O primeiro dia da nova ronda de negociações tripartidas entre EUA, Rússia e Ucrânia terminou esta terça-feira, 17 de fevereiro, em Genebra ao fim de quase cinco horas. “As discussões focaram-se em questões práticas e nos mecanismos de possíveis soluções”, indicou no X o principal negociador ucraniano, Rustem Umerov, sem falar em avanços ou progressos e lembrando que os trabalhos (e terá havido uma divisão entre diferentes grupos por tema) são retomados na manhã de quarta-feira (18 de fevereiro). Mas uma fonte russa disse à AFP que as negociações foram “muito tensas”. O negociador ucraniano, que é também secretário de Segurança e Defesa Nacional, agradeceu aos “parceiros” norte-americanos “pelo seu empenho construtivo e pela disponibilidade para trabalhar a um ritmo constante”. Antes do início da reunião, Umerov tinha agradecido também à Suíça por acolher esta que é a terceira ronda de negociações - o cenário é o Hotel InterContinental em Genebra -, mostrando-se confiante. “Temos os marcos aprovados pelo presidente [Volodymyr Zelensky] e um mandato claro. Questões de segurança e humanitárias estão na agenda”, tinha dito ao princípio da tarde, antes do início da reunião pouco antes das 14h00 locais (13h00 em Lisboa). “Estamos a trabalhar de forma construtiva, focada e sem expectativas excessivas. A nossa tarefa é avançar ao máximo nas soluções que nos possam aproximar de uma paz duradoura”, acrescentou. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, tinha dito na véspera que a Rússia esperava mais desta terceira ronda de negociações. “Desta vez, a ideia é discutir um leque mais amplo de questões, incluindo, de facto, as principais. As questões principais dizem respeito tanto aos territórios como a tudo aquilo que envolve as exigências que formulámos”, afirmou na segunda-feira (16 de fevereiro). Peskov disse ainda que não esperava resultados no primeiro dia de diálogo tripartido, lembrando que este ia continuar mais um dia. O presidente norte-americano, Donald Trump, voltou entretanto a pressionar os ucranianos. Questionado pelos jornalistas a bordo do Air Force One sobre o que esperava das negociações em Genebra, o presidente disse na segunda-feira à noite: “A Ucrânia precisa de se sentar à mesa das negociações rapidamente. É tudo o que vos vou dizer.” Zelensky lamentou no fim de semana, na Conferência de Segurança de Munique, que os EUA se estivessem a focar na ideia de que Kiev precisa de fazer concessões em fez de pressionar a Rússia nesse sentido. .Zelensky acusa EUA de pedirem demasiadas vezes “concessões” à Ucrânia, mas não à Rússia.A nova ronda de negociações tripartidas surge depois de mais uma noite de ataques russos, numa semana em que a Ucrânia recuperou quase 200 quilómetros quadrados de território - em parte devido ao facto de os russos estarem há duas semanas sem sistema de comunicações Starlink. O que não parece afetar a sua capacidade de levar a cabo bombardeamentos. Zelensky disse que durante a noite de segunda para terça-feira foram usados 29 mísseis de vários tipos, incluindo balísticos, além de quase 400 drones. “Um número significativo foi abatido, mas infelizmente também houve impactos”, escreveu no X, falando em pelo menos nove feridos (incluindo crianças). “Mesmo no dia do início das negociações em Genebra a Rússia responde com um ataque. Isto demonstra claramente o que a Rússia quer e o que está determinada a alcançar”, indicou o presidente no Telegram, já depois do final das negociações mas antes de receber o relatório. “Estamos prontos para avançar rapidamente para um acordo viável para pôr fim à guerra. A questão é apenas para os russos: o que querem? E também, haverá consequências para a Rússia pelo facto de os ‘mártires’, os mísseis e os discursos fantasiosos sobre temas históricos serem mais importantes para eles do que a diplomacia real e uma paz duradoura?”, questionou.Entretanto, na região russa de Leningrado, pelo menos duas pessoas morreram na destruição de dois andares do edifício da polícia militar localizado dentro de uma base em Sertolovo. Terá havido uma explosão, não sendo claro o que a terá provocado. Segundo a agência russa Tass, uma investigação foi aberta por negligência e violação das regras de segurança contra incêndios. Aviso aos europeusA União Europeia não tem lugar à mesa (tem representantes em Genebra para dialogar com os ucranianos à margem), mas não significa que não esteja na mira de Moscovo. Nikolai Patrushev, um assessor próximo do presidente Vladimir Putin, defendeu ontem o envio da Marinha para impedir os europeus de apreenderem os petroleiros russos. “Se não lhes dermos uma resposta firme, em breve os britânicos, os franceses e até os bálticos tornar-se-ão tão arrogantes que tentarão bloquear o acesso do nosso país aos mares, pelo menos na bacia do Atlântico”, disse o também líder do Conselho Marítimo da Rússia ao semanário Argumenty i Fakty. E defendeu usar a Marinha para “arrefecer o fervor dos piratas ocidentais”. Patrushev alegou ainda que a NATO estaria a planear bloquear o enclave de Kaliningrado. “Qualquer tentativa de bloqueio naval ao nosso país é completamente ilegal do ponto de vista do direito internacional, e o conceito de ‘frota fantasma’, que os representantes da UE brandem a todo o momento, é uma ficção jurídica.” O nome é usado para referir os petroleiros com falsa bandeira que são usados pela Rússia para contornar as sanções internacionais. Os países europeus apreenderam alguns destes navios. “Ao implementarem os seus planos de bloqueio naval, os europeus procuram deliberadamente um cenário de escalada militar, testando os limites da nossa paciência e provocando medidas de retaliação ativas”, disse o assessor de Putin. “Se uma resolução pacífica para esta situação falhar, o bloqueio será quebrado e eliminado pela Marinha”, concluiu. .Delegação da Ucrânia viaja para Genebra para nova ronda de negociações com Rússia e EUA