a tensão entre Trump e o canadiano Mark Carney e as críticas que tem feito nos últimos meses a Keir Starmer - este último caso com menos impacto já que o britânico está prestes a abandonar a liderança do governo. Face a isto, o presidente dos EUA tem previstos, para já, apenas dois encontros bilaterais: um com o seu amigo e anfitrião da cimeira Erdogan e outro com Volodymyr Zelensky, com quem falou ao telefone no sábado (também conversou com Vladimir Putin). Falando ontem sobre os dois telefonemas, Donald Trump garantiu que o fim da guerra está “muito mais próximo do que as pessoas imaginam”. “O presidente Putin quer que isto acabe. Posso afirmar isto com muita convicção. Foi uma grande conversa. E o presidente Zelensky também quer que isto termine agora. Vamos tratar disto com a NATO e discutir o assunto; acredito que vamos conseguir, acho que vamos conseguir pôr fim ao conflito.”Outro tema que está em cima da mesa nestes dois dias é a decisão de Washington de retirar tropas da Europa e reduzir as forças destinadas aos planos de defesa da NATO, incluindo um porta-aviões, aviões de reabastecimento, caças e drones. Além disso, o Pentágono iniciou uma revisão de seis meses da sua presença militar geral no continente. Mark Rutte foi esta segunda-feira questionado sobre estes planos dos EUA e o que isso significa para a dissuasão de ameaças provenientes da Rússia, confirmando que nomeadamente a questão dos drones será discutida durante a cimeira. “O que os EUA fizeram, e considero isso importante, foi reavaliar o que podem oferecer à NATO num cenário de conflito em dois teatros de operações; digamos, um conflito no Indo-Pacífico e outro na região Euro-Atlântica. Como já declarou o general Grynkewich, Comandante Supremo Aliado, saber com o que podemos contar torna-nos mais fortes. Não se trata de uma redução drástica naquilo que irão fornecer; sabemos agora com muito mais precisão o que os americanos podem oferecer, e os europeus já estão a colmatar essas lacunas”, defendeu o secretário-geral da NATO, sublinhando não ser “sustentável” que a Europa dependa dos EUA para a sua defesa..Europa celebra “viragem da maré” para Kiev em dia de críticas dos EUA sobre a NATO.A NATO entre o alerta de Tusk e a cimeira de Ancara.Líder da NATO diz que os europeus “entenderam a mensagem” de Trump